segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Fundação José Saramago, Lisboa

Vista para o Tejo e para a cidade desde o interior da Fundação José Saramago
fonte: google.pt
Há qualquer coisa no Saramago que me emociona. Admito que parte dessa emoção seja fruto dos remorsos que sinto. Como já vos contei, durante muito tempo ignorei a sua obra e vida, em parte porque cresci num contexto social e numa geração para quem o Saramago trazia a sensação de sabor amargo da traição ( "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" foi publicado em 1992) e a dificuldade de ter obras de leitura obrigatória que, segundo o mito, estavam desprovidas de pontuação e que posteriormente seriam tema de avaliação nos exames nacionais, logo, à partida, uma porta directa para o chumbo.

"Um pequeno país, uma grande língua." J.S

Também, parte da emoção que o mundo Saramago me provoca prende-se com o facto da obra dele me ter sido generosamente apresentada por um amigo com quem, casualmente, me reencontrei no dia do meu aniversário, em 2010, o dia da morte do escritor. Menos de dois anos depois esse amigo também desapareceu trágicamente num acidente de moto...
Se na vida após a vida existirem encontros oxalá eles se encontrem. Tenho a certeza que o José haveria de apreciar muito a companhia do Álvaro.

"Mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia." ultima frase d´O Memorial do Convento

Desde que voltei para Portugal que a Fundação José Saramago me parecia tentadora.
Logo à entrada troquei umas palavras com a recepcionista sobre Kalevala, compilação de poemas finlandeses, e os Kalevala, um grupo de música da Macedónia.

Despois desfrutei do imponente interior do edificio e do ambiente de homenagem ao escritor.
A exposição é uma mistura de edições dos livros em diferentes línguas, de objectos pessoais que decoraram os espaços onde o escritor viveu e trabalhou, de entrevistas dadas a diferentes meios de comunicação de diferentes países e, claro está, um destaque especial para o momento de atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1998.
A medalha com o perfil de Albert Nobel que ele recebeu, assim como documentos audiovisuais do momento da entrega do prémio e o discurso sobre os Direitos Humanos que ele proferiu, em Estocolmo,  estão em exposição.

Eu chorei o tempo todo. Chorei porque é um escritor extremamente humano e humanista, distinto das etiquetas que, por vezes, ainda insistem em colocar-lhe. Na exposição está patente a preocupação do homem e do escritor pelo mundo que o rodeava e, sobretudo, pelas pessoas, sempre as pessoas.

Penso talvez que essa seja a maior surpresa para aqueles que desconhecem quem foi Saramago e que, ao aproximarem-se do seu universo, vão descobrir que por detrás da aparência algo fria e seca, estava um homem capaz de aquecer corações, fazer rir e despertar consciências. Capaz de nos fazer ver que o caminho do bem é possível e viável, não obstante o pessimismo. Que tu+eu é uma fórmula possível e universal independente das religiões ou crenças. É uma fórmula feita de Amor e que um mundo bonito e perfeito mas sem Amor é um mundo vazio.

"Os livros levam dentro uma pessoa, o autor." J.S.

Esta é a minha interpretação pessoal (e emocionada) de José Saramago e do seu legado.

"Eu creio que estamos necessitados efectivamente de uma insurreição (...) sim uma insurreição ética, mas não no sentido corrente moralizador porque no fundo seria ir pelo mesmo caminho. Eu diria, antes, uma ética de responsabilidade." J.S.


Túmulo de José Saramago, frente à Fundação
fonte: google.pt



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Querido Madiba


“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

domingo, 27 de outubro de 2013

El vaso medio lleno

Lo bueno que tienen los palos que la vida te da es que al menos, con ellos, viene la falta de apetite y uno puede afinar un poquito la cintura que se había descuidado


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

La perdida+ a despedida: o mais triste 2 em 1

No outro dia uma amiga amiga de infância pôs no muro do FB dela a seguinte frase "Pessoas caladas têm mentes barulhentas". Não podia estar mais de acordo. Acho que por vezes nos sentimos parcos em palavras porque cá dentro está tudo de pernas para o ar. As ideias e os sentimentos estão todos misturados e, os problemas de expressão tornam-se mais evidentes se cá dentro se sente o peso de uma rocha em dor e tristeza.

Viver o fim de uma relação à qual se deu muito implica uma grande capacidade de gerir e canalizar sentimentos para o caixote do lixo. Depois da confusão inicial e de ultrapassada a fase de negação, acredito que ninguém gosta de carregar no peito a sensação de frustração, ciúme, injustiça e precipício. O segredo está em saber manter o equilíbrio e reaprender a andar sózinho, sem aquela querida companhia ( e isto não é pêra doce).

Por isso, quero partilhar convosco que a vida me presenteou um final de relação 2 em 1. 

No dia 2 de Outubro disse adeus a Moçambique. Ficaram na calha tantos sonhos por cumprir e tanto por conhecer, dar e receber. A terra das capulanas e dos sorrisos maningue tranquilos ficará para sempre a palpitar no meu coração. Sei que não tarda nada vou  começar a padecer do mal de África- impossível esquecer aquele chão cor de fogo- e, portanto não ponho de parte um regresso.

Quanto ao outro final, embora tenha tido muitos meses para crer no que os meus olhos viam, o meu coração pressentia e o meu corpo doía, ainda estou atónita. 
A minha cabeça cansada já assume o final mas a minha saudade ainda não consegue perceber em que momento é que a minha artéria aorta portuguesa sofreu um corte daquela artéria aorta espanhola. 
Acabou-se, pois, a união ibérica mais linda que o mundo jamais havia visto. Tenho o meu coração inteiro para aqui a sangrar por ter perdido a melhor, mais querida e mais amada metade de coração a quem se tinha dado. Nunca tinha dado tanto a ninguém e aceitado com tanto altruísmo as dificuldades inerentes a uma relação, mas há muito tempo que uma das patas coxeava insistentemente e para mim deixou de ser suportável ter a coluna em diagonal.
O pior já passou. Posso aceitar que chegou o fim. Agora, cada dia é dia de ir ao posto socorro fazer o curativo. E um dia, quando menos esperar, voltarei a encontrar a minha meia tortilha que me há-de fazer feliz ( ou o meio azulejo, ou a meia chamussa, ou a meia pizza, ou a meia fish&chips, ou sei lá...).

E a vida não é mais que isto: sorrir, cair, sofrer até voltar a sorrir novamente.

Obrigada por terem acompanhado a minha vida em Moçambique. Brevemente tratei detalhes da minha volta à Lusolândia, que não cessa de me dar as boas-vindas com um sol maravilhoso.



Ele tem sempre as palavras que eu preciso numa voz que me marea

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Caixote do lixo

"hay momentos en la vida, en los que la tristeza es tan grande que nada ni nadie puede hacer que desaparezca... solo uno es la fuente de poder para que esos momentos se dispersen en el tiempo"...





quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Maningue Kanimambo*: apadrinhar e ajudar as meninas da Mãe Clara

Primeiro passo: a reportagem

Comecei a pensar o que é que estava ao meu alcance para ajudar um pouco mais e melhor as irmãs e as meninas do orfanato. Pensei que a melhor maneira seria pôr-me em contacto com alguém que tivesse certa visibilidade para que pudesse divulgar o projecto de apadrinhamento.

Eis, senão quando me lembrei que a Cocó na Fralda tem uma rúbrica dedicada à realização de sonhos e iniciativas de cariz social.  Contactei com ela e imediatamente interessou-se não só pelas meninas, mas também pela minha história pessoal e motivações que me levaram a Moçambique. Assim, num belo dia de Setembro- que eu ainda não descobri qual foi- saíu no Jornal de Noticias  uma reportagem sobre mim e sobre o programa de apadrinhamento das meninas da Casa Mãe Clara.

E a Codil leu a reportagem

Alguns dias volvidos da publicação da reportagem, ligou para o orfanato um senhor muito simpático chamado Vitor Mota, director da Codil, uma empresa portuguesa que fabrica soluções em plástico., com sucursal em Maputo. Contou-me que o chefe dele tinha lido a reportagem e, desde Portugal, lhe tinha pedido que nos contactasse e auscultasse as necessidades da casa.
Assim, numa bela manhã de uma Sexta-feira o nosso D. Quixote apareceu acompanhado de outros dois colegas, o João e o Mauro, e trouxe-nos 100 pratos de plástico, 100 copos de plástico, 100 jarras de plástico, 60 pratos de plástico para pic-nic e um alguidar gigante onde a pequena Jeni pode fazer de conta que está na piscina.

Não me importa estar descaradamente a fazer-vos gramar com publicidade. A Codil preocupou-se e decidiu compromoter-se socialmente com um projecto. Podiam estar-se marimbando para a pobreza dos moçambicanos e manter-se à margem na borbulha sediada nos bairros de Sommerchield e Polana. Não foi isso que aconteceu, por isso, o meu desejo é que a Codil cresça em força, que todos os que me estão a ler comprem plásticos fabricados por eles e que eles continuem a ajudar as “minhas” crianças.



Apadrinhar crianças da Mãe Clara

Bom, mas como o meu ego não aguentou o facto de ter saído uma reportagem com a minha história e a minha foto num dos jornais de maior tiragem de Portugal, decidi enviar um e-mail a todos os meus contactos da Peninsula Ibérica. Quase me mijava nas calças de tanto orgulho!

Os apoios começaram a chegar, sobretudo de Espanha. A Rosa, minha amiga, enviou uma ajuda para comprar fruta ( Rosa es la dueña del establecimiento de estética donde yo hice la depilación  y me auto-regalé unos mimitos durante los tres años que viví en Madrid, el Beauty-Zen, en Paseo del Molino, Legazpi).

Depois a Mónica, luso-espanhola e minha antiga companheira de trabalho, decidiu apadrinhar uma criança. “Impingi-lhe” a Vanessa, uma menina linda de 11 anos que ficou orfã este ano e, portanto, ainda não tem padrinhos a quem escrever e que a cuidem, mesmo à distância.

Se vocês estiverem interessados em apadrinharem alguma das nossas crianças podem consultar as condições e procedimentos na página do Lar http://casamariaclara.no.sapo.pt/ ou contactem a Madre Superior, Irmã Ana Paula paulinhaartur@gmail.com

À parte a informação institucional, garanto-vos que a Casa Mãe Clara é um dos projectos mais sérios que conheci. Durante todos estes meses em que estou a colaborar com as irmãs, percebi que todo e qualquer tostão que lhes chega através de ajudas é canalizado prioritáriamente para a alimentação e educação das crianças que elas se comprometeram a criar.
Não ponho em causa a gestão e acção das outras instituições, sejam fundações ou ONG´s, mas a minha experiência em Moçambique e o contacto mais que directo com maneiras de trabalhar que deixam tudo a desejar, levam-me a aconselhar aqueles que querem ajudar a pensarem muito bem antes de entregarem os seus recursos financeiros a qualquer entidade. Infelizmente, há uma grande falta de valores no meio. 

Sintam-se, pois, convidados a ajudar. Parafraseando a própria Mãe Clara "Fazer o bem onde há bem a fazer".



*Muito obrigado

domingo, 29 de setembro de 2013

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

É fácil criticar

Dizer  da boca para fora “gosto” ou “não gosto” é muito mais fácil do que sentir cá dentro a evolução de um sentimento positivo ou negativo, sobretudo, em determinados contextos, já por si “especiais”.
Para mim, à primeira vista, gosto de todas as meninas do orfanato. À segunda vista já não é bem assim. Com o convívio fui-me dando conta que algumas meninas não as gostaria de ter para mim, nem oferecidas ou recheadas com molho de chocolate.

Em Moçambique conheci pessoas extraordinárias mas, também, percebi que a cultura da necessidade cria muitos “bandidos”. É dificil confiar a 100% nas pessoas, por muito queridas que sejam. E isto aplica-se a um rango dos 0 aos 100 anos. De trás de tudo isto está, como não poderia deixar de ser, o peso dos 500 anos de escravatura: “O branco não é de confiança mas tem dinheiro, portanto vamos aproveitar”. E esta maneira de ser é transversal a diferentes contextos e situações. Aqui no orfanato, as meninas também fazem “bandidagens” com o carinho e com a atenção.

Do meu ingénuo estereotipo dum orfanato faziam parte alguns conceitos muito cor-de-rosa. Por exemplo, eu pensava que as meninas não eram invejosas umas com as outras. Que o facto de todas necessitarem faria com que fossem compreensivas e, inclusivé, se alegrassem quando uma tivesse algo mais e estivesse disposta a partilhar. Não só são invejosas, como fazem trinta por uma linha para conseguirem manipular a atenção daqueles que chegam vindos de fora.

Também me deixavam louca (e ainda deixam) a indisciplina na sala de aula e a falta de concentração. Mesmo as meninas que no pátio são extremamente bem educadas, na sala de aula tornam-se feras.  Mas o que mais me intrigava ao início era a capacidade nata para esquecerem tudo de um dia para o outro. Uma menina que num dia se porta bem, acerta as contas todas, as letras, as sílabas etc...no dia seguinte é bem provável que não saiba nada. Como se durante a noite a sua mente tivesse sido assolada por um vendaval que varreu tudo. E, assim, fui descobrindo muitas vigarices e bandidagens entre elas e comigo. Involuntáriamente comecei a gostar mais de umas que de outras. Não deixava transparecer os meus sentimentos, porque sou consciente do lugar onde estou. Num orfanato todas necessitam de grandes doses de auto-estima, no entanto não podia evitar, cá dentro do meu peito, sentir o rum-rum do meu coração, quando algumas delas se aproximavam ou, pelo contrário, sentir certo aborrecimento quando se aproximavam outras. Por isso, comecei este texto por dizer que é muito mais fácil sentir certos sentimentos, em deterimento de outros.

Comecei a queixar-me às irmãs de alguns comportamentos de algumas meninas. E foi quando me começaram a ser abertas as portas para conhecer melhor o historial de algumas meninas. Mesmo antes de ter acesso a essa informação, não tinha qualquer dúvida de que, para estarem aqui, é porque a vida já tinha sido muito madrasta com elas. Nos países mais pobres as crianças já nascem à partida condenadas e isso não é nada justo.

A F. de 12 anos é mentirosa compulsiva. Está sempre a inventar histórias e põe uma cara de pena tão penosa que é impossível não ficar com o coração partido ao vê-la e ouvi-la. Ao principio parecia-me que tinha uma extrema necessidade de atenção e carinho. Justifiquei com as suas carências as dificuldades que demonstrava com as letras. Todas as meninas e a formadora me diziam que a F. não sabia ler. Comecei, pois, a trabalhar com ela e a personalizar a minha forma de a ensinar. Convidei-a para vir à casa dos hóspedes, sentava-a ao meu lado e punha-a debaixo do meu sovaco, como gosto tanto de fazer com os meus sobrinhos. Em qualquer momento que a encontrava por aí convidava-a para ler. Com grande desgosto percebi que a F. sabe ler perfeitamente (com as dificuldades típicas das crianças que não têm o hábito e leitura) e que se dedicava a fazer “teatro” para conseguir captar a minha atenção. Seguiram-se depois uma sucessão de mentiras. Foi quando descobri que a mãe da F. é prostituta e que a F., quando ainda vivia com a mãe, num ambiente bastante hóstil, era utilizada como transporte de droga entre outras misérias humanas às quais qualquer ser humano, sobretudo sendo criança, deve ser privado.

A S. e a C., ambas de 10 anos, irmãs, portam-se qual delas pior. São umas terrivéis, autênticas crianças-furacão. Chegaram ao orfanato há menos de um ano e quando chegaram não falavam português. Ambas têm dificuldades para aprender e, sobretudo, não conseguem estar concentradas mais de meio segundo. Confesso que são o tipo de crianças que não gosto de ter na minha sala de aula porque onde estão criam confusão (atenção: não gostar de as ter como alunas, não significa que seja menos professora com elas). Parti do principio que vinham de um ambiente de violência e que por isso eram, elas próprias, tão violentas e agitadas. Descobri que nas cheias de Fevereiro deste ano a polícia as resgatou de um telhado onde, juntamento com outros vizinhos, permaneceram bastante tempo como unica forma de sobreviverem. A desnutrição pela qual passaram não foi o pior. O pior foi ter de ver, desde o alto, lá no telhado, todos os cadáveres que a água arrastava. Na mesma altura perderam a mãe e a C. quando chegou ao orfanato, além de ter muita febre, ficou duas semanas sem falar.

A A., de 9 anos, pelo contrário é um Ás nas aulas. Quando as outras ainda nem sequer acabaram de copiar, a A. já copiou e resolveu os exercícios e já está a pedir mais. É maravilhoso dar-lhe aulas. Também me pareceu sempre uma criança muito bem resolvida com a sua história. Não demonstrava demasiada necessidade de carinho. Ao contrário das outras, que preferem estar penduradas nos nossos pescoços, a A. prefere sempre e acima de tudo jogar e brincar. Esta criança é uma fortaleza. Quando era pequena viu o pai assassinar a mãe degolando-a. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, quando a A. brincava com a sua irmã, pegava numa caneta e encenava a morte da mãe. Atribuo a sua boa educação e temperamento doce ao facto de estar a ser criada por uma avó que, segundo ouvi, é uma mulher maravilhosa.


Aqui cada menina traz com ela uma carga muito pesada. Não posso evitar gostar mais de umas que de outras, mas quem sou eu para as criticar? Defendo que se estas crianças pudessem ser adoptadas (a lei de adopção em Moçambique é muito fechada) e ter um lar, a pedra dura que levam na cabeça e, às vezes, no coração, poderia ser esculpida.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O prazer de ensinar

Uma infelicidade trouxe-me até ao orfanato. Como já contei aqui, vim com uma ONG que funciona mal. O dinheiro existe para pagar bolsas de estudo de mérito duvidoso, vinhos e casas de luxo. Tudo o resto, a verdadeira cooperação, é fictício, segundo os modelos de gestão da pessoa que comanda essa ONG.
Depois de meses de frustração, sem rumo, chegar ao orfanato foi o melhor que me podia ter acontecido. Estar aqui e poder contribuir de alguma maneira para o futuro destas crianças foi sem dúvida o ponto fulcral de toda esta experiência mas não falo apenas de questões humanitárias. Pessoalmente descobri uma vocação que até então desconhecia: ensinar, ser professora.
Transmitir conhecimento dá uma sensação de poder tremenda. Saber que, através de mim e das coisas que lhes ensino, elas no futuro terão acesso a outras oportunidades faz-me sentir útil e capaz.

O nivel de ensino em Moçambique é vergonhoso. Até ao 7º ano todas as crianças são obrigadas a passar de classe. Só chumbam aquelas que não sabem mesmo nada. E o conceito de não saber mesmo nada aqui é literal. Há jovens de 18 anos que não sabem ler nem escrever mas sabem alguma coisinha (ainda não descobri o quê). Essas jovens foram passando de classe até ao 7ºano e, depois, aí ficaram como estátuas, convivendo com colegas de carteira de 11,12,13 anos e por aí fora. Poderia desfilar um sem fim de histórias reais que ouço diáriamente contadas pelos alunos e professores que demonstram que a escola existe para que as crianças moçambicanas possam ir passear os livros e sejam meros números nas estatísticas internacionais que pretendem demonstrar que Moçambique é um pais que está a crescer.

Infelizmente, a maioria das crianças a quem dei aulas aqui no orfanato, estão nessas condições. Sabem nada ou muito pouco. Tentei não desistir de nenhuma, embora algumas situações sejam desesperantes. Numa dessas “lutas” descobri que a T. de 7 anos, afinal sabe muito mais do que todos esperavam (mesmo sabendo muito pouquinho).

A T., foi abandonada à porta do orfanato quando tinha 3 ou 4 meses. Era um bebé e foi o ai Jesus da casa. Infelizmente, foi crescendo e demonstrando uma grande indiferença para com as coisas da escola. Tanto as colegas, como as irmãs me pediam que lhe desse alguma atenção especial. Confesso que ao principio não estava muito interessada em dar uma atenção privilegiada a uma criança irriquieta, barulhenta, suja e desorganizada, que estava mais interessada nas brincadeiras que nas letras. Mesmo assim fiz um esforço e isso foi-me recompensado. Afinal a T. só precisa de alguém que esteja ali ao lado e que a consiga manter mais de 30 segundos concentrada.

Quando todos descobrimos que a T. sabe escrever o nome dela foi uma enorme alegria. A Irmã Maria nem queria acreditar.


Deixo-vos aqui umas quantas fotos que comprovam que a T. é capaz de muitas coisa.



domingo, 22 de setembro de 2013

Lobolo

(Este texto está escrito com base nos testemunhos de moçambicanos e leituras aleatórias que efectuei ao longo dos anos. Não é um texto cientifico. Acima de tudo, expõe a minha visão assumidamente parcial sobre o tema.)

O Lobolo é uma prática ancestral com um peso muito grande na sociedade moçambicana até aos dias de hoje.
Do ponto de vista cultural pode ser comparado ao nosso antigo dote. Do ponto de vista puro e duro trata-se de uma compra: a família do noivo compra uma mulher mediante um pagamento em numero e/ou género à sua família.
Antigamente esse pagamento era feito como forma de agradecimento à familia da noiva por tê-la criado, educado e preparado para que fora uma boa mãe e esposa. Sobretudo, era muito apreciado (e bem pago) o facto de a noiva casar virgem. Porém, o lobolo, era acima de tudo, uma recompensa à família da noiva pela perda de uma filha (veja-se que o significado não era meramente afectivo, senão prático. Perder uma filha significava perder mão-de-obra doméstica).

Para nós, europeus, é uma prática sexista e retrógada. Contudo, para os moçambicanos é uma prática actual. Aqueles que não lobolam a mulher têm sempre uma dívida para com a família dela. A mulher que não é lobolada é uma mulher sem direitos.

Conheci dois casos de lobolos tardios e dois casos de lobolos feitos nos primeiros anos de vida em comum. Nos lobolos tardios, ambos casais mostraram as fotos do casamento e rituais de lobolo com muito orgulho. As senhoras, mães de não sei quantos filhos e avós de outros tantos, iam vestidas de véu e grinalda. Os senhores de fraque. Vi fotos deles a pegarem ao colo delas e a partirem o bolo de noivos com todo o romanticismo e tradiciolismo inerente a este acto (braços entrecruzados e um dá um pouco de bolo ao outro). Os “vovôs-noivos” falavam da cerimónia e demonstravam certo alívio por terem podido pagar a “dívida” que haviam contraído várias décadas antes com a sua família política. As “vovós-noivas” falavam do caso ainda com mais alívio porque as mulheres que não são loboladas, assim como os seus descendentes, não têm qualquer direito sobre o património familiar. Em caso de viuvez, mesmo que tenham filhos pequenos ou dependentes, a família do homem pode exigir que estas abandonem a casa familiar e todos os bens. A mulher lobolada perde o direito aos filhos. Já os filhos da mulher não lobolada “pertencem” ao tio materno. Como normalmente as mulheres moçambicanas são totalmente dependentes dos maridos, quando se deparam com esta situação extrema, são obrigadas a aceitar certas imposições bárbaras. A mais comum é a obrigação de servirem e manterem relações sexuais com um dos irmãos do defundo marido, ou seja, com o cunhado. O lobolo é também a justificação para mal tratar psicológicamente a mulher  “eu paguei por ti portanto vais fazer o que eu quiser”, ou o homem “tu não me lobolaste portanto não tens nada a ver com a minha vida”.

O lobolo é um ritual patriarcal, ou seja, é um negócio entre duas famílias que são representadas pelos homens das mesmas. A família do noivo dirige-se, pois, à casa da noiva. É-lhe entregue uma lista com algumas exigências. Normalmente a noiva, os pais delas e os avós deverão ser obsequiados com alguma coisa. Antigamente, no tempo dos casamentos arranjandos, estas listas eram de extrema importância e discutiam-se em plenário familiar. Nos tempos modernos todos os pedidos são aceites porque já foram acordados previamente pelos próprios noivos.
De acordo com o ritual, se a família do noivo aceitar, cerca de um mês depois da primeira visita, voltam a casa da noiva com os presentes. E depois vem a festa rija. Entre os presentes, é de bom tom oferecer uma bengala, roupa e sapatos ao pai, um conjunto completo à mãe, capulanas a dar com pau e utensílios de cozinha.

Existem mais uma série de detalhes que não domino de todo. Por exemplo, nos dias que antecedem a cerimónia religiosa, a noiva é totalmente coberta com duas capulanas unidas por uma barra de linho e é acomodada no chão, em cima de uma esteira. A família do noivo atira dinheiro e, quando a família da noiva e/ou a noiva, consideram que é suficiente, a noiva destapa-se. Antigamente, em muitos casos, o noivo não via a noiva até este momento. Imagino que alguns devem ter apanhado grandes sustos.

Em Moçambique a violência doméstica ainda é o pão nosso de cada dia. Existem uma série de observatórios, gabinetes, comités etc...de apoio e protecção à mulher mas na prática a mulher ainda é muito vulnerável, o elo mais fraco. A própria cultura incentiva ao mal trato. O homem que não bate na mulher “não é homem”. E quando bate, se a mulher decide apresentar queixa às autoridades é “porque não ama” esse homem de verdade. Existe um ciclo vicioso entre a cultura e a lei. No caso de a mulher ser lobolada a coisa complica-se, porque se ela decidir que não quer mais estar com o marido que a espanca, que lhe é infiel, que a contagiou com uma DST, a própria família dela apresenta-lhe uma série de entraves. Embora a lei já contemple situações como estas, o peso da cultura fala mais alto. Neste caso, dita que se a mulher decidir sair de casa e terminar com o casamento, a sua família terá de devolver o valor do lobolo. Ora, a família não está disposta a isso e pressiona a mulher a “aguentar” e manter tudo como até então.

Existe também o detalhe da multa. Em caso de a mulher lobolada já ter filhos do homem ele terá de pagar um extra por cada filho.

Nos tempos modernos o sentido do lobolo foi bastante deturpado. Da lista de exigências fazem parte muitas frivolidades. De qualquer forma, indaguei por aqui e acoli qual a opinião das mulheres sobre o assunto e se de alguma forma se sentiam tratadas pelas familias como “mercadoria”. A maioria reconhece que o lobolo tem essa faceta mas que o peso da tradição e o orgulho de o seguir à risca é mais forte que qualquer outro factor.

Tudo isto que acabei de contar faz parte da História da cultura moçambicana. Deixo-vos a foto de uma lista de lobolo elaborada há dois meses à qual tive acesso (mas que não fui expressamente autorizada a publicar. Bandidagem!) 

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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

João Baptista: a destruição de um mito

Na tentativa de dignificar o “monstro” João Baptista acabei por destruir o mito.(para quem não sabe quem é o dito cujo sugiro que click aqui)
Numa bela manhã de Quinta-feira, antes das 9h da manhã, o João Baptista veio ao orfanato. Ao contrário das aparições anteriores, chegou calmo, e esteve todo o tempo sentado ao pé do tronco da mangueira, numa atitude bastante introspectiva.
Mais de duas horas depois seguia na mesma posição, com o mesmo semblante pacifico. Decidi aproveitar a oportunidade para conhecê-lo um bocadinho melhor e fui falar com ele. Pensei também que o facto de as meninas me verem falar com ele faria com que fossem um bocadinho mais tolerantes.
Sentei-me muito perto e cumprimentei-o. Perguntei como estava, se já tinha comido etc...Respondeu-me com um doce sorriso tridental. Disse-me que estava tudo bem, que as irmãs já lhe tinham oferecido um chá e que ele estava só a descansar. Comecei a puxar por ele. Jamais havia visto um “monstro” tão fofinho (confesso que os velhinhos/as são o meu ponto fraco).

Falámos muito. Contou-me que lutou na guerra pelo lado dos portugueses. Perguntei-lhe descaradamente porque era tão alto. Pensei que talvez fosse descendente de algum somali. Disse-me que é filho de um americano com uma moçambicana. E depois o tico e o teco começaram a dar mostras de estarem avariados. Contou-me que ele é assim alto quando está doente, porque normalmente costuma ser mais pequeno. Contou-me também que é negro porque apanhou muito sol e mais umas quantas histórias da carochinha.

Logo no inicio da nossa conversa perguntei-lhe como se chama. Senti-me muito desapontada por saber que afinal o nome dele é Helder. Contei-lhe que as meninas lhe chamam João Baptista e ele riu-se muito. Chamei-as para o pé de mim e apresentei-lhes o Sr. Heldér. Algumas apertaram-lhe a mão. Enquanto falávamos elas começaram a sentar-se à volta dele. Quando me despedi de ele, já estavam umas dez a pulular por ali. Disseram-me que queriam que ele lesse para elas mas tinham vergonha de lhe pedir. Achei a situação tão extraordinária que fui a correr buscar a máquina das fotos.
Conseguimos tirar quatro fotos antes de ter ficado sem bateria. Fui-me embora e muito tempo depois elas continuavam à volta dele a ouvir-lhe a histórias.






quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Deus

Sabem aqueles que me conhecem que eu não sou amiga intima da religião. Estou igualmente convencida que Deus é uma invenção do Homem. Precisamos acreditar em algo transcendente, por isso, ao longo dos tempos fomos inventando mitos e entidades transcendentes. Antes de Cristo, o Homem já acreditava nos deuses e já tinha os seus rituais de culto religioso. Temo a Deus porque sou uma cobarde que não consigo cortar com a herança cultural. Desde criança que ouço dizer “Se fizeres isto, aquilo ou o outro Deus castiga-te”, logo é dificil ter uma opinião 100% firme e dizer que não existe porque isso, no fundo, é trair a minha cultura. E se depois existe e me castiga mesmo? Neste pensamento instintivo de defesa reside a cobardia...
Mas se me ponho a pensar racionalmente, chego à clara e irrefutável conclusão de que não existe. Em caso de que existisse seria um elitista, totalmente parcial, porque só olha para um lado. O outro lado, o das perpétuas injustiças, é constantemente negligenciado pelo seu olhar. Logo, chego á conclusão que Deus não existe mas é mais fácil para todos dizer que sim.

Não quero dizer com isto que em caso de necessidade não me volque a Deus. Acredito, também, que em caso de necessidade, faz falta acreditar am algo que nos transporte para fora da nossa realidade. Algo que transcenda o campo terreno porque a realidade que nos rodeia é demasiado dura. Nesse momento, preferimos elevar  o espírito e é quando alimentamos a fé.

Também devo de admitir que sinto uma certa inveja das pessoas que são crentes e que falam dessa Paz, dessa alegria e dessa companhia que encontram em Cristo. É sobretudo quando me dói cá dentro e a fé nos Homens escasseia que eu penso que a minha vida seria muito mais fácil e leve se eu pudesse dizer “olha oh Deus, agora ponho este assunto nas tuas mãos. Tu é que decides, ok?”.

Bom, não esperem encontrar no ultimo parágrafo deste texto uma conclusão brilhante. Senti necessidade de falar sobre este tema aqui no blog. Foi só isso.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Eu e a minha holamiga T.F

Qual amiga qual carapuça!!
Na semana passada recebemos uma visita especial aqui no orfanato. Veio-nos visitar uma hiper-famosa do jetset espanhol, acompanhada pelo seu séquito de totós!

Eram umas quinze pessoas e estiveram quatro dias em Moçambique. Visitaram sobretudo a Casa do Gaiato.
Durante a estadia usaram o nosso machibombo. A Consol, uma voluntária espanhola que não deixa escapar uma, utilizou esse facto para benefício do orfanato e conseguiu convênce-los a visitarem-nos.

À primeira vista, a famosa T.F, parecia muito tímida e pouco vedeta. Falava tal e qual os do jet-set, mas de resto parecia uma rapariga muito normal.
Já as pessoas da equipa que a acompanhavam andavam de cadeias às avessas. Pelo que pude entender, a ideia da viagem partiu de uma fundação de apoio à infância que se costuma associar a famosos para conseguir angariar fundos. Na viagem a Moçambique fez uma parceria com uma empresa dos media que, por sua vez, se associou a esta famosa que, obviamente, veio à borlix.
Os da fundação estavam como loucos porque o plano inicial era promover as necessidades dos projectos locais, mas a empresa dos media passou o tempo todo a fotografar e filmar a T.F, sempre bem penteada e maquilhada por um profissional que a acomponhou todo o tempo. Os da fundação estavam piursos. Ao fim de dois minutos de conversação com o David, a presidente da fundação- uma amiga íntima do botox- disse cobras e lagartos da T.F. Precisava desabafar!

Decidiram fazer uma reportagem com a T.F. e com as irmãs a falarem sobre o orfanato e as necessidades presentes. Pediram-me para fazer de interprete. Tivémos de simular uma conversa enquanto nos filmavam de longe. A T.F. fez-me várias perguntas e quando eu respondia disse-me “ok, ok, agora contas isso quando estiverem a gravar o som, ok?”. Repetiu a façanha com as irmãs. Quando elas lhe contavam alguma coisa ou falavam sobre alguma necessidade, ela dizia-lhes para falarem sobre isso quando a câmara estivesse a gravar o som.

Eu fiquei com a sensação que esta mulher está-se a borrifar para os projectos. Veio aqui com um séquito impressionante, olhava para tudo com muito nojo, não fez qualquer carícia a nenhuma das crianças e, agora em Espanha, há-de vender uma parnafenália imensa de fotos e reportagens às revistas cor-de-rosa, rodeada de crianças sujas e ranhosas que ela não tem nem ideia de como é que se chamam e que, provavelmente, dão-lhe nojo.

Perguntou-me, também, pelos meus estudos. Quando lhe disse a resposta dela foi “Ah, mas com isso podes encontrar trabalho em qualquer parte do mundo.” Como se o meu pai (tal como o pai dela) fosse um nobre, o Marquês de Faria em pessoa!!

A coisa não termina por aqui. Quando se foi embora ofereceu à Consol um saco da Panama Jack cheio de medicamentos. A maioria são paracetamol. Havia também umas vitaminas para a energia e para o ânimo. Contudo, ficámos seriamente intrigados quando descobrimos uns comprimidos inibidores de testosterona. E o mais esquisito é que faltavam uns quantos! O séquito dela estava constituido maioritáriamente por gays. Como poderão imaginar temos especulado bastante sobre este detalhe... (EHEHEHEHEH)

Soube por terceiros, que a pequena quando chegou a casa do embaixador de Espanha, esteve uma hora enfiada no W.C. Quando saíu exclamou alegremente “aaaaaaaaiiii que saudades que eu tinha de umas toalhas brancas”.


Resumindo, durante quatro dias, estiveram cerca de quinze pessoas na outra ponta do mundo. No total não terão gasto menos de 15.000€. Sabemos que deixaram cerca de 3.500€ para diferentes projectos. Enfim, tirem vocês as conclusões...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Insólitos sala de aula #9

Elas são muito irriquietas e brincalhonas. Estão sempre a inventar desculpas para sairem da sala de aula. Normalmente todas têm vontade de fazer xixi ao mesmo tempo.

Como sou uma professora muito má, só deixo ir uma de cada vez, para evitar “ajuntamentos” no pátio ou nos W.C.( vocês não imaginam as confusões que elas armam em menos de dois minutos. São autênticas máquinas de fazer disparates).

Quando elas me perguntam se podem ir à casa-de-banho, eu costumo dizer-lhes “Sim, mas vai a voar”, como quem diz “vai num pé e vem noutro”.

Foi, pois, com grande alegria e regozijo que descobri há algum tempo que elas vão mesmo a voar. Abrem os braços, “batem as asas” e vão e voltam a correr.








quarta-feira, 11 de setembro de 2013

João Baptista

O João Baptista é um sem-abrigo que costuma vir ao orfanato mendigar. Normalmente vem uma vez por semana. Tem mais de 2 metros de altura, uma muleta e assim que ele chega o terror e o histerismo instalam-se entre as meninas. Correm como baratas tontas e tentam ficar a uma boa distância de segurança.

O João Baptista quando chega pede logo comida. Quando está de bom-humor fica para ali, debaixo da mangueira, a falar coisas que só ele é que entende. Mas quando está com os azeites o melhor é mesmo fugir. Põe-se a gritar a dizer que precisa de comer e que não se vai embora enquanto não lhe derem um prato de comida, que ele tem os seus direitos, que é muito alto e que precisa comer. Quando se chateia a sério ameaça toda a gente com a muleta.

Não acredito que o João Baptista seja perigoso. Já o vi muito zangado mas nunca o vi ser mesmo violento com ninguém. Acho engraçado que elas tenham estes “monstros” que lhes povoam a infância e adolescência. Quando forem mães e avós vão contar aos seus pequenos que quando elas também eram pequenas havia um tal de João Baptista que era um demónio.

Bem haja e um prato de comida ao João Baptista que os merece só pelo facto de fazer memória na vida destas criaturas.




quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cemitério S. Francisco Xavier, aka, Cemitério da Ronil

Foi há quase 10 meses que cheguei a Moçambique e desde as primeiras viagens de carro pela gigante Av. Eduardo Mondlane que me sinto intrigada/fascinada pela presença de um cemitério fantasma.  Aliás, ao principio eu não sabia que era um cemitério fantasma mas chamou-me a atenção o facto de,através de muro, ver sumptuosos jazigos no meio de tantas árvores gigantes e mato que ultrapassa a altura das construções.
Um dia espreitei por cima dos muros e fiquei impressionada com o cenário halloweenesco. Os jazigos e as sepulturas estão violados e tudo estava coberto de mato. O imponente portão principal serve de entrada ao W.C que há anos os transeuntes improvisaram. No cemitério da Eduardo Mondlane é caso para dizer que se mija em cima da campa dos outros!
E não foi menor a minha supresa quando, ao virar da esquina, encontrei um cemitério judaico que parece o próprio paraíso, e um cemitério mulçumano que, embora não esteja tão bem conservado como o anterior, não tem aspecto de estar abandonado.

Fui indagando e, até hoje, não consegui respostas muito esclarecedoras. As pesquisas na internet acrescentam poucos dados à minha curiosidade. Os nativos pouco sabem sobre o passado e o futuro do cemitério mas dizem-me para me dirigir ao Município, no entanto tenho aprendido que em Moçambique a curiosidade e as autoridades públicas não são uma boa mistura.

Mesmo assim consegui descobrir que se chama Cemitério S. Francisco Xavier ou Cemitério da Ronil. É o priméiro cemitério da cidade de Maputo, construído ainda durante o séc.XIX. Até 1974 foram sepultados corpos em jazigos e campas familiares mas desde 1955 que já não se faziam funerais. Os defuntos são sobretudo cidadãos de origem portuguesa e, após a independência, o cemitério foi abandonado por motivos óbvios. Aliás, não deixa de chamar a atenção que numa cultura onde os antepassados têm uma importância tão grande,  se deixem ao abandono e se permita vandalizar centenas de sepulturas sob o olhar pacifico das autoridades. Porque é uma questão de permissão já que o cemitério está no epicentro da cidade. Logo, é impossível ignorar a sua existência e aparência.

Nas minhas pesquisas boca-a-boca, falaram-me de uns quantos mitos urbanos sobre as intenções do Município em relação ao espaço que o cemitério ocupa. Uns dizem que se fala da construção de um parque de estacionamento, outros na construção de um centro comercial. Várias pessoas- moçambicanas e estrangeiras- disseram-me que há alguns anos a cooperação portuguesa recebeu uma verba avolutada para a rehabilitação do cemitério e adaptação a monumento histórico, ao estilo Père-lachaise, em Paris, no entanto, até hoje nada foi feito. Outras vozes reclamam que o espaço, devido ao seu carácter histórico e beleza arquitectónica, deveria ser convertido em Panteão Nacional e acolher os corpos de personalidades importantes de Moçambique.

O mais preocupante é que não é o unico cemitério de portugueses que está vetado ao abandono. Em Mueda, na provincia de Cabo Delgado, há um cemitério onde foram sepultados soldados mortos na guerra colonial/libertação, que está exactamente nas mesmas condições. Deixo-vos aqui o link de um documentário da SIC que denuncia a situação.

Entretanto, o Cemitério de São Francisco Xavier é utilizado como morada de muitos sem-abrigo VIVOS. As sepulturas são vandalizadas e a madeira dos caixões é utilizada para fazer fogos que aquecem as noites mais frias ou para preparar alimentos. Em Julho, houve um incêndio que destruíu, ainda mais, parte do cemitério. As fotos que aqui vos deixo foram tiradas há cerca de duas semanas, já depois do incêndio, por isso o mato não está tão grande.

Visto desde fora

Entrada Principal
Sepulturas violadas e caixões abertos

Sepultura violada

Jazigos violados

Vista parcial


Cemitério Judaico



Cemitério mulçumano, com todas as campas direccionadas a Meca.


Entrada no Cemitério mulçumano


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Insólitos sala de aula #8

É muito comum as meninas “descuidarem-se” na sala de aula. Quando isso acontece eu abro as janelas. Se o cheiro persiste, chamo-lhes a atenção.
Um destes dias o cheiro não passava nunca mais, por isso disse-lhes:

-Então meninas, já se bufaram outra vez?

A E., de 8 anos, aproveitou a deixa para se revoltar contra a A., de 8 anos. Estava realmente indignada. Dizia que assim não se podia estar, que acontecia sempre o mesmo, que a A.era sempre igual etc...etc...
Como a vi tão segura das acusações que estava a fazer e que, inclusivé, as colegas a apoiavam, iniciei um insólito diálogo:

- Mas oh E. como é que tu sabes que foi a A.?
- Mana Sónia, eu juro que sei, eu juro que foi ela porque os peidos dela cheiram a pessoa (pissôa).
- Então e os das outras pessoas cheiram a quê?
- tchééééé os da Y. cheiram a comprimidos, os da A.E. cheiram a lombrigas...
- Ah e tu consegues saber quem se descuidou só pelo cheiro? És bufóloga?
- (muito orgulhosa do seu talento natural) SIIIIIM, eu consigo adivinhar quem se descuidou até no escuro, acerto sempre...

Insólitos sala de aula #7

Estávamos na aula a falar sobre pessoas charás, aka, homónimas. Eu contei-lhes que no orfanato além de duas charás minhas, há também charás da minha mãe, irmã, tia e sobrinha.

Elas quiseram então saber como é que se chamam toooodas as pessoas da minha família. Disse-lhes os nomes de quase todos os meus parentes, inclusivé dos meus 22 primos direitos. Elas perceberam que ainda não sabiam os nomes dos meus tios. Então, já muito cansada, fiz cara de frete, suspirei e respondi-lhes:

-Pffffffff ....sei lá, Joaquim, António, Mariano etc...

A T., de 7 anos, olhou para mim muito incrédula e disse com a maior ingenuidade:

- tchééééééé mana Sónia, você tem mesmo um tio que se chama Pffffffff????


sábado, 31 de agosto de 2013

A curiosidade matou o gato...



Já há algum tempo que as noviças- raparigas que almejam ser freiras- e que vivem num convento aqui ao lado, me convidaram para ir assistir às aulas de música delas. Segundo as próprias, as aulas eram muito animadas porque cantavam ao mesmo tempo que acompanhavam com percussão (jambé).

Aceitei de bom grado, mas umas vezes porque o professor não veio, outras vezes porque elas estavam de férias, outras vezes porque eu me esqueci, fui adiando o projecto de assistir a essas aulas de música.

Hoje foi o dia! Para grande surpresa o padre que lhes dá as aulas é um padre ao qual secretamente eu chamo padre Mosquito. E explico porque é que o chamo assim. Há cerca de dois meses ele veio dar uma missa aqui ao orfanato. Como não tinha escapatória, assisti a essa missa e não me arrependo até hoje. Foi uma missa “tu cá, tu lá” e o Padre a certa altura, quando queria apelar ao bom senso das meninas, dizia-lhes:
- Vocês têm coração de pessoa ou coração de mosquito?
Querendo dizer que no coração delas cabe muito mais do que elas imaginam, e que têm de ser boas e portar-se bem etc...

O primeiro exercício na aula de música foi a leitura de uma pauta. Foi uma grande risada porque tantos as noviças, como as irmãs fazem batota. Em vez de lerem as notas directamente na pauta, escrevem debaixo os nomes das notas e vão lendo e cantado assim. Bom, quando já todas tinham lido a pauta e cantado as notas, o padre veio ter comigo e pediu que eu lesse. Eu expliquei-lhe muito encabulada  e vermelhona que não tinha ido para cantar, que cantar não é a minha vocação. Eu só queria assistir às aulas. Deixou passar mas não tardou em voltar e pedir que cantasse primeiro um Dó grave, depois um Mi e, finalmente, um Sol...Todas se estavam a rir de mim às gargalhadas.

No final da aula, deixei cair o assento de uma cadeira em cima da unha do pé...A curiosidade matou o gato e depois de me terem feito cantar em público já não volto a meter os pés (nem as unhas) nas aulas do padre Mosquito e das noviças malandrecas!

(Ah, e devo dizer que o analgésico mais eficiente para este tipo de pancadas tão sofregas nos pés é o tipico palavrão...como não pude soltar nenhuma verborreia de baixo nivel- não era o momento nem o local apropriado- garanto-vos que me doeu muito mais que outras vezes)