sábado, 11 de julho de 2015

Bristol e Bath, UK

Ponte suspensa de Bristol
Fonte:google.uk
Eu queixo-me, aborreço-me, reclamo mas a verdade é que há uma parte de mim que sente certo fascínio pelas Ilhas Britânicas, aka, Irlanda e Reino Unido.  Se todos os dias pudessem ser secos ainda que cinzentos, frescos mas sem vento, este poderia bem ser o cantinho do mundo com uma das melhores qualidade de vida, mas...o clima torna a vida impossível de aguentar. Mesmo assim vou descobrindo lugares belíssimos, com pessoas muito simpáticas que não têm nada a ver com o estereotipo de gentio frio e fechado.

Desta vez vou-vos contar como foi a minha viagem a Bristol e a Bath, no sudoeste de Inglaterra, a cerca de 200 Km de Londres. 

Bristol e a ecofilosofia

Embora o ícono da cidade seja a Ponte de Cliffton, Bristol é este ano a Capital Verde da Europa e foi recentemente considerada a cidade do Reino Unido com melhor qualidade de vida.

Imaginem uma cidade com metade do tamanho de Lisboa, quizás menos, cheia de jovens e pessoas cosmopolitas que andam de bicicleta para todo o lado porque a cidade tem mais de 25 Km de ciclovia.  E não vos estou a falar de uma cidade plana porque Bristol tem encostas capazes de fazer suar o mais alfaçinha da Penha de França. Mesmo assim o espírito é percorrer a cidade, fazer tarefas diárias, ir trabalhar sem prescindir da bike.
Á parte as pessoas sorriem sempre. Desde os condutores de autocarro que são uma simpatia até às velhotas sentadas no banco do jardim, todo o mundo sorri. Talvez porque seja Verão (18ºC +/-), talvez porque a percorri de uma ponta à outra com o meu amigo das Canárias naturalmente simpático como todos os da sua terra (dúvido que nas Canárias haja pessoa antipáticas).

Não foi a primeira que estive em Bristol. Antes já tinha estado como visita numa casa de fachada inglesa e conteúdo espanhol, mas esta vez ia decidida a ser turista. Fiquei na mesma casa no bairro de Bedminster, que cada vez tem mais espanhóis, e embuí o meu canário com o meu espírito de turista. Nao calçamos as peúgas brancas e as sandálias mas partimos à descoberta.

Ponte suspensa de Clifton

De Beminster fomos a pé até à estação de comboios e bus Bristol Temple Meads. Quisémos poupar-nos à subida desesperante que liga o centro da cidade com a zona alta e nobre Clifton e apanhámos o autocarro (1,5£). Eu tinha muita vontade de conhecer a Ponte suspensa construída no século XIX pelo engenheiro Isambard Brunel. Assim que descemos do autocarro senti-me apaixonada pelo bairro de Clifton. São pequenas casas de quatro pisos no máximo com estilo georgiano, portas coloridas e fachadas cor de bolacha. O bairro está cheio de lojas de comércio alternativo: restaurantes, lojas de arte, lojas de caridade, lojas de bicicletas etc...O barrio está circundado por uma pequena floresta verde intenso, património municipal, lá em baixo a cerca de 75 metros está o Rio Avon, negro e algo sinistro. No alto a Ponte suspensa. Não é apenas a ponte que é bela, é tudo o que rodeia, o facto de estar tão alta e distante do rio, os balões de ar quente que alegram o céu, as curvas do Avon e, ao fundo, a cidade. Só para ver esse cenário valeu a pena viajar a Bristol

Contudo Bristol tem muito mais que este cantinho...

Vista desde Clifton e Ponte suspensa
Mercado de St. Nicolas

Embora o falafel seja uma comida típica do Médio Oriente, no mercado de St. Nicolas, no centro de Bristol está o melhor posto de venda desta iguaria. Gerido por espanhóis que acreditam que a comida é para ser desfrutada a 100% e com sabor, o falafel ocupa quase um papel secundário entre a cenoura, a salada, o homus, o molho de iogurte que sabem mesmo a comida e que todos juntos, custam a módica quantia de 4,5£, tanto faz que seja em caixa de plástico ou em pão pita.

À parte esta valiosa descoberta gastronómica, o mercado de St.Nicolas cheira a comidas do mundo e artesanato. Entre os cerca de vinte postos de comida de qualidade está um posto de comida portuguesa que, dizem os locais, tem um bacalhau com natas de fazer comer e chorar por mais. Eu provei a bica e, embora me tenha custado 1,20£, posso garantir que estava óptima e que valeu a pena o roubo.  Uma das características mais interessantes do mercado é que apostam no consumo de produtos biológicos produzidos localmente em quintas dos arredores de Bristol. Ao tratar-se de comidas do mundo óbiviamente que nem todos os produtos podem ser locais, mas isso não é escondido do consumidor final.

Mercado de St.Nicholas, Bristol
Fonte: guardian.com
Vida ribeirinha, Banksy e a Ovelha Xoné

Desde idos tempos que Bristol compete com Manchester e ambos reclamam ser o porto de maior importância no Reino Unido. O certo é que Bristol é uma cidade que respira Avon e ao longo dos braços do rio, que alguns kilómetros depois desembocam no Atlântico, há muita actividade sociocultural. O que outrora foram docas de chegada e partida de barcos, hoje em dia são bares com esplandas viradas para o rio.
Numa dessas esplanadas, no bar “The Olive Shed” que promete tapas meditterâneas e tem vinho português no menú, passei uma agradável tarde na esplanada entre um “tira-e-põe-casaco” típico do clima destas paragens. Os meus amigos consumiram cerveja da Galiza. Eu não queria nada e, sem que fosse necessário pedir, a empregada trouxe-me uma garrafa de design com água da torneira. Haverá maior simplicidade que esta? Não querendo consumir, não fui induzida a tal...Pois esse é o espírito da cidade de Bristol que embora seja a capital verde não apresenta sintomas de desinfeção. É uma cidade também suja mas em vias de conseguir o equilíbrio entre sustentabilidade, desenvolvimento e meio-ambiente. É uma cidade que promete a melhor qualidade de vida de Inglaterra mas sem deixar de ter carácter próprio.

As obras de graffiti repetem-se em cada esquina da cidade deixando de boca aberta até o mais conservador fanático da National Gallery. São obras de arte, em grande parte desenhadas pelo filho da cidade Bansky.
Bansky é um artista grafiteiro anónimo. Embora faça exposições, seja director de cinema e activista político a sua identidade é ainda desconhecida para o grande público. Em Bristol consideram-nos um Deus e qualquer das paredes pintadas por ele, são agora património municipal, depois de a polícia ter mandado derrubar há uns anos uns quantos muros como forma de perseguição aos artistas de graffiti.
Uma das obras de Bansky mais conhecidas mundialmente é a “Ballon Girl”, no South Park em Londres. A minha favorita de Bristol é “Well-Hunger Lover”, mesmo ao lado do pub mais antigo da cidade, o “The Hatchet” de 1606.

Outra famosa de Bristol é a “Ovelha Choné”. Desenhada nos Estúdios de Animação Aardman.  Actualmente existem várias réplicas da ovelha recriadas por diferentes artistas em diferentes pontos da cidade (parecido à exposição das vacas em Lisboa). A minha favorita está em frente à escola de música, já por si um edificio muito bonito e que merece ser visitado nem que seja por fora.

“Well-Hunger Lover”
Bath

Por um dia deixei Bristol e fui até à pequena cidade de Bath, Património da Unesco desde 1987.

Bath está para Bristol, como Sintra para Lisboa. Têm um carácter muito distinto uma da outra mas completam-se na perfeição. Visitar Bristol e não ir a Bath teria sido um erro muito grande. Assim, desde a mesma estação Bristol Temple Meads apanhámos a guagua (bus em dialecto canário) e seguimos até Bath. A viagem durou menos de uma hora.
Chegámos e encontrei uma cidade de traça aristocrática, de fachadas românticas e georgianas, envolvida no mesmo verde intenso que caracteriza a região. A diferença é que Bristol é descaradamente urbana, mas em  Bath se fecharmos os olhos podemos ouvir o corrupio de coches e o som do roçar no chão dos vestidos de nobres senhoras. Chegar a Bath é como entrar directamente numa cena daquelas séries da BBC que retraram a vida dos ricos de séculos XVIII e XIX.

Há mais de mil anos que Bath chama a atenção de visitantes e invasores que acodem pelas águas termais que dela emanam. Ao longo dos séculos a cidade foi-se desenvolvendo em torno aos banhos e ao templo de Minerva  construidos pelos romanos por volta do século VI e, mais tarde, em torno à Abadia  de Bath.
A Abadia tem entrada gratuíta, mas a entrada para os banhos custa cerca de 16£. Achámos caro e decidimos deixar para outro dia. Preferimos passear ao longo das margens do rio e subir a Gay Street até ao Circus, uma praça em forma de círculo com uma imponente árvore no meio, que em pleno século XXI estava rodeada de japoneses, mas que outrora era visitada por nobres que escolhiam Bath como destino de férias, o que na época era sinónimo de status social.

Vista Bath, Rio Avon
Bristol again, again and again

Há muito mais para ver e contar sobre Bristol. Vale mesmo a pena. É uma cidade frenética e cheia de actividade cultural sem, contudo, ser cansativa como acontece nas grandes cidades. Em Bristol ainda é possível cumprimentar o vizinho e, o facto de ser uma cidade verde e amiga da bicicleta, faz com que todo o mundo se cruze nas ciclovias ou nos autocarros urbanos. Há trânsito mas não é caótico e a cidade pode perfeitamente ser percorrida a pé. Ter transporte próprio não é um requisito obrigatório. As compras podem ser feitas ora no supermercado, ora nos mercado tradicionais. O município criou uma moeda própria. São libras de Bristol que podem ser usadas em lojas locais que tenham aderido à rede e servem para fomentar as compras no comércio local.

Uma vez mais adorei voltar lá, talvez pela companhia, talvez pelas good-vibes da cidade, a verdade é que penso voltar outra vez. Quero muito visitar o bairro dos jamaicanos e voltar a comer falafel no mercado de St. Nicholas.

Não sei que tal é a conexão entre Portugal e Bristol mas no caso de quererem passar um fim-de-semana no Reino Unido mas longe da caótica Londres esta é a melhor sugestão até ao momento. O bus do aeroporto à cidade custa cerca 11£ e o trajecto não dura mais de 30 minutos. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Paris

Torre Eiffel
“We will always have Paris

Se o Humphrey Bogard me viesse com esta história da promessa eterna a ser vivida em Paris eu mandava-o à fava. Como é que alguém pode ser feliz numa cidade à pinha de turistas?

Para mim visitar um lugar é sentir a sua alma. Paris é lindíssima mas achei-a tão caótica que não consegue sequer entrar para o meu Top 5. Visitei-a com pressa e talvez essa não seja a forma de visitar uma cidade que à partida tem tanto para oferecer. Mesmo assim vou-vos contar os quase quatro dias deliciosos que passei entre Paris e Rouen.

Depois de passar a noite a dormir dobrada nos cadeirões do aeroporto de Dublin acordei bem disposta porque era o dia do meu aniversário. O avião chegou a Paris às 9h30 depois de pouco mais de uma hora de voo. Foi muito rápido. Esperava encontrar um clima maravilhoso que há dias estava anunciado no boletim metereológico, mas a cidade estava cinzenta e parecia até que ia chuviscar a qualquer momento apesar de não fazer frio. Desde o aeroporto de Beuvais até Porte Maillot (muito perto do Arco do Triunfo) são cerca de 80 minutos mas o trânsito para entrar em Paris era caótico e demorou muito mais.

É já ali

Notre-Dame
 Esta frase não cola com os parisienses. Mesmo que seja realmente já ali eles dizem sempre que é muito longe e fazem um ar grave. Em Porte Maillot disseram-me que a Torre Eiffel estava a mais de uma hora a andar portanto tive de ceder ao metro. Comecei logo por pensar que era impossível os parisienses não terem outra fama senão de antipáticos. A fila para comprar um simples bilhete era enorme. Eu demorei mais de meia hora e, apesar de estar de férias, sentia-me violenta. Éramos todos turistas. Percebi que algo diferente estava a acontecer. Apesar de já ter viajado bastante não visitei grandes metrópoles. Londres é a minha referência de cidade gigante e de ambas vezes que estive lá nunca me senti sufocada pelos turistas. Na fila para o metro em Porte Maillot vi que estava num sítio de turismo massivo.

Saí na estação Hotel de Ville e fui a pé até à Notre-Dame. Não pude evitar pensar no Corcunda de Notre-Dame e no quão mais majestosa parece a sua casa no filme da Walt Disney. Talvez a catedral seja lindíssima mas tinha tantos turistas, tantos, tantos que não consegui sequer apreciar a fachada. A fila para entrar era uma serpentina. Perguntei aos meus botões como era possível...e esta era a fila mais pequenina que eu ia ver.

O Sena é lindíssimo. Dá à cidade uma aparência de romance, boémia e paz que só as cidades com rio conhecem. Paris foi construída nas margens portanto ele está em cada cantinho, em cada vista. Seguindo as suas curvas durante horas tropeçamos nos principais monumentos parisienses: Notre-Dame, Louvre, Torre Eiffel etc...

Eu tinha muito claro o que queria ver e sabia que estava limitada de tempo. Dali parti para um passeio até ao Panteão onde me disseram que havia um metro que me levaria até ao Pere Lachaise, porém algo aconteceu...

Panteão
Latinices...

Esta minha mania de falar com toda a gente já me fez perder muitas horas utéis. Um gentil senhor de pele morena deu-me passagem numa rua estreitinha encolhida por umas obras públicas. Eu sorri e agradeci e ele devolveu-me o gesto. Perguntei-lhe então onde era o metro, ele perguntou-me onde queria ir e disse-me para ir dali com ele que ele ia-me mesmo indicar. Resulta que o cavalheiro era da República Dominicana e começamos num blablabla desenfreado em español hombre y como no?
A entrada do metro nunca mais chegava e transformou-se num passeio a passo de caracol até à  paragem do autocarro 21 que me ia levar até St. Lazaire onde podia depois apanhar o metro até Pere Lachaise. Estava claro que ele queria conversa. Monumentos, História, Paris, Lisboa 1974, filosofia, enfim...fuel pró meu cérebro handicupado pela vida na Irlanda. Eu deixei-me levar até que já tinha passado mais de meia-hora e o autocarro estava parado há muito tempo numa das avenidas principais. Quando ele soube que era o meu aniversário convidou-me para tomar um vinho e ir dançar salsa mais logo. Parece tentador verdade? Paris, sotaque espanhol, culto, bem vestido...desenganem-se. Ai já estava com vontade de o matar porque eu só lhe tinha perguntado onde era o metro e o cabrão tinha-me metido num autocarro urbano em plena hora de ponta, ruas cortadas e uma manifestação sindical a complicar. Mais de uma hora depois vi-me livre daquele caos e num instante dentro do metro estava no meu destino.

Cemitério Pere Lachaise

È o cemitério mais visitado do mundo porque, entre outros “encantos” é a morada de uma lista infidável de nomes conhecidos: Delacroix, Oscar Wilde, Marcel Proust, Balzac, Edith Piaf, Chopin, Maria Callas, Jim Morrison etc...

Pere Lachaise era um padre jesuíta, ordem religiosa que ocupava o terreno do actual cemitério. O terreno foi comprado na época do Napoleão para ser transformado num cemitério municipal onde pobres e ricos seriam enterrados ora em valas comuns, ora em concessões perpétuas, aka, túmulos. Ao tratar-se de um cemitério público a religião não era condicionante para acolher os restos mortais de quem quer que fosse e, por isso, Pere Lachaise acolhe até hoje sepultura de católicos, judeus, mulçumanos e hindus. Aliás o primeiro mulçumano a ser sepultado foi uma mulher, a Rainha Malka Kachwar.
Como ficava fora da cidade no primeiro ano acolheu apenas cinco sepulturas. Hoje em dia conta com 1 milhão de sepulturas mais cerca de 3 milhões de restos mortais. Pere Lachaise é tão conceituado que existe uma lista de espera para se ser sepultado lá. Entre outros requisitos é necessário provar que algum familiar de até duas gerações se encontra sepultado lá. Depois é rezar até morrer para se conseguir um nicho nesse mundo de mortos superpovoado...

Há muitos anos que queria visitar o túmulo do Jim Morrison e assim que cheguei fui directa mas perdi-me pelo caminho porque o cemitério é tão incrivelmente bonito que é impossível não ficar rendido. Uma pequena rua de sepulturas ornamentadas com esculturas muito belas, leva a outra etc...È um museu de escultura imperdível e sem filas como os demais museus. É realmente incrível. Muito parecido com o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, mas muito maior e cheio de árvores.
Quando por fim cheguei ao túmulo do Jim Morrison encontrei uma campa humilde, que quase passa desapercebida não fosse o gradeamento à volta. Estava um tipo a olhar fixamente a campa, com um sorriso nos lábios e a brindar com uma cerveja ao Jim Morrison.

O Pere Lachaise é o meu sítio preferido de Paris. Gostaria de voltar lá tantas vezes quanto possível porque é um lugar de Paz e arte.

Cemitério Pere Lachaise
Túmulo dos amantes Abelardo e Eloísa
afinal os chineses também são enterrados...
Detalhe de uma campa de uma criança
Túmulo do Jim Morrison
Os Hit-points de Paris

O resto da visita decorreu sempre a andar porque não queria perder tempo em filas intermináveis de turistas, muito deles que se estão a borrifar para o que estão a visitar e vão para todas as partes com o pau de metal dos selfies em riste, quais mosqueteiros da foto da treta.

O Museu do Louvre é imponente. O Palácio do Louvre, onde estão as instalações do museu, é lindíssimo e enorme. Eu tinha muitas saudades de rebolar na relva ao ar livre, por isso aproveitei a relvinha em frente ao museu, estendi a minha capulana e dormi uma relaxante sesta. Para mim a felicidade é feita sobretudo de pequenas coisas que nos dão prazer e pelas quais lutamos. Agora que vivo num país onde é impossível ficar sentada num banco de jardim mais de dez minutos sem que começe a chover, quando tenho oportunidade gosto de perder tempo na relva ou no jardim.

A livraria Shakespeare está mesmo ao lado da Notre-Dame. Para os mais despistados é a livraria onde o Jen e a Celine se reencontram no filme “Before the Sunset”. Infelizmente percebi que não sou a única seguidora do filme porque a livraria estava à pinha, cheia de turistas. Foi impossível entrar.

É incrível pensar que a Torre Eiffel foi construída com o intuíto de ser mostrada numa exposição e depois desmontada e atirada ao lixo. Ainda bem que ficou onde está. Dizem que tem uma vista muito bonita e gostava de subir algum dia mas Paris tem edíficios muito mais impressionantes, tais como os palácios da Praça da Concorde.

Os Campos Elíseos são uma avenida enorme e larga entre o Arco do Triunfo e a Praça da Concorde. Gostei muito de passear por lá, de entrar nas lojas low-coast, sentar-me e ver passar os turistas. Não podia deixar de pensar no quanto deve valer o aluguer duma casa ali. Na última noite fui jantar a uma cadeia de baguetes low-coast que descobri, adorei e repeti todos os dias, a Pomme du Pain. Já estava esfomeada e tinha percorrido Paris a pé. Nos Campos Elisios as baguetes são cerca de dois euros mais caras mas como não aguentava mais decidi entrar e pedir a minha vegetariana. Quando já estava servida percebi que a esplanada tinha ficado vazia. Assim na minha última noite em Paris jantei nos Campos Elisios pela módica quantia de 8EUR.

Louvre
Livraria Shakespeare no Bairro Latino

Rouen e o blablablacar

Tinha muita vontade de ir a Paris não só para conhecer a cidade, mas sobretudo porque uma das pessoas mais importantes da minha lista especial de amizades vive pertinho. A Edna foi minha colega de escola desde os 10 anos. Nos últimos 15 anos contam-se pelos dedos duma mão as vezes que estivémos juntas, mas cada vez que o fazemos é como se o tempo não tivesse passado por nós...falamos com a mesma soltura com que o fazíamos quando éramos adolescentes. A Edna e a família receberam-me em Rouen na casa deles e foram tão hospitaleiros que nem tenho palavras...

Para chegar até eles a Edna contratou-me um blablablacar. Nunca tinha andado mas fiquei rendida à simplicidade e segurança do processo. São cerca de 136Km entre Paris e Rouen. Combinei com o choffeur numa estação de comboios e fomos toooooodo o caminho a falar. O rapaz por coincidência é filho de uma portuguesa. Visita Portugal com frequência mas não fala a língua, só os palavrões. Mesmo assim dança no Rancho Folclórico de Rouen. Tinha um inglês óptimo e foi muito boa companhia. Fiz o trajecto de ida e volta com ele.

Rouen não é uma cidade muito grande mas é lindissima e bastante mais acolhedora que Paris. Cruzada pelo Sena, está rodeada de montanhas e entre outra efemérides é conhecida  por ser a cidade onde a Joan D´Arc faleceu. No centro da cidade há um catedral majestosa, a Catedral de Notre-Dame de Rouen. Perder-se pelas ruas da pequena cidade é como dar um passeio numa época de arquitectura medieval misturada com modernidade. No centro havia uma feira de solidariedade para com alguns países africanos e mulheres de todas as cores passeavam nas suas alegres capulanas, tal como eu. Numa outra pequena rua entrei numa loja de vinyl e fiquei enfeitiçada com o cheiro a disco vinyl antigo. Se um dia tiver uma biblioteca quero que tenha aquele cheiro...
Fiquei cheia de vontade de voltar. Rouen cheira a Normadia, a comida boa, vinho bom, largos passeios de bicicleta e muito ar puro e saudável.

Vista parcial de Rouen com o Sena
Estátua Joan D´Arc na Catedral Notre-Dame em Rouen

Detalhe ruas de Rouen
Relógio em Rouen
Confesso que tinha certa vergonha de não conhecer Paris.  É estranho ser colecionadora de destinos e não ter uma cidade tão importante na minha lista. Mesmo assim a cidade não entrou para o meu Top 5 embora os parisienses me tenham parecido simpatiquíssimos. Já a Normadia é outra história...

Sena no centro de Paris. Lindo!



domingo, 14 de junho de 2015

Cinema Paradiso

Imperdoável só ter visto este filme hoje. Entrou para o meu Top 10. Estou ansiosa por vê-lo outra vez


Bravíssimo!

Phoenix Park

São raros os dias em que gosto da Irlanda do fundo do coração. São ainda mais raros os dias em que não está a chover na Irlanda. Hoje foi um desses dias em que gostei sinceramente da Irlanda porque não estava a chover. É um país lindíssimo nesses raros dias.






segunda-feira, 11 de maio de 2015

Oh my God!

28 anos depois o mundo descobre que afinal a Sweet Child O´mine é plágio desta música:



(tragam-me um saco de boxe plis)

domingo, 10 de maio de 2015

Trinity College, Dublin

Ainda vivia em Kildare e tomava conta do gémeos quando fiz turismo pela primeira vez em Dublin. A minha referência urbana na Irlanda era Cork, a segunda maior cidade. Assim, quando comecei a caminhar por Dublin e a entrar na zona da Dame Street tive um dejà-vous e senti que estava em Londres. Tanto buliço, monumentos, carros, autocarros de dois andares, gente gira e elegante no vestir. Aquela era a cidade onde eu queria estar (hoje em dia vejo Dublin de maneira diferente mas isso fica para outro capítulo).
Trazia nas minhas referências uma visita imperdível ao Trinity Colleage e ao “Book of Kells”. Fui perguntando indicações nas ruas e os irlandeses, sempre tão simpáticos (são mesmo o melhor da Irlanda) ajudaram-me a chegar lá num instante.

O Trinity College, no College Green, é a mais antiga Faculdade do país e foi construído no século XVI. É muito bonito e acolhedor. Apesar de estar no coração de Dublin sente-se uma tranquilidade muito grande lá dentro. É constituídio por uma série de monumentos e no meio há uma praça que tem um campanário. Diz a lenda que os estudantes que esperam os resultados dos exames não devem passar por de baixo do arco desse campanário sob pena de receberem maus resultados. Como não sou estudante passei e descobri que as duas árvores que estão do outro lado são  os dois maiores Acer plantados na Europa. Talvez seja exagero porque os irlandeses –à semelhança dos portugueses- vendem tudo como se fosse o mais dos mais, aliás foram eles que inventaram os records Guiness (outro dia conto esta história).

Campanário e eu  Set.14
Bom mas o Trinity é mesmo bonito e foi lá que estudaram alguns dos vultos mais importantes da literatura universal (não sei se sabem mas Dublin é Cidade Património Mundial da Literatura, galardão atribuídio pela Unesco em 2010). Oscar Wilde foi talvez um dos melhores alunos de sempre. Com tão somente 18 anos, em 1872, ganhou a maior bolsa de prestígio da instituição, o Foundation Scholarship.

Actualmente a  “jóia da coroa” na visita ao Trinity é a biblioteca e o famoso “Book of Kells”. Trata-se de uma obra  escrita por monges celtas por volta de 800 d.c que compila os quatro evangelhos do cristianismo. A importância do livro deve-se ao facto de ser um dos poucos exemplares da cultura celta antes dos ataques vikings.  A fila para entrar é enorme e o bilhete para visitar a biblioteca e o livro custa 10Euros. Na minha opinião é um preço bastante abusivo e só aconselho aqueles que estiverem realmente interessados e informados sobre o livro porque a visita não dura mais de 10 minutos. O livro está exposto numa vitrina e há um aglomerado de gente ao redor. O interessante é que cada dia mudam a página. No dia em que eu visitei estava aberto nas páginas 72 e 73.

Depois segue-se a visita à sumptuosa bilbioteca Old Library. É realmente muito bonita e há uma série de curiosidades sobre ela que vos vou contar em seguida. Primeiro deixem-me descrever o sentimento de entrar num templo de livros do século XVI com mais de 6.000.000 de volumes ,o mais famoso o “Book of Kells”. A sensação é esmagadora e só conseguia exclamar para os meus botões “Uauuuuuuuuuuuh”. Comparada com outras bibliotecas esta é muito, muito pequenina mas tem uma alma especial. Ao longo das galerias há uma série de esculturas de grandes humanistas da História Mundial e está exposta uma das três harpas mais antigas da Irlanda datada do século XV.

Detalhe da Old Library
Harpa do Séc. XV
Contudo o peso da História não é o capítulo mais conhecido desta preciosadade e que a torna tão conhecida nos dias de hoje. Consta que George Lucas, o criador de Star Wars, roubou literalmente imagens da Old Library para construir o Templo dos Jedis no filme de 2002  “Star Wars II: Ataque dos Clones”. O Trinity College esteve a ponto de o processar por usar sem autorização imagens do edífico mas finalmente desistiram. Diz a lenda urbana que Lucas se deslocou em várias ocasiões à Old Library e misturado entre os turistas foi tirando fotos ao interior da biblioteca até ter um número suficiente que lhe permitisse montar o cenário pretendido para o filme. Ele negou sempre rotundamente mas...vejam estas imagens:

Star Wars à esquerda, Old Library à direita
 Visitem o Trinity. Vale realmente a pena sobretudo se o clima estiver para ai virado. Para não sentirem que o vosso dinheiro é um desperdício (diria até um fiasco) no que concerne à visita ao “Book of Kells” sugiro que comprem logo na entrada principal um bilhete que inclui  todo o Trinity, o livro e a Old Library. A visita é guiada por estudantes e custa 12EUR. Divirtam-se!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Belfast, Irlanda do Norte (UK)

Fonte: titanicbelfast.com
 Sei que o estaminé anda um bocado abandonado. Desde que vim viver para Dublin deixei de falar das minhas experiências culturais. Na verdade não é por falta de vontade mas não vos tenho contado nada porque me tenho deparado com algumas condicionantes que me impedem de o fazer: não sei se ainda consigo escrever bem e bonito em português e aqui está sempre a chover, é tudo muito caro e eu não sei para onde fugiu a minha curiosidade natural.Mudasti? Sim...

Como já tenho muitas saudades desde dedelhar apaixonante do barulho das teclas do computador quando tenho algo dentro do coração que quero partilhar com o mundo mais além do meu ecrã vou tentar reunir nas próximas semanas as poucas descobertas culturais e humanas que tenho feito.

Começo pela Irlanda do Norte. Convido-vos a que vejam no mapa a divisão geográfica da Irlanda do Norte e da Républica da Irlanda. A primeira pertence ao Reino Unido, ou seja, é uma monarquia, a autoridade máxima é a Rainha de Inglaterra e, entre outras coisas, usam libras. A segunda, a minha, é independente há quase um século, usa euros (troika etc...), é uma República e a igreja católica ainda é a religião maioritária. A primeira teve a IRA e o famoso domingo sangrento que inspirou a musica “Sunday Bloody Sunday” dos U2. A segunda teve (tem) os U2.

A fronteira está a menos de uma hora de Dublin. Como o mundo é muito pequeno, tão pequeno como uma ervilha descobri que a minha amiga da escola secundária e de tantos projectos de voluntariado, a Edna Monteiro, vive do outro lado da fronteira, já dentro do UK numa pequena vila chamada Portadown cheia de portugueses, lojas portuguesas e até discotecas com ritmos lusófonos. Fui vê-la duas vezes e encontrei uma mulher com uma família linda, ruidosa e muito caboverdiana. São, agora, o meu cantinho Palop neste deserto verde e húmido chamado Irlanda (seja do Norte, seja Républica).

Na semana passada as duas viajámos até Belfast, a capital da Irlanda do Norte. Plano: ficar hospedadas na casa da Nena e da Neuza, duas “primas” da costa alentejana e à noite ir a uma “escaldante” festa africana.  De escaldante nada porque o potencial de bailarinos era under 18. Fica para a memória o delicioso Lazy Sunday passado no sofá da sala, a nossa private pijama party.

Juro que tentámos visitar a cidade mas o tempo estava tão feio, tão pouco convidativo ao passeio que o monumento que requereu maior atenção da nossa parte foi a Primark da Royal Avenue instalada no histórico edificio “The Bank Buildings”. Fomos até à bilheteira do Titanic Experience. A entrada custa 15 Libras e acredito que valha muito a pena. Para os mais distraídos o Titanic foi construído em Belfast e a viagem inaugural (e única) partiu de lá. A história da cidade respira Titanic e brinda tributo a esses tempos aúreos em que era um dos maiores estaleiros  do mundo.

Digno de visita é também o Castelo de Belfast e a Câmara Municipal da cidade, o Belfast City Hall. A cerca de uma hora, no extremo norte da ilha está a “Calçada de Gigantes” a maior atração turística das duas Irlandas. Trata-se de uma quantidade imensa de rochas vulcânica esculpidas pela natureza que parecem uma calçada à escala de gigantes.

Belfast é actualmente muito conhecida também pela série “Game of Thrones” gravada em parte lá e com alguns actores irlandeses. Há tours direccionadas só para a série.


Realmente o tempo não ajudou mas combinámos tentar outra visita cultural à cidade a meados do Verão. Eu fiquei com vontade de conhecer e desfrutar mais o ambiente da cidade. De qualquer forma não me pareceu uma cidade demasiado vibrante e apelativa. Veremos se mudo de ideias no próximo Verão...

Eu e a chuva no Titanic Experience


domingo, 26 de abril de 2015

Racismo

Hoje fui vítima de racismo. Não recordo alguma vez ter passado por uma situação semelhante.

Agora percebo que a discussão que tive com aquele negro que me tentou roubar na estação dos comboio de Queluz ou que as tentativas de se aproveitarem de mim em Moçambique pelo facto de eu ser branca não foram racismo. Foram situações pontuais, quentes, que me incomodaram mas que não me feriram. 


O que aconteceu hoje foi totalmente distinto. Os meus olhos negros e o facto de ser do sul da Europa hoje foram o meu cartão de visita para um mundo que eu desconhecia. Acreditem que os monstros de verdade são muito mais requintados que os skinheads.  Esses são as loiras burras do festim. Os monstros de verdade falam bonito, são educados e ferem com as palavras...








sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril

Quando hoje abrí a página do sapo deparei-me com o titulo duma reportagem publicada no Expresso:


Eu, como ando tão abstraída do mundo real, pensei que me tinha enganado na data e que hoje talvez fosse antes o "Dia Internacional da Mulher" em vez do dia da minha amada "Revolução dos Cravos". Mas não!

Hoje deve ser um dia de memórias colectivas e passagem de testemunho às gerações mais novas e não de conversas de quintal. 
Como mulher sinto-me incómodada com este choradinho  fora de contexto. O feminismo tem como base principios de igualdade que devem ser fundamentados com inteligência e essa tal sensibilidade feminina que nos torna diferentes dos homens e faz com que sejamos geralmente muito boas naquilo a que nos propômos. Este discurso feminista fácil fará com que a situação das mulheres no mundo seja metida no mesmo pacote que tantos assuntos gravíssimos que, por serem mal geridos nos media, passaram à categoria da banalidade. Refiro-me às tragédias humanitárias em África, ao enforcamentos colectivos cada Quarta-feira na Arábia Saudita, à situação da Siria, à desolação do Alentejo, ao fecho das fábricas de calçado do Norte de Portugal, à corrupção praticada por políticos etc...São coisas que estão a acontecer agora, são gravíssimas mas já ninguém liga :(

Hoje gostaria que se falasse mais dos torturados pelo regime, dos PIDE que nunca foram julgados, dos desgraçados que foram forçados a ir à guerra em África, da censura, da censura e da censura...Não me venham com louvores aos capitães de Abril. Basta já! Há outros louvores a gente anónima que precisam ser prestados urgentemente.


Desejo-vos uma feliz trajetória no caminho da Democracia.E feliz 40 anos de vida aos PALOP como países independentes . 

Por favor vejam isto:



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Para o M.(que tem um relógio diferente)


"Quando a gente quer muito uma pessoa, a gente se engana. A gente tenta encaixar aquele outro ser humano em posições que nunca foram dele. A gente clama ao universo para um sim em algo que já começou destinado ao não. A gente quer, e a gente bate o pé e faz pirraça feito criança para conseguir. Mas um dia a gente percebe que amor tem que ser uma via de mão dupla. Amor tem que ser fácil, tem que ser bom, tem que ser complemento, tem que ser ajuda. Amor que é luta é ego. Amor que rebaixa é dor. E então a gente aprende que amor que não é amor, não encaixa, não orna, não serve.

Fique com alguém que não tenha conversa mole. Que não te enrole. Que não tenha meias palavras. Que não dê desculpas. Que não bote barreiras no que deveria ser fácil e simples. Fique com alguém que saiba o que quer e que queira agora...

Fique com alguém que não deixe existir zonas nebulosas. Que te dê mais certezas do que perguntas. Que apresente soluções antes mesmo dos questionamentos aparecerem. Fique com alguém que te seja a solução dos problemas e não a causa.

Fique com alguém que te faça rir. Que te mostre que a vida pode ser leve mesmo em momentos duros. Que seja o seu refúgio em dias caóticos. Fique com alguém que quando te abraça, o resto do mundo não importa mais.

Fique com alguém que não se esconda. Que não te esconda. Que cada palavra seja direta e clara. Que não dê brechas para o mal entendido. Que faça o que fala e fale o que faça. Fique com alguém cujas palavras complementam suas ações...

Fique com alguém que você não precise convencer de que você vale a pena. Que não tenha dúvidas. Fique com alguém que te olhe da cabeça aos pés e saiba, sem hesitar, que é você e só você...."

Marina Barbieri



quinta-feira, 26 de março de 2015

-Mas tens saudades de quê?
-De nada. Tens razão. Não há nada para sentir saudades.
-Então?
-Oh os flechazos são assim...
-Eu sei, eu entendo-te


sábado, 28 de fevereiro de 2015

O amor acontece...quando tem de acontecer

“Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido a provas e até rejeitado.” Chico Xavier

Escrevi anteriormente que o coração e os instintos nunca nos enganam. O que acontece é que por vezes gostamos de ser enganados. Também vos contei algumas vezes que desconheço os segredos para se ser feliz no amor e, no último ano escrevi aqui muitas palavras carregadas de dor que mil espinhos, uns atrás dos outros como rajadas de balas, me provocaram.

Até então tinha tido uma vida plácida no que ao amor concerne, i.e, tinha amado muito e tinha sido sempre correspondida, porém sem pré-aviso conheci a rejeição. Quando ainda nem me tinha recomposto bem, o otário do meu coração – que é mais ingénuo que a puta que o pariu-  voltou a meter-se noutra. Coitado, ele até nem teve bem a culpa. Foi a cabeça que o enganou cheia de falinhas mansas. O certo é que eu é que paguei as favas destes mambos todos.

Segui a minha vida e curei-me dessa tristeza agónica que só os desgostos de verdade provocam. Olhei sempre em frente e encontrei alguns momentos de alegria (que não tem o mesmo significado que felicidade). Não deixei nunca de sonhar com o amor mas a verdade é que pela primeira vez comecei a olhar para ele com alguma desconfiança.

Um dia estava deitada na minha cama, muitos meses depois de todas essas turbulências e do meu coração irriquieto já me ter dado uma trégua,  quando comecei a sentir um formigueiro no meu peito. O mesmo aconteceu no dia seguinte. O fenómeno não parou de repetir-se durante semanas. Percebi depois que se tratava de algo muito português. Tratava-se de saudade e eu tratei de pôr uma cara a essa saudade. Não demorei a encontrar o responsável.Tinha um nome muito concreto que memorizei durante cerca de 20 anos. Tinha um cheiro na pele digno de Deuses que de repente comecei a sentir nas ondas do vento irlandês, no autocarro, na fila do supermercado, nas toalhas turcas, nos meus sonhos...

Na minha cabeça começaram a sair balões com pontos de interrogação. Perguntava-me frequentemente “E se ele sente o mesmo e pensa que eu não sinto e por isso nenhum dos dois diz o que sente?”. Só se vive uma vez e eu sou consciente disso, portanto não tive dúvidas que ele ia saber que coisas se andavam a cozinhar no meu coração. Tomei a decisão mas mesmo assim reuni a minha equipa de conselheiros para falar sobre o assunto. A resposta não tardou “se sabes o que queres avança...não tens nada a perder”.
Neste ponto é importante referir que o meu instinto, esse cabrãozinho que tem sempre razão mesmo quando nós queremos muito, mesmo muito que não tenha, começou-me a dizer coisinhas ao ouvido sem eu lhe ter perguntado nada. Coisas do género “nunca lhe fechaste as portas, se não voltou foi porque não quis”. Eu até compreendia o instinto, no entanto repito “só se vive uma vez” e perdido por cem perdido por mil.

Num acto kamikase disse-lhe tudo o que se passava dentro de mim. Há sempre esperança que a resposta do outro lado seja digna dum conto de fadas, mas assim que cliquei no botão “Send” o meu bichinho interior pôs os pontos nos is e, sem papas na língua disse-me com todas as letras “não esperes nada em troca”. Foi tão peremptório que, sem jamais me arrepender do meu acto kamikaze, percebi claramente que tinha sido em vão, que do outro lado não seria compreendida. Sabem quando apostam duas vezes no mesmo número de lotaria? Quais são as probabilidades de que esse número saía? Eu apostei duas vezes neste homem e nas duas vezes perdi. Perdi também o amigo porque já não creio nesta amizade. O amigo, quando não quer como homem, diz na cara que não quer porque...é amigo.

Na vida tudo tem um sentido e essa dor agónica de que vos falei no inicio deste texto é, hoje em dia, a carapaça que me permite passar incólume por estas experiências. A desconfiança com que olho agora o amor é algo que passei a considerar extremamente positivo. Que um homem não me queira, que o mesmo homem não me queira duas vezes já não me derruba. Escrevo-vos isto do fundo do coração e um sorriso na cara. Porque acredito no amor, na lógica das trocas baldocas que a vida tem, nas surpresas e sobretudo na minha máxima favorita “What goes around comes around”.Sei que algo muito, mas muito melhor está reservado para mim. Não me arrependo de ter tentando lutar uma vez mais por algo que poderia eventualmente ser recíproco. Temos de lutar por aquilo que acreditamos, contudo também é importante sairmos de cena com dignidade quando percebemos que do outro lado não há...nada.

Sinto-me livre depois de muito tempo, cheia de esperança e de amor tonto para dar a quem o queira de verdade. Limpei a despensa cheia de teias de aranha e agora cheira a Primavera :)

Primavera no Alentejo

(reparem que o instinto levava meses a tentar avisar-me que isto ia acontecer. O maldito tem sempre razão. IRRA!!!) 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

White Flag

Não há receitas para viver uma vida plena mas há truques que se vão adaptando às nossas expectativas, à nossa maturidade, ao peso que levamos na nossa mochila.

O caminho é feito de alto e baixos mas se escutarmos o nosso coração ele diz-nos sempre como actuarmos. O que acontece é que nem sempre estamos dispostos a ouvi-lo porque, por vezes, ele põe o dedo na ferida, ao passo que noutras nos atira para o meio da fogueira. Tantas vezes perdemos a confiança nele e nos nossos instintos.  

Assumo que há épocas em que é impossível não discutir com ambos coração e instintos. Assim que começam a falar comigo já estou a olhar para o outro lado e assobiar com cara de quem diz “vão ver se chove, sim?”.Mas no fundo eles são como as avós: têm sempre razão porque têm experiência e nos desejam o melhor.

Não acho nada que a vida se resolve sózinha. Não sou a favor de ficarmos parados à espera que os milagres aconteçam. Só se estivermos cansados e precisarmos correr fôlego para continuar o caminho de forma digna.

E as recompensas, sempre tão belas, acabam mesmo por acontecer...têm de acontecer.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Peripécias irlandesas: o desfecho

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

É sempre assim! Quando a dor de dentes já passou a primeira coisa que fazemos é “esquecermo-nos” de ir ao dentista. Já passaram dois meses desde a ultima vez que vos escrevi sobre as peripécias mais marcantes na Irlanda. Creio que já é hora de saberem o que aconteceu depois daquele telefonema. Para mim foi óptimo voltar a reler as dificuldades pelas quais passei porque, agora que voltei a ter estabilidade, como qualquer comum dos mortais, já me começo a queixar da vida rotinária. Por vezes é bom recordar os momentos dificéis para poder saborear com maior deleite as coisas boas que me vão acontecendo. E não dúvidem que a vida não é mais do que a louca perseguição da felicidade. Por isso somos tão inconformados, porque andamos sempre à procura daquela adrenalina que só o prazer em estado puro, i.e, a felicidade, nos proporciona. Amén!

Depois daquele telefonema tive cerca de quinze dias para orientar a minha vida em Dublin. Foi complicado tendo em conta que não conheço cá ninguém que me pudesse indicar as melhores zonas para alugar casa, dicas e truques locais. Sabia de antemão que alugar sózinha seria impossível porque os senhorios requerem cartas de referências de tudo e mais alguma coisa, além da típica documentação que eu nem sequer tinha (NIF, conta bancária etc...). Sabia também que partilhar casa requer um ritual de castings dificil já que existe demasiada procura para tão pouca oferta. Assim, um quarto para alugar a preços exurbitantes pode ser visitado por cerca de 15 a 20 pessoas que são sujeitas a interrogatórios pelos demais ocupantes do apartamento. No fim, ganha o que pagar primeiro ou o que conseguir impressionar mais. Eu tinha ainda o tempo limitado porque tinha de ir a Lisboa buscar a minha roupa de escritório. As casas que via nas páginas de anúncios pareciam-me velhas, sujas e caras e consegui  fazer uma triagem de cerca de 5 apartamentos dos quais só visitei dois. Estava já a começar a fazer-me à ideia de viver o primeiro mês num Hostal para poder procurar com calma quando soube que tinha sido aceite em ambos apartamentos que tinha visitado. No primeiro tive uma química intelectual espectacular com o dono, um irlandês chamado Gino em homenagem aos cantores de ópera italianos. Tinha a casa decorada com artigos adquiridos em viagens por todo o mundo e tinha uma alma limpa, aventureira e descontraída. Tão descontraída que a casa-de-banho comum estava suja. E eu pensei “se está assim nos dias em que vêm pessoas ver a casa, como não estará nos restantes dias?”. O segundo era um beto yuppie. O apartamento era limpo, novo, com casa-de-banho privada, um quarto enorme com cama King Size só para mim e a dez minutos a pé do escritório. É onde vivo há três meses. Lamentarei para sempre não ter escolhido o Gino mas ter um W.C. só para mim faz com que a vida numa casa partilhada seja muito mais leve e sustentável.

Trabalho numa multinacional de origem alemã com cerca de seiscentos trabalhadores. Entre todos falamos cinquenta e seis línguas e acredito que haverá perto duma centena de nacionalidades. É incrível. É como trabalhar na ONU mas sem ter de levar com as mentiras “do mundo melhor”. As perspectivas de crescimento são grandes (embora limitadas) e o cuidado com que os trabalhadores são tratados são factores que eu jamais tinha visto. Não existem hierarquias. As equipas dividem-se por sub-equipas. Existem pessoas de referência dentro de cada sub-equipa mas cada um é responsável pelo seu trabalho. Não faz falta um chefe para eu saber que tenho de fazer isto ou aquilo. A própria rotina diária me faz sentir responsável pelo meu trabalho. Eu sei que se não fizer, os meus colegas de equipa dar-se-ão conta das minhas faltas. O ambiente é descontraído e cada um aporta algo de novo e rico todos os dias. Desempenho uma função para a qual não me preparei académicamente e que não dá especial prazer mas ir trabalhar de manhã não é um esforço.

Financeiramente a Irlanda está a mil anos-luz de Portugal. A empresa tem montes de portugueses, que desempenham aqui num país cheio de frio e escuridão, tarefas que podiam perfeitamente desempenhar em Portugal mas pelas quais seriam pelos menos duas vezes mais mal pagos e teriam mais exigências a nivéis de esforço e trabalho. O mercado tem muitas ofertas portanto quem perde um trabalho à partida encontra outro rápidamente. A equação é, pois, muito fácil. A maioria acaba por ficar “um ano mais” até que ficam a vida toda.

Mesmo assim, a Irlanda não é o melhor país para viver porque o preço das casas e transportes não acompanha o valor dos salários. Quem está acompanhado, em familia etc...talvez não sinta tanto porque as despesas acabam por ser partilhadas e os bens de consumo básico (alimentação higiene) são extremamente baratos e de alta qualidade. Porém, quem é solteiro só fica com a vida resolvida a trabalhar na Irlanda se tiver uma dedicação exclusiva ao trabalho e abdicar de gastar em qualquer extra.

Depois está a questão da socialização. Jamais em toda a minha vida tinha tido problemas para fazer amigos. Na Irlanda garanto-vos que é tarefa árdua. Só muita força de vontade e sorte faz com que se tropece numa ou noutra pessoa. Eu estou há quase quatro meses em Dublin e não tropecei em práticamente ninguém. O tempo não motiva porque está sempre de noite, a fazer frio, a chover ou a nevar e a minha cidade irlandesa é a cidade com o clima mais agradável em todo o país. A vida é sempre mais bonita em companhia e por isso mesmo não desisto. Tento sempre procurar uma auto-motivação para sair e descobrir novos lugares, embora esteja a 0,0001% daquilo que fui. Ao fim de três meses em Madrid, Maputo ou Skopje já conhecia todos os cantos dignos duma visita. Aqui nem sequer sei quais são as ruas principais.

Eu vejo sempre o copo meio cheio, sempre sempre. É isso que me faz andar para a frente. Mas quando hoje olho para trás vejo que a Irlanda tem sido o país mais dificil que aterrar. Estar a ponto de ser “expulsa” dum autocarro na Bosnia, no meio dumas montanhas cheias de minas herdadas da guerra dos Balcãs não é nada comparado com a dureza da Irlanda. Ser abordada pela polícia moçambicana é papas de açorda- Talvez seja porque a Irlanda encerra (espero eu) o periodo mais negro da minha vida, talvez seja porque este clima não é mesmo para meninos, o certo é que desta vez não vos vou contar histórias com finais felizes.

Mesmo assim não me arrependo em nenhum momento de ter vindo para cá. Mudaria algumas coisas tais como aqueles primeiros meses em Cork à espera dum milagre laboral. Tinha de ter agido mais rápido. 
A Irlanda devolveu-me a minha dignidade laboral, o meu espírito independente e senhor dono do meu nariz. Agora posso sonhar outra vez e concretizar alguns desses sonhos que precisam de um bom background financeiro (A-F-R-I-C-A). Em Portugal estaria com a cabeça baixa, a queixar-me de tudo. Não, definitivamente o meu lugar não é o meu país. Bem dita a hora que aproveitei o último fôlego que me restava, fiz as malas e parti outra vez.

Contudo e, já para concluir, eu vim à procura dum balanço entre pessoal e profissional mas a minha balança estragou-se. Foi num súbtil momento que eu agora já consigo mais ou menos identificar. Não posso forçar a reparação embora deseje muito encontrar o equilibrio. Tenho 336 dias (Janeiro  já passou) para dar a mão à palmatória à Irlanda. Semanas e semanas de oportunidades que eu tenho para dar a este país verde e bonito mas também é verdade que só se vive uma vez. Quando esta quantidade de dias chegar ao fim, se a balança continuar avariada, não estranhem se encontrarem no parte superior deste blog um novo separador com nome de país ou cidade. Porque as peripécias são para ser vividas e não para roubarem brilhos no olhar...

Desejo-vos,pois, uma vida a abarrotar de peripécias.

Rio Liffey Dezembro de 2014

Vista parcial de Dublin desde o ponto mais alto da cidade