sábado, 28 de fevereiro de 2015

O amor acontece...quando tem de acontecer

“Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido a provas e até rejeitado.” Chico Xavier

Escrevi anteriormente que o coração e os instintos nunca nos enganam. O que acontece é que por vezes gostamos de ser enganados. Também vos contei algumas vezes que desconheço os segredos para se ser feliz no amor e, no último ano escrevi aqui muitas palavras carregadas de dor que mil espinhos, uns atrás dos outros como rajadas de balas, me provocaram.

Até então tinha tido uma vida plácida no que ao amor concerne, i.e, tinha amado muito e tinha sido sempre correspondida, porém sem pré-aviso conheci a rejeição. Quando ainda nem me tinha recomposto bem, o otário do meu coração – que é mais ingénuo que a puta que o pariu-  voltou a meter-se noutra. Coitado, ele até nem teve bem a culpa. Foi a cabeça que o enganou cheia de falinhas mansas. O certo é que eu é que paguei as favas destes mambos todos.

Segui a minha vida e curei-me dessa tristeza agónica que só os desgostos de verdade provocam. Olhei sempre em frente e encontrei alguns momentos de alegria (que não tem o mesmo significado que felicidade). Não deixei nunca de sonhar com o amor mas a verdade é que pela primeira vez comecei a olhar para ele com alguma desconfiança.

Um dia estava deitada na minha cama, muitos meses depois de todas essas turbulências e do meu coração irriquieto já me ter dado uma trégua,  quando comecei a sentir um formigueiro no meu peito. O mesmo aconteceu no dia seguinte. O fenómeno não parou de repetir-se durante semanas. Percebi depois que se tratava de algo muito português. Tratava-se de saudade e eu tratei de pôr uma cara a essa saudade. Não demorei a encontrar o responsável.Tinha um nome muito concreto que memorizei durante cerca de 20 anos. Tinha um cheiro na pele digno de Deuses que de repente comecei a sentir nas ondas do vento irlandês, no autocarro, na fila do supermercado, nas toalhas turcas, nos meus sonhos...

Na minha cabeça começaram a sair balões com pontos de interrogação. Perguntava-me frequentemente “E se ele sente o mesmo e pensa que eu não sinto e por isso nenhum dos dois diz o que sente?”. Só se vive uma vez e eu sou consciente disso, portanto não tive dúvidas que ele ia saber que coisas se andavam a cozinhar no meu coração. Tomei a decisão mas mesmo assim reuni a minha equipa de conselheiros para falar sobre o assunto. A resposta não tardou “se sabes o que queres avança...não tens nada a perder”.
Neste ponto é importante referir que o meu instinto, esse cabrãozinho que tem sempre razão mesmo quando nós queremos muito, mesmo muito que não tenha, começou-me a dizer coisinhas ao ouvido sem eu lhe ter perguntado nada. Coisas do género “nunca lhe fechaste as portas, se não voltou foi porque não quis”. Eu até compreendia o instinto, no entanto repito “só se vive uma vez” e perdido por cem perdido por mil.

Num acto kamikase disse-lhe tudo o que se passava dentro de mim. Há sempre esperança que a resposta do outro lado seja digna dum conto de fadas, mas assim que cliquei no botão “Send” o meu bichinho interior pôs os pontos nos is e, sem papas na língua disse-me com todas as letras “não esperes nada em troca”. Foi tão peremptório que, sem jamais me arrepender do meu acto kamikaze, percebi claramente que tinha sido em vão, que do outro lado não seria compreendida. Sabem quando apostam duas vezes no mesmo número de lotaria? Quais são as probabilidades de que esse número saía? Eu apostei duas vezes neste homem e nas duas vezes perdi. Perdi também o amigo porque já não creio nesta amizade. O amigo, quando não quer como homem, diz na cara que não quer porque...é amigo.

Na vida tudo tem um sentido e essa dor agónica de que vos falei no inicio deste texto é, hoje em dia, a carapaça que me permite passar incólume por estas experiências. A desconfiança com que olho agora o amor é algo que passei a considerar extremamente positivo. Que um homem não me queira, que o mesmo homem não me queira duas vezes já não me derruba. Escrevo-vos isto do fundo do coração e um sorriso na cara. Porque acredito no amor, na lógica das trocas baldocas que a vida tem, nas surpresas e sobretudo na minha máxima favorita “What goes around comes around”.Sei que algo muito, mas muito melhor está reservado para mim. Não me arrependo de ter tentando lutar uma vez mais por algo que poderia eventualmente ser recíproco. Temos de lutar por aquilo que acreditamos, contudo também é importante sairmos de cena com dignidade quando percebemos que do outro lado não há...nada.

Sinto-me livre depois de muito tempo, cheia de esperança e de amor tonto para dar a quem o queira de verdade. Limpei a despensa cheia de teias de aranha e agora cheira a Primavera :)

Primavera no Alentejo

(reparem que o instinto levava meses a tentar avisar-me que isto ia acontecer. O maldito tem sempre razão. IRRA!!!) 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

White Flag

Não há receitas para viver uma vida plena mas há truques que se vão adaptando às nossas expectativas, à nossa maturidade, ao peso que levamos na nossa mochila.

O caminho é feito de alto e baixos mas se escutarmos o nosso coração ele diz-nos sempre como actuarmos. O que acontece é que nem sempre estamos dispostos a ouvi-lo porque, por vezes, ele põe o dedo na ferida, ao passo que noutras nos atira para o meio da fogueira. Tantas vezes perdemos a confiança nele e nos nossos instintos.  

Assumo que há épocas em que é impossível não discutir com ambos coração e instintos. Assim que começam a falar comigo já estou a olhar para o outro lado e assobiar com cara de quem diz “vão ver se chove, sim?”.Mas no fundo eles são como as avós: têm sempre razão porque têm experiência e nos desejam o melhor.

Não acho nada que a vida se resolve sózinha. Não sou a favor de ficarmos parados à espera que os milagres aconteçam. Só se estivermos cansados e precisarmos correr fôlego para continuar o caminho de forma digna.

E as recompensas, sempre tão belas, acabam mesmo por acontecer...têm de acontecer.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Peripécias irlandesas: o desfecho

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

É sempre assim! Quando a dor de dentes já passou a primeira coisa que fazemos é “esquecermo-nos” de ir ao dentista. Já passaram dois meses desde a ultima vez que vos escrevi sobre as peripécias mais marcantes na Irlanda. Creio que já é hora de saberem o que aconteceu depois daquele telefonema. Para mim foi óptimo voltar a reler as dificuldades pelas quais passei porque, agora que voltei a ter estabilidade, como qualquer comum dos mortais, já me começo a queixar da vida rotinária. Por vezes é bom recordar os momentos dificéis para poder saborear com maior deleite as coisas boas que me vão acontecendo. E não dúvidem que a vida não é mais do que a louca perseguição da felicidade. Por isso somos tão inconformados, porque andamos sempre à procura daquela adrenalina que só o prazer em estado puro, i.e, a felicidade, nos proporciona. Amén!

Depois daquele telefonema tive cerca de quinze dias para orientar a minha vida em Dublin. Foi complicado tendo em conta que não conheço cá ninguém que me pudesse indicar as melhores zonas para alugar casa, dicas e truques locais. Sabia de antemão que alugar sózinha seria impossível porque os senhorios requerem cartas de referências de tudo e mais alguma coisa, além da típica documentação que eu nem sequer tinha (NIF, conta bancária etc...). Sabia também que partilhar casa requer um ritual de castings dificil já que existe demasiada procura para tão pouca oferta. Assim, um quarto para alugar a preços exurbitantes pode ser visitado por cerca de 15 a 20 pessoas que são sujeitas a interrogatórios pelos demais ocupantes do apartamento. No fim, ganha o que pagar primeiro ou o que conseguir impressionar mais. Eu tinha ainda o tempo limitado porque tinha de ir a Lisboa buscar a minha roupa de escritório. As casas que via nas páginas de anúncios pareciam-me velhas, sujas e caras e consegui  fazer uma triagem de cerca de 5 apartamentos dos quais só visitei dois. Estava já a começar a fazer-me à ideia de viver o primeiro mês num Hostal para poder procurar com calma quando soube que tinha sido aceite em ambos apartamentos que tinha visitado. No primeiro tive uma química intelectual espectacular com o dono, um irlandês chamado Gino em homenagem aos cantores de ópera italianos. Tinha a casa decorada com artigos adquiridos em viagens por todo o mundo e tinha uma alma limpa, aventureira e descontraída. Tão descontraída que a casa-de-banho comum estava suja. E eu pensei “se está assim nos dias em que vêm pessoas ver a casa, como não estará nos restantes dias?”. O segundo era um beto yuppie. O apartamento era limpo, novo, com casa-de-banho privada, um quarto enorme com cama King Size só para mim e a dez minutos a pé do escritório. É onde vivo há três meses. Lamentarei para sempre não ter escolhido o Gino mas ter um W.C. só para mim faz com que a vida numa casa partilhada seja muito mais leve e sustentável.

Trabalho numa multinacional de origem alemã com cerca de seiscentos trabalhadores. Entre todos falamos cinquenta e seis línguas e acredito que haverá perto duma centena de nacionalidades. É incrível. É como trabalhar na ONU mas sem ter de levar com as mentiras “do mundo melhor”. As perspectivas de crescimento são grandes (embora limitadas) e o cuidado com que os trabalhadores são tratados são factores que eu jamais tinha visto. Não existem hierarquias. As equipas dividem-se por sub-equipas. Existem pessoas de referência dentro de cada sub-equipa mas cada um é responsável pelo seu trabalho. Não faz falta um chefe para eu saber que tenho de fazer isto ou aquilo. A própria rotina diária me faz sentir responsável pelo meu trabalho. Eu sei que se não fizer, os meus colegas de equipa dar-se-ão conta das minhas faltas. O ambiente é descontraído e cada um aporta algo de novo e rico todos os dias. Desempenho uma função para a qual não me preparei académicamente e que não dá especial prazer mas ir trabalhar de manhã não é um esforço.

Financeiramente a Irlanda está a mil anos-luz de Portugal. A empresa tem montes de portugueses, que desempenham aqui num país cheio de frio e escuridão, tarefas que podiam perfeitamente desempenhar em Portugal mas pelas quais seriam pelos menos duas vezes mais mal pagos e teriam mais exigências a nivéis de esforço e trabalho. O mercado tem muitas ofertas portanto quem perde um trabalho à partida encontra outro rápidamente. A equação é, pois, muito fácil. A maioria acaba por ficar “um ano mais” até que ficam a vida toda.

Mesmo assim, a Irlanda não é o melhor país para viver porque o preço das casas e transportes não acompanha o valor dos salários. Quem está acompanhado, em familia etc...talvez não sinta tanto porque as despesas acabam por ser partilhadas e os bens de consumo básico (alimentação higiene) são extremamente baratos e de alta qualidade. Porém, quem é solteiro só fica com a vida resolvida a trabalhar na Irlanda se tiver uma dedicação exclusiva ao trabalho e abdicar de gastar em qualquer extra.

Depois está a questão da socialização. Jamais em toda a minha vida tinha tido problemas para fazer amigos. Na Irlanda garanto-vos que é tarefa árdua. Só muita força de vontade e sorte faz com que se tropece numa ou noutra pessoa. Eu estou há quase quatro meses em Dublin e não tropecei em práticamente ninguém. O tempo não motiva porque está sempre de noite, a fazer frio, a chover ou a nevar e a minha cidade irlandesa é a cidade com o clima mais agradável em todo o país. A vida é sempre mais bonita em companhia e por isso mesmo não desisto. Tento sempre procurar uma auto-motivação para sair e descobrir novos lugares, embora esteja a 0,0001% daquilo que fui. Ao fim de três meses em Madrid, Maputo ou Skopje já conhecia todos os cantos dignos duma visita. Aqui nem sequer sei quais são as ruas principais.

Eu vejo sempre o copo meio cheio, sempre sempre. É isso que me faz andar para a frente. Mas quando hoje olho para trás vejo que a Irlanda tem sido o país mais dificil que aterrar. Estar a ponto de ser “expulsa” dum autocarro na Bosnia, no meio dumas montanhas cheias de minas herdadas da guerra dos Balcãs não é nada comparado com a dureza da Irlanda. Ser abordada pela polícia moçambicana é papas de açorda- Talvez seja porque a Irlanda encerra (espero eu) o periodo mais negro da minha vida, talvez seja porque este clima não é mesmo para meninos, o certo é que desta vez não vos vou contar histórias com finais felizes.

Mesmo assim não me arrependo em nenhum momento de ter vindo para cá. Mudaria algumas coisas tais como aqueles primeiros meses em Cork à espera dum milagre laboral. Tinha de ter agido mais rápido. 
A Irlanda devolveu-me a minha dignidade laboral, o meu espírito independente e senhor dono do meu nariz. Agora posso sonhar outra vez e concretizar alguns desses sonhos que precisam de um bom background financeiro (A-F-R-I-C-A). Em Portugal estaria com a cabeça baixa, a queixar-me de tudo. Não, definitivamente o meu lugar não é o meu país. Bem dita a hora que aproveitei o último fôlego que me restava, fiz as malas e parti outra vez.

Contudo e, já para concluir, eu vim à procura dum balanço entre pessoal e profissional mas a minha balança estragou-se. Foi num súbtil momento que eu agora já consigo mais ou menos identificar. Não posso forçar a reparação embora deseje muito encontrar o equilibrio. Tenho 336 dias (Janeiro  já passou) para dar a mão à palmatória à Irlanda. Semanas e semanas de oportunidades que eu tenho para dar a este país verde e bonito mas também é verdade que só se vive uma vez. Quando esta quantidade de dias chegar ao fim, se a balança continuar avariada, não estranhem se encontrarem no parte superior deste blog um novo separador com nome de país ou cidade. Porque as peripécias são para ser vividas e não para roubarem brilhos no olhar...

Desejo-vos,pois, uma vida a abarrotar de peripécias.

Rio Liffey Dezembro de 2014

Vista parcial de Dublin desde o ponto mais alto da cidade





domingo, 28 de dezembro de 2014

A luz de Lisboa

Belém, Outubro de 2013 (dia de um reencontro muito especial)
Assim que o avião começou a sobrevoar a foz do Sado a paisagem vista da mínuscula janela encheu-se daquela luz que só Lisboa tem. Aiiii, e já sei que sou uma melga porque repito sempre isto mas Lisboa é tão boa, tão bonita, tão única. Porque será que não há lá forma para todas as botas?

Aproveitem vocês que estão ai e fazem de Lisboa e de Portugal um lugar deveras especial...A luz só por si não brilha sem vocês.

FELIZ NATAL
O meu Natal 2014 em família

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Vitamina D

Antes de voltar às "peripécias" passei por aqui só para dizer que preciso de SOL e de SUL


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Insólitos Irlanda #9


Sabem quando vamos a um restaurante pré-pagamento e a comida que pedimos ainda não está cozinhada? Normalmente há duas opções: ou ficamos no balcão, junto à caixa e esperamos, ou nos sentamos e depois o empregado vem trazer à mesa.

Na Irlanda, numa situação semelhante, o empregado da caixa entrega-nos uma maquineta e diz para esperarmos sentados. Quando a nossa comida está pronta, a maquineta farta-se de piscar umas luzinhas vermelhas visivéis até do outro lado do mundo. Dirigimo-nos ao balcão et voilá!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Peripécias irlandesas: Hostal III

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

Bom, não quero que fiquem a pensar que as pessoas que estão nos hostal pertencem todas a um estereotipo psicológico que varia entre o louco e pirou de vez. Muito pelo contrário, nesta minha experiência encontrei pessoas incrivelmente simpáticas e lutadoras. Partilhei quarto com mais de trinta pessoas em meia-dúzia de dias. Os cromos contam-se pelos dedos de uma mão. Todas as demais pessoas com quem me fui relacionando eram muito agradáveis. É impossível falar com toda a gente que está de passagem por um Hostal, mas hà sempre caras que se repetem porque têm os mesmo horários de refeição ou os mesmos hábitos.

O Abraham´s Hostal deixa muito a desejar em termos de instalações, mas por ser o mais barato da cidade é muito procurado para instâncias de vários dias. Foi por isso que conheci muitos jovens, sobretudo espanhóis, que estavam nas mesmas condições que eu. Tinham deixado para trás os seus países e traziam na bagagem formações topo de gama e vontade de fugir ao desemprego. Os espanhóis vêm sempre dispostos a trabalhar em qualquer coisa porque sabem à partida que o nível básico de Inglês que têm não lhes permite inicialmente sonhar muito além dos típicos trabalhos não-qualificados. Era frustrante encontrar-nos cada final de tarde na cozinha, cada um sumido no seu silêncio. Quando abriamos a boca era para contar onde tínhamos ido distribuir CV´s. Cada dia uma nova ilusão que se acabava por se romper semanas depois. Eu estive assim demasiado tempo para saber o quão dificil é e compreendo aquela sensação de desespero e de inutilidade que se vai instalando em nós, quando já buscámos em todas as partes e não encontrámos um emprego que nos devolva alguma dignidade. O dinheiro vai diminuindo na conta e o caminho começa a ser tão estreito que o ar parece que rareia. E o mais frustrante é que o dia que encontramos um trabalho não podemos acreditar. Achamos que a qualquer momento nos vão ligar a dizer “desculpe mas foi engano. Você não vale para este posto, nem para nenhum outro. Vamos dá-lo a outro desgraçado”

Foi, pois, com grande alegria, que as primeiras pessoas a saberem que tinha encontrado um trabalho, foram os companheiros de Hostal. Foi uma coincidência. Eu estava na cozinha metida comigo mesma e com a cara quase dentro do ecrã. À minha volta estavam três ou quatro caras conhecidas igualmente sumidas. Ligaram-me para dizer que o posto era meu e quando desliguei fiquei abobada. Levantei a vista  e estavam todos a olhar para mim. Foi então que lhes disse “Tengo trabajo, I got a job” e todos aplaudiram.  Dias antes tinha estado num hotel em Madrid com muito mais estrelas que o Abraham´s (que em caso de ter estrelas devem ser cadentes) e tinha sentido um vazio e uma solidão muito maiores que a familiaridade que sentia no Hostal.

Não sou hipócrita e sei perfeitamente que não quero voltar a repetir a experiência. Adoro chegar à minha casa e encontrar tudo limpo e organizado. Gosto de ter os meus shampôos todos dispostos na banheira, sem estarem encafuados numa bolsinha. Se me apetece ando descalça e nem por isso apanho pé-de-atleta. Se desaparecer alguma coisa é porque a mudei de lugar e não me lembro, e não porque alguém a roubou. Mesmo assim, vejo que a vida está cheia de malditos atalhos que nos vão maltratando e deixando marcas. Umas esquecem-se rápidamente, outras nem por isso. Uns arriscamos e vivemos mais. Outros nem por isso. Talvez aos olhos desses outros, estes relatos das minhas peripécias não passem de loucuras, de perdas de tempo, de coisas sem utilidade. Mas há sempre alguém, algum livro, alguma paisagem nos quais tropeçamos que fazem com que cada segundo destes “tempos perdidos” valham a pena. Que justificam o sofrimento, a solidão e o rancor que tantas vezes sentimos quando escolhemos viver fora da “zona verde”.

Da experiência de viver num Hostal, trago além de todas estas histórias e outras tantas às quais vos poupei, três pessoas: o Manel e o Pedro, dois portugueses da margem Sul e a Francis, uma canadiana de 75 anos que ainda viaja de mochila.
Eu já tinha feito o check-out e pensava que já não voltaria a ver essa Lady tão simpática e jovem (que há noite se transformava numa máquina de roncar com direito a diferentes ritmos e sinfonias). Eis que numa dessas casualidades que a vida tem a voltei a encontrar nas ruas de Dublin. Fomos caminhar e almoçar juntas e falámos muito sobre muitos assuntos: livros, viagens, família etc...Ela dizia que tínhamos o mesmo sentido de humor. Foi-me levar ao meu novo Hostal e na despedida disse-me algo que me marcou muito e fez com que me emocionasse. Disse-me que nunca mais me esqueceria. Garanto-vos que se alguém jovem me dissesse o mesmo não teria um impacto tão grande. Que uma pessoa de 75 anos, depois de ter vivido tanto, viajado por aí e conhecido tanta gente me diga isso é porque realmente houve algo que fez com que eu me tornasse especial para ela.  

TO BE CONTINUED...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O que é doce nunca amargou...

Desculpem a presunção mas não se pode ser sempre humildezinha.
Uma pessoa gosta de ouvir ao longo dos anos coisas como "aii tu és tão parecida com aquela actriz..." ou "Ui fazes-me lembrar a cantora tal"

Hoje no trabalho disseram-me que pareço uma das actrizes dum filme do Fellini (não vou dizer qual)...e foi uma senhora casada e já entradota de idade que me disse, ou seja, sem segunda sintenções.

Ufff...os cremes funcionam mesmo :)

Fellini
E ter dado beijos ao Marcello Mastroianni teria sido mamma mia!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Peripécias irlandesas: Hostal II

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

Quando voltei de viagem só tive vaga na casa dos horrores aka Abraham´s Hostal um par de dias mais por isso mudei-me para o Kinlay House Hostal, mesmo em frente ao Castelo de Dublin.

Enganam-se se pensam que tive vida de princesa. O quarto feminino de seis/oito beliches do anterior hostal foi substituído por uma camarata mista de dezoito camas. Acrescenta-se o facto de ter chegado na véspera de Halloween. Havia um rodopio tremendo de lobisomens e bruxas que podiam facilmente ser confundidas com senhoras da vida. A luz estava constantemente acessa e eu estava na cama de cima a levar com toda aquela incandescência. Até fiquei bronzeada! Depois, dormir em frente a tão Eminente monumento como vem a ser o Castelo de Dublin pode eventualmente ser interessante para os nepónicos que gostam muito de fazer fotos. Na prática não tem interesse nenhum porque os sinos tocam a cada quinze minutos. 
Entretanto, a gang do ronco tinha-se multiplicado quais coelhinhos e naquele quarto não se podia dormir. A noite de Halloween tinha vindo de golpe direitinha a mim, logo eu que só queria estar na minha cama tranquilamente a ler.

“Se não podes com eles, junta-te a eles”. Foi que fiz e nem precisei pestanejar.  Sabem aqueles autocolantes que se usam no Verão para atrair moscas? Eu venho equipada de fábrica com uma coisa do género, mas em vez de atraír moscas, atraí cromos:

Cromo 2: Gay até na maneira de respirar, brasileiro, trinta e dois anos, giro, giro, giro.

Cromo: “Hello, I am from Brazil and you?”
Sónia: Ah, eu sou de Portugal.
C: Oi?
S: Eu disse que sou de Portugal
C: Oi? Ah,entendi…Nossa, so we can speak portuguese, don´t you think so?
S: Claro! De onde é que és mesmo lá no Brasil?
C:Oi? Sorry?
S: Qual é a tua cidade lá no Brasil?
C: Ah, eu sou do Rio. Nossa, os portugueses falam bonitinho mas é bem dificil entender vocêis.
S:LOL
C: Adoro Paris. É a minha cidade de sonho. De onde é você lá em Portugal?

...

Depois de termos encontrado uma zona de conforto no portinglish ele disse-me que estava triste. A minha cabeça gritou-me “ainda estás a tempo de te despedires educamente e de te virares para o outro lado”, mas o meu coração AAAHHH O MEU CORAÇÃO esse maldito coscuvilheiro não se conseguiu conter e perguntou-lhe o que se passava. Contou-me que o namorado o tinha deixado mas mesmo assim ele o tinha convidado para a festa de Halloween. Se o namorado estivesse receptivo a uma reconciliação ele alinhava. Mas se o namorado não estivesse “se fodeu”. Contou-me que o plano dele era beijar toda a gente que estivesse na festa, escarrapachado na cara do outro. Eu apelei ao bom-senso e à auto-estima dele mas ele já não me ouvia. Aliás, estava tão absorvido pelo seu próprio mundo que dava duas stickadas de perfume na roupa, pousava o frasco, e voltava a agarrar nele dois segundos depois para dar mais stickadas. Pelo menos cheiroso devia estar!

...

No outro dia encontro-o (forma de dizer porque ele dormia na cama ao lado. Era só abrir os olhos e lá estava ele) e pergunto-lhe como tinham corrido as coisas. Falou, falou, falou só para me dizer que tinham corrido mal. O outro não queria nem saber dele e, por isso, ele tinha tido uma grande canseira a tentar seduzir pessoas na festa e tinha bebido até “cair di porri”.  Já ao final da tarde, voltei a encontrá-lo e comentou comigo que o namorado ia passar pelo Hostal a apanhá-lo para irem tomar algo e que ele, embora soubesse que o outro não merecia, tinha-lhe comprado um presente caro.


TO BE CONTINUED...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Peripécias irlandesas: Hostal I

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

Depois da experiência Aupair chegou a vez de dar passo a um novo e não menos surpreendente capítulo da minha vida: viver num Hostal.

Talvez viver não seja bem o termo, porque o objectivo inicial era hospedar-me apenas por uns dias enquanto procurava trabalho em Dublin e ia e voltava de Madrid. Tinha esperança que me dessem o posto de trabalho que ocupo actualmente, mas confesso que estava já tão céptica em relação a tudo que nem criei demasiadas expectativas. Só queria encontrar um trabalho, ganhar dinheiro, pagar as minhas contas e voltar a viver de forma independente. Para isso precisava estar no centro de Dublin e como não conheço ninguém nesta cidade, procurei um hostal cêntrico e o mais barato possível. Abraham´s Hostal, numa paralela da O´Connell Street foi o escolhido. Além de ser barato, incluí matabicho e no tripadvisor tinha críticas positivas. Embora a limpeza tivesse uma cotação baixa, os hóspedes pareciam excepcionalmente satisfeitos com o staff e com a organização do hostal (ou foram pagos para cotizarem ou não calharam irremediávelmente com a cabra ruiva da recepção).

Descrever como uma experiência negativa não seria de todo justo mas...
É extremamente incómodo partilhar um quarto minúsculo com seis ou oito raparigas. Umas que roncam, outras estão tão animadas com a viagem que  em vez de se dedicarem a dormir, dedicam-se a dar voltas no beliche da loja dos trezentos e a desgraçada que está na cama de baixo (ou de cima) tem de levar com aquele chiar suplicante toda a puta santa noite. Depois os W.C. partilhados são óptimos museus de memória de cabelos que estiveram nas cabeças de alguém e que já não estão...e há sempre algum objecto pessoal que desaparece e fica aquele ambiente estranho num espaço de quatro metros quadrados e apinhado de beliches. Quase se ouve aquela gota do suor nervosa a escorrer na espinha.

No primeiro dia é divertido porque cada pessoa que chega é de um país diferente. No meu primeiro dia ainda nem tinha os dois pés dentro do quarto e já tinha uma miuda asiática a perguntar-me “Whele you come flom?”. Sorri e respondi educadamente. Calamba, que culiosidade, a tipa ia dileitinha a Lisboa no dia a seguil. Claro, que lhe escrevi uma longa lista de locais recomendáveis, entre os quais o Martim Moniz (ihihihihihhi). Mas depois, invariávelmente começa um desfiladeiro de perguntas standard e das cromas do costume (eu sei que para algumas eu também devo ser croma).

Croma 1: Na cama em frente à minha estava uma miuda de cabelos compridos, pesadona sem ser gorda, que ora lia um livro, ora falava em inglês com sotaque francês. Perguntou-me de onde era e eu devolvi a pergunta. Quando me disse Israel respondi com um sorriso algo forçado “Ah, que fixe! Nunca conheci ninguém de Israel” (precisamente eu andava metida numas discussões pseudointelectuais pró-palestina). Contou-me que cada dois anos o avô convida toda a família para uma larga viagem e no ano anterior tinham estado em Portugal. Eu falei-lhe no meu adorado filme “ A viagem do director” e já não sei em que momento é que a conversa descambou para o tema óbvio. Bom, nesse momento a miuda de cabelos compridos foi embora e deu passo à croma na sua essência. Nalguns argumentos tinha razão. Óbviamente que os dirigentes palestinianos não são inocentes mas, a tipa estava super orgulhosa de ter feito a tropa, da mesma forma que as miudas portuguesas estão orgulhosas de ir cinema com as amigas num Sábado à tarde. Reconheceu que isso lhe trouxe consequência psicológicas irreparáveis e admitiu que a tropa não prepara os israelistas para um eventual ataque bélico à escala mundial, senão exclusivamente para combater os palestinianos. Os exercícios práticos são passar a “fronteira” sem ser vistos, nem mortos pelos palestinianos. Depois começou o discurso anti-islâmico que a meu ver não deveria ser permitido, assim como não o é o discurso anti-semita. Quando eu já desejava que se abrisse um buraco no chão e me engolisse, eis que se abriu a porta da casa-de-banho onde uma das hóspedes tinha estado emergida num banho sem fim qual Cleópatra, e foi assim que me consegui escapulir a uma conversa que me era cada vez menos grata...Só para concluir, antes que a casa-de-banho me engolisse, a croma estava deitada de lado na cama, mesmo em frente a mim, com a cabeça apoiada na mão e com um olhar cada vez mais distante e repetia que estava muito orgulhosa de ser israelista e poder pertencer a um país que tem capacidade de se defender dos mulçumanos e que a Europa estava a cometer um erro terrível ao deixar entrar toda essa “gentalha” ao mesmo tempo que abolia o serviço militar obrigatório...E eu ouvia aquilo e sentia-me cada vez mais orgulhosa de ser europeia.

Abraham´s Hostal

TO BE CONTINUED...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Peripécias irlandesas: Au pair

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

Quando escrevi este texto acabava de atravessar uma fase dificil depois de oito semanas a procurar trabalho e a sentir-me perdida e sózinha. Tentava agarrar-me à restia de criatividade que ainda tinha mas para mim  o caminho estava a ficar cada vez mais sem saídas. Ou voltava para casa sem ter conseguido nada além de uma grande frustração, ou continuava na Irlanda mas para isso teria de dar alguns retoques nos planos que havia traçado para mim.
Na vida dos imigrantes, os trabalhos de Kitchen Porter estão para os homens, como os trabalhos de babysitter estão para as mulheres, ou seja, quase o último recurso, porque além de serem mal pagos, exigem uma carga laboral muito grande e uma energia que nem o Tarzan tem. Inscrevi-me na página das Aupair na Irlanda e começaram a aparecer diferentes propostas. Era pegar ou largar. Fui contactada por várias familia e fiz uma pré-seleção de cerca de quatro delas. Por exclusão de partes, escolhi uma família no Condado de Kildare, com dois pequenos gémeos de seis meses.

Assim, no inicio de Setembro deixei Cork, fiz as malas e levei uma lista de coisas que queria fazer nos tempos livres para ganhar uns trocos extra. Depois duma brainstorming com uma amiga, cheguei à conclusão que o melhor seria procurar trabalhos como tradutora. Não ia demasiado animada porque trabalhar como babysitter. Fugia em muito ao meu objectivo inicial, mas ia de cabeça erguida, com energia para agarrar o novo projecto e, sobretudo, com um sorriso na cara porque o mundo não tinha a culpa das minhas desavenças internas.

Fui recebida por uma familia de classe média-alta (diria talvez mais alta que média), numa casa de campo deslumbrante, no meio do nada. A loja mais perto estava a cerca de meia-hora a pé, assim como a única farmácia, supermercado e estéticista num raio de não sei quantos kilómetros.Não me importei. Era tratada com educação, tinha longas conversas com a mãe dos amorosos gémeos e toda a comunicação era feita em inglês o que me ajudou bastante. Como a mãe é professora de Educação Física, magrérrima mas convencida de estar à beira da obesidade mórbida (confesso que me inspirei nela para escrever este texto), toda a comida era biológia, home-made, todos os dias fazíamos caminhadas de passo rápido pelos magníficos campos irlandeses e depois de jantar uma sessão de Insanity. Era óptimo e estava feliz com a minha rotina saudável. As noites eram terminadas num quarto com decoração de revista e com uma casa-de-banho privada enorme.

Até aqui tudo óptimo mas, assim que cheguei percebi que o meu velho computador se negava a conectar à wireless da casa, portanto os planos de trabalhar como tradutora estavam fora de questão. Assim como os planos de fazer cursos à distância, procurar trabalhos ou escrever longos e-mails aos meus amigos. Nunca se opuseram a que eu usasse o computador lá de casa ou o ipad, mas a verdade é que era dificil escrever num apple com teclado irlandês, entre outras pequenas comodidades perdidas tais como a privacidade ao fazer downloads de coisas que me enviavam por e-mail etc...Depois cada vez que me tinha de deslocar a Dublin porque a família ia passar o dia com os amigos/familiares, tinha de gastar muito dinheiro em transportes. O salário de aupair não está mal mas não é nenhuma fortuna e muito menos compatível com o standard de vida. Por fim, viver no local de trabalho não é de todo recomendável porque é um non-stop na actividade laboral, assim como na relação com os “colegas”, neste caso os pais dos gémeos.

No inicio de Outubro disse à mãe que ficaria até ao final do mês porque precisava de outros recursos financeiros. Ela não só não se opôs, como se alegrou. Acredito que para ela também tenha sido intenso passar tanto tempo sózinha com uma estranha de sotaque português, dois bebés que não a deixavam dormir à noite e um marido sumido de espírito e útil apenas nas tarefas mínimas. Depois um milagre aconteceu e fui chamada para a primeira entrevista do meu actual trabalho e, mais tarde, para a segunda entrevista.

Então, eu acho que se não tiverem uma pressão muito grande para ganharem dinheiro e se conseguirem trabalhar abstraíndo-se da relação intensa que se cria com a familia de acolhimento, aupair pode ser uma boa opção. O contacto com a cultura e a língua é total. A mim ajudou-me muito a estar mais confiante na hora de falar inglês, assim como na curiosidade que tinha sobre muitos tópicos da cultura irlandesa.  Contudo, sofri com a falta de tempo para coçar o nariz. Cuidar de dois bebés é um compromisso de 24 horas. A privacidade só existe quando há uma porta fechada. Eu só estava “livre” à noite, no meu quarto de revista e mesmo assim não era uma liberdade total. Depois, há alturas em que vemos que as crianças estão a ser mal habituadas mas não somos quem para o dizer aos pais. No meu caso, a mãe não queria ouvir os bebés a chorar. A única forma de o evitar era estando constantemente a entretê-los ou a pegar-lhes ao colo, num ciclo vicioso. Um dos gémeos era muito gordinho, robusto e adorava-me, portanto acabava sempre no meu colo e eu acabei com as costas feitas num oito. Por fim, embora a família fosse extremamente amável comigo, eu era a babysitter e imigrante. Nunca senti por parte deles qualquer hostilidade em relação a isso, mas algumas vezes vinham a casa amigos que me tratavam educadamente como a empregada. Creio que ao facto de serem preconceituosos, juntava-se o factor classe social, porque estamos a falar de pessoas de classe alta (tudo fachada, porque a mãe era muito cínica e assim que eles iam embora contava-me todos os podres e a maioria andava com os tostões mais contados que eu).

Depois, por fim, encontrei um trabalho. Meus caros, tudo nesta vida é experiência adquirida e sumada. Não desistam de ser livres nos vossos sonhos. E sonhem um sonho, detrás do outro.

"Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer..." Pedra Filosofal, Manuel Freire

cama com colchão aquecido

banhos de luxo
TO BE CONTINUED...

domingo, 30 de novembro de 2014

Feijoada brasileira num Irish Pub

Na Estauce Street, no coração do Temple Bar, há um típico irish pub que esconde um “segredo” no seu interior. Entramos e imediatamente apertamos os olhos na expectativas de que se acostumem à tipica penumbra que caracteriza os pub irlandeses. As paredes estão forradas com velhos flyers de bandas rock n´roll old school. Logo à entrada há um enorme dos Guns n´Roses, por debaixo de um espelho posto gentilmente para que as senhoras se possam admirar e repintar os lábios (digo eu que é com esse propósito). À esquerda está um palco e logo depois um balcão enorme com cadeiras de pele dispostas a toda à volta. Por detrás um barman, um jovem roqueiro com barbas à zztop. À altura da cabeça dele há uma corda onde estão pendurados uma centena de soutiens que as clientes gentilmente cedem para a decoração do espaço.

Aos fins-de-semana não se ouve rock neste típico irish pub, nem se tomam guiness e quase não se ouve falar inglês. As guitarradas são substituitas pelo forró, o duro inglês pelo doce sotaque do português do Brasil e as Guiness por um prato de feijoada com farófia com sabor a comida de mãe. Um dos segredos mais bem guardados de Dublin é, afinal, conhecido por todo o mundo, sobretudo pela comunidade brasileira. Ao fundo do pub há um cantinho dedicado a um buffet de feijoada brasileira. Custa 6 euros o prato servido pelo próprio consumidor ou 8 euros com direito a repetir até rebentar. A bebida não está incluída e pode ser pedida ao simpático barbudo de sotaque impenetrável, mas tudo aquilo a que os admiradores da feijoada brasileira têm direito está lá: feijão preto, feijão manteiga, carnes, arroz no ponto, farófia, legumes, salada e pão.

Segundo as minhas “investigações”, a pessoa responsável por este sucesso, um brasileiro radicado em Dublin, há alguns anos decidiu começar a cozinhar  a feijoada aos fins-de-semana no seu apartamento e a convidar os amigos e os amigos dos amigos. O preço era simbólico e a qualidade boa e rápidamente o passa a palavra começou a atrair mais amigos de amigos de amigos. Uma colega de trabalho brasileira a quem comentei o caso contou-me que ela chegou a ir a casa desse tal patricio, sem o conhecer de lado nenhum. Havia uma fila grande nas escadas do prédio onde ele vivia e a feijoada era comida no colo, nos sofás ou nas cadeiras da sala de estar entre molduras com fotos de família e almofadas decorativas. Depois a coisa foi crescendo até chegar ao The Mezz, no centro de Dublin.

Recomendo vivamente pela qualidade e porque é muito mais barato que a maioria dos restaurantes dublinenses, muitos com um menú bastante mais pobre.

Na mesma rua aos fins-de-semana há também um mercado de comidas do mundo e uma loja vintage que eu adoro e que tem os vestidos de festa mais incrivéis.

a feijoada

o palco ao fundo com música ao vivo

o balcão e os soutiens 



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Outra forma de maus-tratos sobre as crianças


Li no blog da famosa Pipoca a história do Miguel, um pai que está impedido de ver o filho, porque a mãe da criança entendeu que deveria ser assim.
Todas as histórias têm duas ou mais versões, segundo o número de intervenientes. Talvez o Miguel não seja tão inocente como à primeira vista deixa transparecer, no entanto, a menos que seja um potencial perigo para o filho, não existe nenhum motivo aparentemente plausível que justifique o comportamento da mãe. Aparentemente este pai é um “gajo normal”. De qualquer forma, mesmo que este pai não seja tão “normal” como aparenta, o filho de sete anos é que sofre o efeito borboleta da relação entre os pais desavindos. E este comportamento entre casais divorciados repete-se demasiadas vezes. Ora por uns motivos, ora por outros, a criança é que paga as favas. Segundo especialistas, a infância é a fase mais importante na formação do carácter, assim como é a fase onde se fomentam os pilares que vai ter quando se tornar adulta. Nem é preciso ser assim tão especialista para perceber que é tal e qual. A cabeça das crianças é uma esponjinha que absorve o que lhe vamos dando. Então porquê é que lhes damos coisas más?

Aos trinta e um anos já passei pela fase dos casamentos, i.e, dos amigos que se casaram ao dois e três durante meia dúzia de verões. Depois veio a fase do babyboom e por aí ainda andamos. Infelizmente, já tenho também alguns amigos que passaram a uma das fases seguintes, que obviamente não é uma fase de passagem obrigatória, o divórcio.
Bom, este caso do Miguel chamou-me muito a atenção por uma situação que vivi há cerca dum ano. Um amigo de infância com quem falava frequentemente por telefone, durante meses foi-me contando o dia-a-dia numa família à beira da separação, a dele. Nalgum momento ele sentiu que já não estava a conseguir conectar com a esposa. Segundo ele, tentou falar com ela várias vezes sobre a forma como se sentia. Parece que as coisas continuavam sem funcionar e ele percebeu que já não gostava dela, a filha que ambos têm era pequena mas já começava a perceber muitas coisas, ele não queria que ela crescesse num lar sem amor e decidiu pedir o divórcio. Para ele a família é o mais importante, portanto foi uma decisão dificil.
A esposa recusou-se a aceitar, embora pouco ou nada fizesse para conquistar o amor dele (nestas situações in extremis muitas mulheres recorrem ao golpe da barriga...foi mais ou menos o que poderia ter acontecido). O ambiente foi ficando cada vez mais dificil e o final era quase previsível. Não vou entrar em detalhes mas as coisas não acabaram bem entre ambos. Por fim, estava cada um para seu lado, em casas separadas, cada um com o seu sofrimento. Não a conheço e não sei qual é a versão dela. Com certeza tem uma e sei também que o meu amigo não é um santo. Mesmo assim, ao longo do ultimo ano, de todas as vezes que falei com ele e perguntei pela filha a resposta era sempre idêntica. Penso que vocês já sabem qual é.  A ex-mulher não só não assinava os papéis do divórcio, como também não o deixava ver a filha. Ou deixava muito raramente mas na presença de terceiros, ou deixava falar ao telefone umas vezes sim, outras vezes não, ou fazia ameaças etc...
Há dois meses que não tenho notícias. Nessa altura o meu amigo estava contente porque podia falar com a filha ao telefone todos os dias. Durante todo este tempo não houve uma ordem do tribunal que o impedisse de estar com a filha, mas ele não quis forçar a situação para que tudo não ficasse pior. Na minha opinião, o pior que poderia acontecer numa situação destas seria que eles se reconciliassem como casal. Por muito boa vontade que tenham, dúvido que seja possível perdoar algo assim. Mas a verdade é que estou sempre à espera que ele me escreva a contar que as coisas se “recompuseram”. Sinceramente, oxalá que não. Nem eles se merecem um ao outro, nem nenhuma criança merece ser tratada como bola de ping-pong ou arma de arremesso entre dois adultos que padecem dos mais variados problemas, tais como auto-estima. 

Sei o que é levar com os pés e sei que doi muito e abala de todo o amor própio, sobretudo quando ainda gostamos e queremos mais. Não sei o que é ser mãe, ter à minha responsabilidade uma criança e achar que tenho o  poder de decidir se está ou não com o pai. Sei o que é crescer numa familia com pais divorciados. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha cerca de quatro anos. Nunca os vi juntos. Ouvi-os queixaram-se um do outro algumas vezes (e com razão). Senti o sofrimento do meu pai por não poder ter a custódia partilhada. Naqueles tempos os juízes davam a custódia total às mães e o meu pai vivia no estrangeiro, portanto nem sequer se punha essa questão. Nunca a minha mãe nos impediu de passar as férias com o meu pai. Ele só precisava avisar quando chegava e lá estávamos nós, de vestido bonito à espera dele. Não ouvi gritos, nem vi empurrões entre os meus pais (talvez os houvesse mas eu não me lembro). Naõ foi sempre tudo pacifico. Na esponjinha duma criança com pais divorciados há sempre “purpurinas” e perlimpimpins familiares que nunca chegam a ser absorvidos. Falta alguma magia, muitas vezes responsável pelos tropeções que damos em adultos. Parece que procuramos sempre alguma coisa, alguma emoção que perdemos algures e que jamais vamos encontrar, porque só se é criança uma vez. É a derradeira oportunidade para aqueles que nos fizeram, nos criaram e nos amam, fazerem de nós gente boa, sólida e segura, independentemente da confusão que possa ser a vida dum casal em conflito.


Não sei porque vim com este tema aqui para o blog. Não sei se o meu amigo me lê. Se lê talvez fique chateado por contar a história dele. Não me importa. Só desejo que o Miguel e o meu amigo se possam reunir com os filhos que amam e que os deixem ser pais dessas duas crianças. Que a vida não lhes poupe mais a magia da purpurina. Eles e todos os outros, pais e filhos, que se encontrem na mesma situação...


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Spotify

OMG! Existe uma "coisa" chamada Spotify e eu não sabia...
Trata-se duma aplicação para ouvir música. A música pode ser ouvida gratuitamente, mas nesse caso só em áreas com wi-fi e temos de levar com publicidade de cinco em cinco faixas, ou mediante pagamento podemos adquirir o Premium e nesse caso a música fica gravada no dispositivo e sem publicidade pelo meio.
Eu ainda não decidi se vou pagar ou não a mensalidade. Por enquanto oiço a música em modo "Aleatório", ou seja, aquilo que o Spotify bem entender. Não posso escolher eu a faixa que me apetece ouvir. Mesmo assim estou a adorar e já conheci uma série de novos artistas.
Deixo-vos a minha playlist do momento:

- The Black Mamba;
- Suzanna Owiyo (aiii gosto tanto);
- Os Tubarões (este Ildo Lobo acaba com o meu coração);
- Kalevala (da Macedónia);
- Joe (R&B)

fonte:facebook.com

domingo, 23 de novembro de 2014

Papa Francisco

Ay Dios que estoy viciada en él. 
Ojalá no sea sólo más de lo mismo, pero hasta a una no creyente es capaz de dejarle con los pelos de punta. 

Es que le quiero con locura a este viejo boludo. Escuchad lo que dice:



"Las instituiciones son para salir, sino salen la Iglesia se convierte en una ONG"

"Esta civilización mundial se pasó de rosca"

"Espero lío"

sábado, 22 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Festa do cinema espanhol volta a Lisboa


Sou descaradamente uma entusiasta de Espanha. Embora seja de todo contra esse sonho esquiziofrénico chamado União Ibérica, acho fantástico cada passinho dado no sentido das duas culturas tão pluripintas, mas ao mesmo tempo tão gémeas entre si, se aproximarem. É tão bom quando Portugal e Espanha se deixam seduzir entre si sem preconceitos e sobranceirismo ou sentimos de inferioridade.

Foi há cinco anos quando assisti à primeira mostra de cinema espanhol, no Cinema São Jorge. Naquele ano “Ay Carmela” e “14 Kilómetros” ficaram gravados na minha retina, creio que para sempre.
Estava a pouco mais de dois meses de partir para Espanha e, nas horas vagas, dedicava-me a ser autodidata e a aprender espanhol por minha conta, com a preciosa ajuda do Sabina e do Fito. Vivia no Largo de São Carlos e partilhava casa com a Denise, a Sónia, a Lisa, o Mimi e um rato não convidado. A Bea tinha partido depois do DocLisboa dedicado aos nossos amados Balcãs. Quando perguntava aos meus amigos espanhóis referências cinematográficas de cinema espanhol todos me diziam que me deixasse disso, que o cinema espanhol era só mamas, cús e drogados, em suma, nada digno de memória.
Não foi exactamente o que senti naquela noite lisboeta de Outono quando me dirigi à minha casa no Chiado abalada pela perfomance da Carmen Maura e uma abordagem tão directa à Guerra Civil Espanhola. Nessa noite acenderam-se vários interruptores na minha alma que até hoje, felizmente, continuam acesos, tais como a minha paixão legionária pelo cinema espanhol.
Mais tarde, já em Madrid e com o cartão da biblioteca municipal, requisitei dezenas de filmes. Escolhia ao calhas e, como os espanhóis, não consomem cinema nacional, normalmente tinha todos os filmes disponivéis para mim. Alguns foram autênticas banhadas, outros fomentaram a minha fidelidade. Arrisquei-me fora de Espanha, experimentei o cinema hispânico e tropeçei no Ricardo Darín: “El secreto de tus ojos”, “El baile de la Victória”, “Kamchatka” e “El hijo de la novia”, este último aborda o Alzheimer e, por razões muito pessoais, fez-me chorar o tempo todo. Mas há tantas referências e tão bons actores. “Lunes al Sol”, com o Bardem e o Luis Tosar. “Los santos inocentes” e “Las verdes praderas”, com Alfredo Landa etc...

O cinema espanhol está de volta a Lisboa. Este ano não vou estar lá mas deixo-vos aqui o link do anúncio, porque o site ainda não está disponível. Vai decorrer entre os dias 5 e 9 de Dezembro, em Lisboa e no Porto, e este ano há muitos mais filmes que nos certames anteriores.
Felizmente, nesse fim-de-semana, vou receber em Dublín a visita dum amigo lisboeta, também ele entusiasta da cultura espanhola. Somos tão cromos que muitas vezes falamos em espanhol e, portanto não dúvido que faremos uma homenagem à nossa maneira a esse mundo que tanto nos apraz.



"3 bodas de más": vi este filme no festival do ano passado e posso afirmar que a história dessa muchacha podia muito bem ser a minha...muito resumidamente, ela tem muitos namorados, todas as relações acabam e ela vai-se tornando amiga e confidente de todos. Vai sendo convidada para ir aos casamentos deles e parece que a felicidade insiste em não lhe bater à porta, até que...



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Dress Code

Uma das cláusulas do meu contrato diz respeito ao dress code. Supostamente a aparência deve ser cuidada e formal e, nas alíneas, referem-se expressamente ao tipo de roupa que devemos utilizar. Também por essa cláusula, antes de começar a trabalhar, eu, a rapariga informal, fui a correr a Lisboa buscar alguns blazers e comprar coisas novas. Contudo, acho incrível o conceito de formalidade e elegância de alguns colegas. Vi mamanas moçambicanas com a capulana amarrada bastante mais formais e bem parecidas quando comparadas com aquilo que vejo diáriamente lá no escritório. E olhem que eu estou logo à entrada duma sala onde trabalham mais de cinquenta pessoas, por isso vejo muita coisa...