terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Parabéns AvóMágica 10-02-1920


“ As coisas vulgares que há na vida não deixam Saudades”

É dificil dissociar a minha avó da minha história pessoal. Ela está em todas as coisas que sou, penso e faço. Ela tem magia. É a pessoa que maior conhecimento me transmitiu apesar de só ter a 2ª classe. Sem ela eu seria incompleta. As minhas recordações mais deliciosas estão relaccionadas com ela. Felizmente deu-me sempre liberdade para ser igual a mim própria (mesmo que isso me custasse umas vassouradas) portanto aproveitei as centenas de oportunidades que tive para lhe mostrar o meu amor e gratidão. Éramos inseparáveis.
Nos últimos anos o Alzheimer roubou-lhe a memória, a energia e a autonomia. Às vezes reconhece-me. Preferia que não. Parte-me o coração quando a sinto chegar de outra parte da vida, ouvi-la dizer “É a Sóninha” e logo de seguida voltar para o mundo escuro e distante em que vive. Não quero que se lembre de mim. Eu lembro-me o suficiente pela duas.E Lembrar-me-ei sempre tal como ela se lembrou sempre da avó dela e me contou com o carinho de neta preferida, que também foi, as estórias que lhe ouviu.

Carambas marianita que lindo avental o teu
Mas que bem que ele te fica
Diz-me quem foi que te deu

Está fazendo mangação
Do avental que me deu minha tia
Se me pudesse roubar para vocemecê não o queria
Mas sim ia oferecê-lo à minha prima Maria

O namoro de tua prima foi só para tempo passar
Tenho estado sempre à espera que te acabes de criar
Como já estás mulherzinha já te posso perguntar

Meu pai não dá licença e minha mãe pode ralhar
Contudo, se nenhum deles deixar
Namoramos às escondidas
Onde a gente se encontrar


Tradição oral alentejana. Cantilena que uma das minhas trisavós contava à minha avó Maria Luísa Garrido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Anos 60 bem medidos

















































Quanto se vive com 8 jovens de países diferentes que, por sua vez, conhecem outros jovens de países diferentes (que conhecem jovens de países diferente e por aí adiante), é impossível fugir ao ciclo das festas. Há sempre uma festa algures em Skopje. Se os bares estão fechados há sempre uma casa internacional pronta para acolher quem ainda não tem sono.
Depois das Ladies-Night vividas nos tempos da faculdade ,em Lisboa, confesso que não tenho energia para ficar acordada até de manhã, ver o sol nascer com um copo de Skopsko na mão, mas é sempre bom ir. Há sempre amigos para rever e novas pessoas para conhecer. Pelo meio, invariávelmente, há sempre alguém que surge do nada e pergunta “It´s true you come from Portugal?OOOHHH, it´s so great...”.
Bom, narcizismo à parte, estou aqui para vos contar que eu e os meus 8 camaradas decidimos que até ao final do nosso projecto vamos organizar uma grande festa todos os meses. Como a música é um grande mote para a felicidade e, uma vez que faltam apenas 4 meses, decidimos que a cada mês corresponderá uma década, sendo que a “viagem”decorrerá entre os anos 60 até meados da década de 90.
Assim, começàmos no passado fim-de-semana, com uma grande festa de homenagem ao Twist e ao Yeah-Yeah. Era suposto estarmos vestidos a rigor mas muitos falharam o compromisso.Não faz mal. Imaginemos que são visionários e sabem o que se irá usar em 2009,pronto!
“La Bamba”, “Yellow Submarine”, “Mercedes-Benz”, “Let´s twist again” abrilhantaram a nossa noite de glória. A casa estava cheia de pessoas que nunca vi na vida e, disseram-me depois, que estavam representadas mais de 8 nacionalidades.
No final da noite quando os joelhos, pela força do cansaço, já não podiam rodar no twist, a dj foi generosa e avançou, por 10 minutos, até aos 80´s. E, claro, não seria a minha festa se não tivesse Guns N´Roses. Os últimos sobreviventes deixaram a festa com um grande sorriso, abraçados a cantar, pertinentemente, “Where do you go now, Where do you go noooww, aiaiiiiaiaiiiiiii”.
Leitores quero sugerir-vos que se deem ao prazer de viver estas experiências. Todos trazem algo para beber e petiscar. Ouve-se boa música,dança-se um bocado. É uma noite diferente que faz com que todos renasçam e saiam da rotina. Sentimo-nos frescos, mesmo que a casa esteja de pernas para o ar.
Se no final da noite os remorsos pelo incómodo causado ao vizinhos vos começarem a roer nas consciências (se a tiverem) tentem ser ultra-simpáticos no dia seguinte e ofereçam-se para carregar as compras até ao elevador. Se, na festa, vos calhar um penetra que bebeu demais, que está cheio de autoconfiança, que acha que é o maior e que por isso nunca mais vai embora digam-lhe sinceramente que está a ser chato. Se já não restar energia para pegar na vassoura e limpar os “destroços” ponham a vossa música preferida a tocar.

Divirtam-se e contem-me como foi!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Domingo Preguiçoso


O Domingo é, por excelência, o dia da preguiça e da informalidade.
No Verão sabe bem vestir roupas informais, sair e aproveitar o sol mas no Inverno é bom ficar no sofá, aproveitar a vasta oferta de filmes nos canais abertos. Ficamos todo o dia num estado de letárgia a saborear o pijama, as meias grossas,o saquinho de água quente e as bolachas Maria com manteiga às carradas. Procrastinamos a vida para o dia seguinte.
Porém já vos ocorreu que nesses domingos há mais alguns milhões de pessoas a fazerem o mesmo?
Pois bem,há algum tempo uma amiga falou-me de um novo conceito que está a emergir. Consiste na partilha da preguiça de Domingo, ou seja, em vez de estarmos a preguiçar sózinhos,juntamo-nos em casa de algum amigo (que tem amigos, que têm amigos), usamos roupas confortáveis, compramos alguma coisa para comer e partilhamos a nossa preguiça domingueira com outros preguiçosos.Vivêmo-la em Comunidade.
Note-se que "alguma coisa para comer" deverá ser nada muito elaborado. Lembrem-se que é Domingo e estamos todos cheios de moleza, sem vontade de cozinhar.
Claro que esta situação rouba um pouco a magia do "coma domingueiro" mas parece-me um conceito bastante interessante e engraçado.

Hoje comprei o DVD do novo filme do Woddy Allen. Vou convidar os meus amigos mais próximos a virem até ao meu quarto no próximo Domingo.
Hhhmmm, que preguiça que me deu agora!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Algures por aí

Andei em Viagem...
Depois de Lisboa estive em Belgrado num intercâmbio sobre linguagem corporal/slapstick. Estavam lá macedónios, bósnios, islandeses, suecos, portugues, croatas, romenos e sérvios, muitos sérvios. Como representante da Macedónia senti um grande prazer por poder observar o grupo português de um novo ponto de vista. Observei muitas coisas tipicamente portuguesas e confesso que alguma delas me irritaram e entristeceram. Não quero falar disso aqui. Não sou o Velho do Restelo.
Durante os intercâmbios sinto sempre vontade de voltar para casa. Não consigo adaptar-me aquele novo ambiente intensivo, cheio de pessoas, de diferentes países e culturas. Sinto sempre que há uma certa imposição para fazer amigos e chorar de alegria. Esse não é o meu estilo. Normalmente opto por ir mais cedo para o quarto e ficar por lá sossegada a ler ou a escrever. Depois, com o passar dos intensos dias de intercâmbio, surgem algumas pessoas com quem sabe bem conversar e partilhar ideias. Depois quando até já não está a ser assim tão mau é hora de voltar para casa.
No ultimo dia fomos para a praça principal da cidade e fizemos uma Peça de rua. Foi muito interesse e libertador. Senti que voei.
É um prazer regressar a Belgrado. Definitiamente é a minha cidade preferida nos Balcãs. É grande, tem energia e desta vez tinha muita neve e frio. Há sempre vida e gente nas ruas. Há sempre um café interessante onde ir beber um chá e comer uma fatia de bolo vindo directamente do paraíso.
Agora estou novamente em Skopje. Não ficarei por cá muito tempo: Sofia, Istambul,Ohrid, Kosovo. Há sempre mais sítios para conhecer mas mesmo assim é bom voltar aos amigos que já fiz aqui e à minha cama com uma colcha amarela. Ultimamente sinto-me particularmente feliz porque descobri mais um português a viver neste fim do mundo. É o André, tem vinte e poucos,esteve cá há 2 anos na minha ONG num projecto relaccionado com cinema. Apaixonou-se por uma rapariga macedónia e resolveu mudar-se para cá. Quando nos encontrámos pela primeira vez falámos muito e foi muito agradável comentar a Macedónia,com o mesmo ponto de vista e herança cultural.

De Portugal tenho tido poucas notícias mas fiquei triste por saber que o vocalista d´Os Sitiados, João Aguardela, morreu. “A vida de marinheiro” é um clássico na vida de todos nós.

Quando estava em Belgrado terminei de ler “Os cus de Judas”, de Lobo Antunes. Já li muitos livros que abordam a temática da Guerra Colonial mas mesmo assim nunca consigo ficar insensível à destruição de 2 gerações de portugueses. Não apenas dos soldados que partiram para África mas também as famílias que se destruíram mesmo quando os bravos voltaram vivos para Portugal.
Sugiro a leitura do livro. Se, com razão, não estiverem interessados em gastar 16€ num livro sugiro que leiam as crónicas semanais do mesmo autor, na revista Visão www.visao.pt (lado direito, em baixo)

Observações de um ser quase adormecido

Munique, 5 de Janeiro de 2009

Estou no Aeroporto de Munique pela bilionésima vez. Já fui ver alguma lojas, já me fui borrifar com perfumes que, embora não tenham taxas, são inacessíveis aos meus bolsos de “assalariada” ilegal na Macedónia.
Descobri que todo o Aeroporto está desenhado de maneira a nao permitir que os traunseuntes durmam uma sesta entre um voo e outro. Para falar a verdade, nem me atreveria a adormecer num aeroporto de um país tão recto e industrial.
Talvez seja um estereotipo (é com toda a certeza) mas todas os relatos que amigos e conhecidos me fazem da Alemanha descrevem um país onde tudo é irritantemente perfeito. Inclusivé este é o relato dos alemães.
Já percebi que quem viaja em classe económica não tem acesso aos Lounges e à internet. Grande treta. Um país evoluído excluí desta forma o acesso á informação.
Faltam 5 horas para o meu próximo voo. Sei que as viagens para o centro da Cidade custam um absurdo e demoram mais de 1 hora e meia,ida e volta. Resta-me, portanto, ficar aqui sentada . Observar e ser observada.
Menos mal: o café, o chá e o sumo de limão são de borla, para TODOS. Ah, e os jornais diários, da Alemanha, também. Ich Spreche keine Deutsche
Tento fazer exercícios mentais. Tento manter-me acordada. Inevitalmente estes exercícios acabam na estereotipação dos que passam.
À minha frente está um casal de meia-idade. Parecem-me portugueses. Estão a beber galão e um pão esquisito. O homem até me parece que está com cara de quem está a pensar “O que eu queria era um paposeco”...Ah, descubro que são franceses mas pareciam mesmo portugueses. (agora até sinto um certo orgulho. Os franceses, normalmente, tem um estereotipo bastante pejorativo dos portugueses)
Depois tento sonhar com destinos. Nunca me senti muita atraída por destinos tropicais mas inevitavelmente desejo embarcar no voo para o Rio de Janeiro. Olho pela janela do Aeroporto e vejo neve. Imagino como seria depois de uma viagem longa(e puro pânico) chegar à cidade maravilhosa. Nadar nas águas frias de Copacabana e subir ao Corcuvado. Passear nas ruas mais antigas onde são visiveis as influências da arquitectura europeia.
Também começo a sentir curiosidade pelas Megatrópoles do Oriente. Sei que é preciso algum dinheiro. Arrumo o Oriente na minha caixa de sonhos mentais para depois dos 40. Como não planeio ter filhos não me parece de todo impossível.
Antes, concerteza, vem a tão sonhada viagem à Patagónia argentina. Visitar o estreito de Magalhães e conhecer parte da rota do primeiro humano que fez um interrail à volta do mundo. Por vezes sinto-me um pouco como ele. Frequentemente oiço as pessoas dizerem-me “Sónia és a primeira portuguesa que conheço”!!!
Pelo meio desejo passar uma temporada de longos anos em Cabo-Verde. Ter a minha própria casa na Ilha de São Vicente. Sentar-me ao final do dia, nos degraus da frente, descalçar os sapatos e conversar com os vizinhos sobre as rotinas da Ilha. No fim, com um suspiro, dizer a mais linda expressão criada pelo Homem “N´STA SABIA”
Vou deambulando por Paris. Imagino-me com a minha boína azul, a deambular pelas margens do Rio Sena. A língua francesa sempre foi uma das minhas preferidas. Estudei-a durante 8 anos. Nos ultimos 2 anos era boa aluna e conseguia manter uma conversação. Agora já esqueci quase tudo, já esqueci grande parte do vocabulário , pu-la em 4ºlugar na minha lista de idiomas preferidos. Assim se perdeu uma entusiasta.
Também me apetecia dar um “saltinho” a Sevilha. Quem sabe assistir a um concerto do Paco de Lúcia e não fazer nada o resto do tempo. Apenas sonhar com este “torero”. Há que aproveitar a atmosfera andaluza!!
Acabo por perceber que o que me faz sonhar tão entusiasticamente com outros destinos é a cruel realidade que me espera: um voo até Sofia, uma noite na estação de autocarros, 6 ou 7 horas de viagem até Skopje e, pelo meio, a dificil interacção com as fronteiras fora do espaço Schengen!
Mais 6 meses de aventura nos Balcãs. Valerá a pena? Quando estou lá,rodeada de amigos, sinto que já valeu a pena por isso. Sinto que nunca estive realmente sózinha. Sinto que alguma coisa já mudou dentro de mim. No entanto fico mesmo chateada quando tomo consciência que pouca coisa mudou para eles.Para a grande maioria deles depois de mim, depois dos meus oito colegas de nacionalidades diferentes vão chegar outros “colegas” recheados de fundos da União Europeia. Eles, vão continuar a alimentar a guerra fria que mantêm com os países vizinhos.
Há pouco brincava com os estereotipos. Considero-os, até, necessários, porém não há nada mais gratificante que aceitar a multiculturalidade. Vivê-la intensamente como se fosse uma dádiva.
Salazar ousou dizer que estávamos “orgulhosamente sós”. Jamais os seres humanos gostaram de estar sós. Quando o fogo apareceu o aparelho fonético foi desenvolvido e surgiu o serão. Os seres humanos tinham, por fim, uma razão para ficarem acordados até às tantas.

LISBOA, 1 de Janeiro de 2009

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Recordar é viver

Andava a passear por perfis e páginas de amigos, na net,e encontrei fotos antigas.
Todas reflectem felicidade e amizade.
Decidi partilhar convosco:






bbbrrr. que medo



21 de Dezembro de 2008
Escrito no voo Sofia-»Munique

Não sei onde estou, não sei que horas são mas sei que estou borrada de medo.
O avião balança muito. Talvez porque estou no penúltimo lugar, junto à cauda.
À minha frente tenho uma foto deliciosa dos meus sobrinhos com a minha irmã e um livro que eles costumavam usar no banho. Tenho também uma fotografia com o Padre Cruz. Não sei bem quem foi mas o meu padrasto deu-me antes de partir para a MKD. Acho que ele também não é muito crente mas ás vezes é bom termos as nossas muletas espirituais. Quando a vida aperta conosco é bom chamar por alguém sobre o qual não sabemos muito. Sabemos apenas que nos vai confortar.
Esta noite não dormi muito bem.Estou esgotada. Quero descansar mas com este treme-treme do avião não consigo.
De verdade que sinto um certo fascínio pelo Leonardo da Vinci, sobretudo depois de ter visto pessoalmente algumas das suas obras mas ,por vezes,odeio-o por ter pensado nos aviões e odeio todos aqueles que sonharam e contribuiram para que o avião seja hoje um meio de transporte essencial.
Oxalá ninguém se tivesse lembrado desta maquineta. Em contrapartida o comboio, o meio de transporte mais charmoso e propício à socialização, teria sido desenvolvido e seria hoje o único rei entre os meios de transporte do planeta


(*o comandante do avião acabou de dizer que estamos a sobrevoar Budapeste)

Sónia em Sofia









































21 de Dezembro de 2008

Estou sentada num mercado coberto em Sofia, Bulgária.
Nesta cidade as fatias de pizza são enormes e custam menos de 2 BLG (cerca de 1€). São boas e reforçam a minha teoria de que as piores pizzas do mundo comem-se em Itália.
Gosto de Sofia. Confesso que o meu coração está dividido entre Sofia e Belgrado.Ambas são as cidades mais interessantes que visitei nos Balcãs.
A Bulgária tem caracterísiticas de um país em desenvolvimento. Entrou na União Europeia em 2007 e isso é visível no poder de compra: os carros, as lojas, as roupas, as obras públicas. Enfim, a confiança dos cidadãos. Desde 2007 sabem que nada de muito mau lhes poderá acontecer porque terão sempre o suporte da UE. Claro, um dia quando os campos estiverem desertos, quando a sociedade for predominantemente terciária (em prole da agricultura nos países ricos e fortes e da indústria implementada em países onde a mão-de-obra é barata)os búlgaros vão provar o fel da UE. Ainda assim acho preferível pertencer a esta grande união que nos protege com uma mão e nos empurra para o precipício com a outra. As vantagens sobrepõem-se e, talvez, a tão aguardada 1ª geração europeísta nunca sofra as consequências nefastas.
É interessante ver a evolução destes novos países-membros.Como se sabe é característica dos países em desenvolvimento a ostenção de bens materiais. Em Portugal também passámos por este processo, nos anos 80. Inicialmente não comprávamos porque não tínhamos dinheiro. Depois começámos a comprar mais porque tínhamos mais dinheiro. Quando começámos a ter ainda mais dinheiro, deixou de ser suficiente para os nossos hábitos de consumo e começamos a usar cartões de crédito. Agora já não usamos dinheiro porque estamos cerca de 115% endividados mas contínuamos a gastar, talvez até um pouco mais.
A grande diferença em relação a estes novos países reside no processo de adaptação ao mercado capital. Talvez porque a sociedade de massas fosse bastante mais humilde e naquela altura tínhamos como veículos de informação o rádio, a televisão e as revistas que chegavam de Espanha e traziam notícias com algumas semanas de atraso.
Lembro-me que quando era mais miuda (ainda sou miuda) tinha de escolher: se quisesse os ténis de marca tinha de me contentar com as Levis dos ciganos e as blusas do continente.Não existia a urgência de comprar que se verifica hoje.Agora a MTV, a internet não permitem atrasos. Aqui em Sofia não se vêm Zaras ou Bershkas. Não existe o meio-termo. As grandes avenidas estão recheadas de lojas caras como Miss Sixty, Calvin Klein, Stella McCartney, Lee Cooper e todo um cardápio de consumo topo de gama. Os búlgaros já não precisam esperar e tudo isto está espelhado nas ruas. As pessoas têm uma excelência aparência.
Não os invejo, nem os condeno. É tudo uma questão de auto-valorização. E de verdade que gosto de olhar para estes povos no Balcãs e vê-los sempre tão produzidos, como se estivessem sempre prontos para irem para uma festa de Sábado à noite. It´s evolution, baby!
Sofia é uma cidade lindíssima, com grandes monumentos e avenidas a perder de vista. Merece gente bonita, actualizada e com charme.
Nota-se que há Europa nesta cidade. Ao fim de 3 meses e 1 semana nem imaginam como é reconfortante encontrar "semelhantes sociais" e rever notas de Euro.
Dentro de 4 horas apanho os aviões para Lisboa. Estou ansiosa por namorar outra vez a minha cidade e ver o que mudou. Ver a evolução e comparar.
Não é pecado comparar. Quero que o mundo que tenho visto me torne uma portuguesa construtiva. Não somos melhores, nem piores, somos apenas diferentes. Temos a nossa cultura. Por vezes gostava que Portugal tivesse gerido melhor a oportunidade europeia porém encontro nos outros países mais ricos as mesmas dificuldades e a mesma dependência chocante do cartão de crédito.
No fundo não nos saímos assim tão mal e...todos gostam de nós.

Até já Portugal.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

"Soneto do Amor Total" a um louco, como eu!



















Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes
Passaram 3 meses e 3 dias desde que cheguei a Macedonia.
Ultrapassados os dias de estar so (rejeito o termo solidao), o receio de me confrontar com o meu “eu” desconhecido, ter de gerir as minhas emocoes perante os outros, ter de comunicar sem ter outra hipostese , ter de confrontar-me com o meu lado mais timido e selectivo sinto que estou adaptada.
Nao sinto que faco parte da Macedonia porque, de verdade, nao faco mas sinto que a Macedonia ja faz parte de mim, para sempre. Sinto uma simpatia enorme por este povo de sorriso aberto e acolhedor.
Penso que nao e obrigatorio gostarmos de nos proprios todos os dias. Nao e vergonha dizer que vivo confrontos interiores na busca da minha auto-passividade. Por vezes odeio o espelho e a sociedade mas nao os culpo pelos meus desastres. Sinto agora maior simpatia por mim. Continuo sem compreender muitas coisas mas entendi que o tempo me vai ajudar a atingir os meus objectivos. Por exemplo, desisti de tentar decorar os rios, os vales, os lagos e as capitais dos 56 paises africanos. Tenho 25 anos. A esperanca media de vida para as mulheres da minha geracao esta fixada nos 81 anos . Tenho, portanto, 56 anos para aprender a geografia africana e tantas outras coisas que desejo aprender mas que nao consigo.
Descobri um prazer enorme em viajar e conhecer mundos. Todos os dias a minha lista de sitios a conhecer aumenta. Todos sao realizaveis. Talvez a Patagonia seja o destino que mais me preocupa pela nao-facilidade em conhecer quer pela distancia, quer pelos custos, quer pelo medo que tenho em andar de aviao.
Nao quero fazer balancos ao que ja vivi aqui. Provavelmente esta experiencia nunca me vai permitir quantificar os resultados. Sinto que o que aprendo aqui se vai prolongar por muitos anos alem do termino do projecto em Junho de 2009.
Agora vou regressar a Portugal. Quero ver a minha familia. Quero ver a minha cidade (em Bitola conheci uma americana que ja viajou por meio mundo. Disse-me que perante esse meio-mundo nunca conseguiu esquecer Lisboa).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Lago Ohrid e a Felicidade


















A água foi e será sempre uma inspiração para os seres humanos. Talvez por, segundo os cientistas, a vida Humana ter começado na água...Talvez porque a água nos transmite verdade, paz, terror, miséria. Enfim, sentimentos inerentes à condição humana.
Há alguns dias tive o privilegio de conhecer um sitio povoado de magia e História: o Lago Ohrid no Sul da Macedónia.
Para os Macedónios Ohrid é o Mundo. Falam dele como de um precioso tesouro. Talvez seja tendo em conta que a Macedónia não tem muitos pontos que atraiam turistas , excepto Ohrid e as pequenas vilas contíguas, que no Verão se enchem de gente de todos os cantos do mundo que vêm brindar a este pequeno grande paraíso. À parte a realidade turisitica, Ohrid é um lugar cheio de História. Chamam-lhe a "Pérola dos Balcãs". Foi lá que Saint Clement aperfeiçoou a escrita cirilica etc...
Quanto aquilo que vivi e senti.Quanto à magia do lugar e dos meus sentimentos confesso que tendo em conta todas as referências que tinha de Ohrid fiquei um pouco desiludida. Esperava uma grandiosidade fora de comum mas talvez seja apenas porque a minha grandiosa referência é o Oceano Atlântico... Contudo foi inspirador olhar para aquele Lago de águas límpidas, rodeado de montanhas cobertas de neve e ,ainda assim, sentir o sol de Inverno aquecer-me a pele, queimar-me as sardas no rosto, abrir-me um sorriso e encher-me a alma de alegria.É bom estar num sitio onde as águas ainda são claras-mesmo transparentes-ver barquinhos de madeira atracados a estacas artesanais,escarpas com pequenas casinhas, ruas pequeninas com pavimento provavelmente colocado na Era Otomana. Encontrar igrejas, Castelos e vestígios arqueológicos de um tempo que o meu cérebro não consegue alcançar pela quantidade de zeros.( as vezes dou-me conta que a Humanidade já existe há tanto tempo....).
Sentei-me no muro de uma dessas igrejas ortodoxas construídas em rochas que se debruçam sobre a agua do Lago(ver foto).Inspirei o ar fresco.Senti o vento e a energia. Algures nas montanhas do lado direito estava uma das fronteiras com a Albânia(um dos antipáticos vizinhos). Pensei na vida. Na situação privilegiada. Imaginei o futuro e não vislumbrei nada. Pensei que as vezes a vida é como o Lago Ohrid. As águas são aparentemente paradas mas no interior há sempre nascentes que trazem novo fôlego e que fazem com que o Lago seja tão límpido, transparente e fresco. Há sempre algo que acontece. Há 1 ano atrás estava a trabalhar no Serviço Pós-Venda da Worten. Era extremamente infeliz mas descobri tantas coisas sobre mim. Agora estou aqui tão longe dos que amo mas a aprender a amar outros. Talvez não torne a ver os amigos que aqui fiz mas serão sempre meus amigos. Sem eles não seria igual. Eles não sabem (talvez saibam) mas ajudam-me a entender aquilo que tenho e a aceitar aquilo que os outros têm. Às vezes choco-me, outras vezes emociono-me. Na maioria das vezes amo a herança cultural portuguesa.
Nestes dias em Ohrid vivi novamente momentos que me marcaram profundamente.
Aqui vivo numa espécie de Torre de Babel. Por vezes quase morro de prazer. Outras vezes assusto-me com as diferenças e a violência expressa nestas diferenças.
Claro que, perto do Lago, acompanhada ou só, a paz existe. Ou talvez nunca exista realmente. Ou talvez eu queira muito que ela exista. Falo agora da paz interior, ou seja, paz de espírito. Será possível alcançar a paz de espírito mesmo quando se é extremamente feliz?Silenciar, por segundos, os sonhos, as ambições, os medos, o sofrimento, as recordacões? E como se faz para se aprender a ser ainda mais feliz?E como se faz para fazer os outros felizes?E ainda mais felizes?
Percebi que nunca se vive totalmente em paz. Percebi que a felicidade é escolhida por nós sem influências astrológicas ou raio que o parta(ao Zodíaco).
Ora reparem, eu estava quase em cima do Lago Ohrid e não estava mesmo feliz. Pensei " E se o Lago fosse o meu Atlântico é que eu era mesmo feliz". Em Portugal passo meses sem ver o Oceano e sou feliz e sou infeliz. Significa que não preciso dele para ser mesmo feliz.
Portanto, concluo que a felicidade é comandada pela nossa vontade.
Assim, sugiro que sejam bons comandos e criem os vossos momentos de felicidade. Por exemplo eu sinto-me muito feliz quando sinto que estou viva. Sinto, sinto, sinto!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sonia.fm













O que toca na minha Playlist:

-Dyer Maker-Led Zeppelin
-Time-Pink Floyd
-You could be mine- Guns N Roses
-Crazy Mary- Pearl Jam

-Menina dos Olhos d'Agua-Pedro Barroso
-Nao queiras saber de mim- Rui Veloso
-Alfama- Madredeus
-Os Buzios- Ana Moura

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Hoje fiz 1 amigo

Às vezes, no silêncio da noite eu fico a imaginar tantas coisas. Imagino muitos posts que vou escrever neste blog. A maioria das ideias nascem nas noites de sonhar acordada. Na primeira oportunidade sento-me num dos 1001 magníficos cafés-lounge de Skopje , peco um café ou chá turco-outras vezes peço um chá de tília porque me lembro da minha avó- e as palavras atropelam-se nas linhas do meu caderno amarelo e, mais tarde, no computador com teclado eslavo.
Às vezes risco e outras vezes improviso. Leio e releio. Se soa bem sigo em frente, se não, reescrevo, refaço ou, num impulso, publico como esta.
No inicio desta aventura tinha ideias novas de 5 em 5 minutos. A minha cabeça parecia uma fábrica de ideias.
Tudo era novidade: as caras, os hábitos, os cheiros, as cores, as tradições, os lugares, as cores. Algumas vezes precipitei-me na interpretação daquilo que via. Noutras acertei.Muitas das coisas que vejo, ainda que já não sejam novidade, continuam a ser novas para mim.(um dia, com mais tempo, falar-vos-ei dos problemas étnicos).
As ideias, a curiosidade ainda me assolam mas "hoje fiz 1 amigo e coisa mais preciosa no mundo não há".
Já não passo tempo sozinha e, se passo, é porque é a minha escolha.
Já não tenho tempo para ir à ginástica. Tenho sempre uma companhia agradável para petiscar algures. A minha barriga e o meu rabo estão a aumentar. Para o ano faço dieta! Agora quero aproveitar todos os momentos.
Os últimos 2 meses e meio passaram rápido. Já falo um bocadinho Macedónio, continuo a cruzar-me com amantes da língua portuguesa e o Inglês esta melhor.

O tempo urge. Vemo-nos em breve

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Chinese Democracy numa manha de nevoeiro


Um dia tinha de acontecer...
Aproveitem. Eu continuo sem palavras. Acho que estou outra vez apaixonada...
http://www.myspace.com/gunsnroses

sábado, 22 de novembro de 2008

Que beleza Mia Couto

Embora nao seja grande fa de Mia Couto quero que vejam uma cronica que ele escreveu para o jornal Savana, na semana passada. Quando crescer quero saber dizer estas coisas, desta maneira...

E se Obama fosse africano?


Por Mia Couto



Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Direito de Antena


















Ha dias disse-me um amigo, de quem gosto muitíssimo, que me acha ,ainda, muito ligada a Portugal.
Subscrevo a opinião desse amigo. Embora seja impossível dissolver a minha ligação ao meu país e cultura, nos dias que passei fora da Macedónia reflecti sobre este tópico e conclui que está na hora de aceitar e adaptar-me a esta gente, costumes e país. Será o melhor que posso e devo fazer por mim. Não há programas de gestão de saudades, não há servico de encomendas de emoções, não há milagres. A haver um milagre terá de ser empreendido por mim. Portanto, eis-me aqui, a 4000Km de Portugal, a felicitar o meu novo povo.
Este é o meu desejo. Talvez, antes da globalização dos Media, fosse fácil realizar- só assim encaro a forma como a minha familia e antepassados sobreviveram a longos periodos de emigração - porém estamos no seculo XXI. Todos os dias abro os jornais portugueses e delicio-me, ou nem tanto, com as noticias do meu país.
De Portugal, não me apraz saber que os Professores refutam a possibilidade de serem avaliados. Não sei o que os move contra a ideia de terem um sistema profissional como todos os outros. Porque deverão ser privilegiados? Oxalá, a avaliacão no sector público já se fizesse há muitos anos. Oxalá a avaliacao dos Professores fosse uma prática antiga.
Poderia ocupar-vos durante uma tarde com histórias de professores que fui conhecendo ao longo da minha vida académica. Alguns pecam por excesso de incompetência e outros, posso afirmar, que foi um prazer ser aluna deles. Todos eles mereciam ser avaliados. Talvez assim se fizessem conhecer as suas reais capacidades. Talvez nós, os alunos tantas vezes irracionais, os pudessemos valorizar como eles são na realidade.
Estou a lembrar-me do Professor de Matemática do 9º Ano, Arsénio Rosa. Não era mau professor. Decidimos tomá-lo de ponta e fizemos-lhe a vida num verdadeiro inferno.Por outro lado, o professor de EVT do 7º Ano, pedia que o tratássemos por tu. Todos gostávamos da postura dele. Era cool ir ás aulas. Ele, amigalhaco, lá ia passando a mão pela perna das alunas mais formosas.
Custa-me saber, que algures numa escola do Cacém, a óptima e amiga professora de Alemão, está entregue a turmas de selvagens incapazes de perceber que teem diante deles um ser maravilhoso dotado de competências pedagógicas e humanas.
Por outro lado penso nalguns dos professores que tive na Faculdade. Pergunto-me porque teem um lugar ao Sol. Que fizeram eles para merecerem pseudo-formarem, com tamanha arrogância, estudantes do Ensino Superior? Por vezes basta recuarmos 1 ou 2 gerações para percebermos que estamos perante “peixe graudo”…Assim foi o avô, assim foi o pai, assim será o filho…

Congratulo-me, pois, com a persistência dos estudantes. Embora muitas vezes “os crescidos” não entendam porque nos manifestamos, porque lutamos. Muitas vezes, nem nós, sabemos porque o fazemos (confesso que participei em muitas manifestacões de estudantes deitada na minha cama, a dormir profundamente e a aproveitar o dia de folga).
Para as vozes que se revoltam contra estes jovens que teem o sonho…de qualquer coisa…(mesmo que seja o sonho de experimentar ir para a rua fazer uma pequena revolucão, o sonho de atirar ovos contra a parede das escolas ou mesmo que seja o sonho de ficar a manhã na cama) lembrem-se que foi com revolucões, com a organizacão das massas, que as grandes e justas mudanças no Mundo se concretizaram:os Direitos dos trabalhadores na Era da Revolucão Industrial, as Sufragistas,o Maio de 1968, o bendito 25 de Abril, a formacão de Portugal em 1143 etc...etc...
A Educacão é um Direito e tambem um Dever. Parece-me que estes jovens se manisfestam pelos Direitos. E se é um Direito aprender tambem é um Direito aprender com qualidade.
O meu coracao está com a “new-geracao rasca” .

Para que nao me chamem pro-anarquista deixo-vos um link relativo a uma cronica de Ricardo Araujo Pereira,onde este expressa um ponto de vista diferente do meu
http://aeiou.visao.pt/Opiniao/ricardoaraujopereira/Pages/OovodaCSCristovaoColombo.aspx

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Jugoslavia bonita





"



































Jugoslavia bonita, filha da Europa, fronteiras malditas, que o odio devora, Sarajevo, Sarajevo" UHF


Esta curta viagem de 11 dias por alguns dos países Balcãs foi uma escola de vida!
Muitas coisas me impressionaram e mudaram alguma coisa dentro de mim. Espero que para sempre.
Sinto que levei um banho de Historia, de vida, de Humanidade.
Tenho tanto de que falar. Quero partilhar tudo o que observei sem falhar nada.
A primeira constatação de que estava fora do meu mundo confortável e conhecido ocorreu nas fronteiras terrestres. Todas elas.
Vêm policias com cara de maus, levam o nosso passaporte, voltam passado algum ou bastante tempo. As vezes levam alguém para revistar e interrogar " o que e que vais fazer?", "Onde moras?", Porque e que estas a entrar/sair deste pais?"
500M mais a frente, na outra fronteira,a historia repete-se: policias com cara de maus, passaportes,1 desgraçado que e revistado, tensão, tensão. E assim a vida segue fora do Espaço Schengen.
A seguinte e muito forte constatação de que estava fora do meu mundo de sempre ocorreu na bonita e sofrida Sarajevo.
Os edifícios antigos são lindíssimos. Alguns com influencia Otomana, outros com influencia AustroHungara porem, toda a cidade- e por todo o pais que vi- há marcas de guerra.Muitos, muitos buracos, buraquinhos e buracoes nas paredes, que espelham disparos, talvez intimidadores, talvez contra alguém que, por fim, morreu contra aquelas paredes.
Memoriais a civis que morreram em atentados. Montes a volta da cidade,mesmo perto,minados. Não podem, pois, ser usufruídos por todos.
Talvez para os habitantes da Bósnia e Herzegovina estas sejam marcas de um quotidiano que eles não querem esquecer. Simbolizam ódios seculares, que, por razoes históricas, insistem em perpetuar.
Para mim,portuguesa de um Portugal com mais de 800 anos de fronteiras fixas e mais de 150 anos sem guerra em território nacional, foi um choque.
Nunca tinha estado tão próxima de um cenário de evidencias de guerra. Parece-me, ate, que imaginei tudo aquilo. Olhava para os rostos dos mais velhos e pensava "Concerteza viveram tudo isto. Perderam familiares, quem sabe os filhos...".
Ainda na BosniaH, já de regresso a Servia, no meio do nada, o revisor percebeu que tinha apanhado o autocarro errado. Disse-me, numa língua estranha para mim, que teria de sair para apanhar o autocarro certo na Estacao Central. Estava sozinha. Entregue a minha capacidade de resistência e negociação. Comecei a chorar incontrolavelmente. Mostrei-lhe o Passaporte e fi-lo perceber que estava assustada. Não queria sair ali.Vendeu-me um bilhete por 39MK e olhou-me com ternura.Talvez tenha pensado nos filhos.
Quando passadas 5 horas de uma interminável viagem entrei na Servia suspirei de alivio e pensei "Aqui tenho um Sr.Embaixador que me vai defender".
Não posso deixar de me sentir grande por tudo o que vi. Oxalá, vocês em Portugal tivessem oportunidade de ver todos estes sinais de violência e multi-etnicidade.
Apercebi-me que nos, portugueses, criamos os nossos próprios problemas étnicos porque...não os temos.
Somos um fantástico pais que vive em Paz. Os Mirandenses nunca reclamaram Independência porque, calculo,sabe mesmo bem ser do pais do FADO. Ate o Alberto João Jardim, fala,fala,fala mas não o vemos a fazer nada. E bem melhor comer Bacalhau a Traz que Banana da Madeira a Bulhão Pato.
Perante tanta calmaria inventamos ódio aos pretos, aos brasileiros, aos espanhóis, aos ingleses, aos gregos (desde o Euro'2004).
Porque não canalizamos a nossa privilegiada situação para o entendimento da Historia de Portugal, do Mundo e dos portugueses com o Mundo?
Seria bom estudarmos Historia de África e percebermos que embora os africanos não sejam santos, nos dividimos-lhes a terra, a família e a Vida no maldito Mapa Cor-de-Rosa. Talvez devessemos sair de Africa, para sempre, e não usarmos mais a anti-pedagógica Ajuda Humanitária como desculpa para continuarmos a explora-los .
Aos 30% que desejam ser espanhóis sugiro que parem para pensar. Será que querem pertencer a um pais dividido em 7 ou 8 Identidades diferentes?Será que e bom viver com medo da ETA? E os 900E que eles recebem, em media?
Vale a pena vender a alma por isto? E como pensam gerir as Saudades?(se tiverem alguma estratégia comuniquem-me.Preciso muito.)

Não obstante todo este cenário pouco perfeito quero dizer-vos que não presenciei qualquer violência física nos Balcãs. Tudo o que vi são marcas de uma guerra que, enfim, acabou.
Conheci gente da Bósnia, da Herzegovina, da Servia. A maioria bastante agradáveis.E todo este tempo senti saudades da Macedónia. Começo a acha-los cada vez mais parecidos com "o meu Sul". Poleka, Poleka, que com o tempo isto vai la!!

domingo, 2 de novembro de 2008

O passeio a Belgrado






















Em 2007, aquando da minha estadia na Residência Universitária do Campo Grande, tive o enorme prazer de conhecer uma pessoa incrível:Lela Novakovic.
Tem 25 anos, nasceu em Montenegro e desde 2001 vive em Belgrado. Aconteceu apaixonar-se pela Língua Portuguesa, estuda-la e candidatar-se a uma bolsa do Instituto Camões.Ganhou. Claro!
Viveu 1 ano lectivo em Lisboa. Estou Língua e Cultura Portuguesa, na Faculdade de Letras.
Foi amante das ruas de Lisboa e amiga intima do Bairro mais Alto que os sonhos.
Hoje sabe bem o que significam as SAUDADES.
Revê-la foi, sem duvida,mais bonito que o Parlamento, as largas avenidas, o ambiente cosmopolita e urbano de Belgrado. Ouvir as suas gargalhadas, ver o brilho no olhar quando fala de Lisboa, de Portugal, dos portugueses e dos 10 tipos diferentes de homens portugueses(muito apreciáveis, segundo ela- e segundo mim, também-).
Deixo-vos um texto que ela escreveu para uma aula, em Lisboa.

Sei que não tiveste vida facil,Lisboa.Construiram-te destruiram-te e influenciaram-te muitos.E tiveste que te defender de muitos,dos mouros dos espanhois da peste,dos terramotos e dos portugueses.

E és forte.Parabéns.

E és bela ,cheiras bem,cheiras às castanhas assadas,ao nevoeiro.

Aos descobrimentos e,ao mar,ao medo à luz,cheiras aos mendigos do bairro e às lagrimas.

À felicidade.A criança inocente e à dama de companhia.

Lisboa menina e moça,com as calçadas molhadas e escorregadias,com as colinas fatigosas

com tejo e cristo e o maior coração do mundo.

Um canadiense disse-me uma vez que não entendia a admiração

das gentes por ti .Disse que eras velha mas ,ele é superficial.Não percebe.É tão facil apaixonar-se por ti.Tens um animo sempre vivo,um espirito encantador,uma vida cheia de emoções que sai de cada canto teu.brilhas ,cheiras ,choras e mimas.

E ainda mais ,deixas agente com saudades tuas quando ainda estamos perto de ti.


sábado, 1 de novembro de 2008

Beogrado:o prazer e todo meu!






Belgrado, Belgrado, Belgrado: Milo Mio

Vou ficar aqui para Sempre mas com uma condicao: nao se atrevem a dizer mal da miiiiinha Republica da Macedonia :)

http://www.youtube.com/watch?v=szoKZVKN_vQ