segunda-feira, 14 de julho de 2014

A casa dos trinta

fonte:google.br
Creio que aqueles que já passaram a barreira dos trinta conhecem bem essa sensação de engolir em seco e ver, pela primeira vez, que afinal é mesmo verdade que essa idade existe e que há qualquer coisa que muda dentro de nós. Não é uma mudança necessáriamente para pior. Aliás, devo referir que me sinto muito mais jovem e com energia numa série de aspectos da minha vida, desde que entrei nos intas. Sem dúvida, a maior vitória é mesmo a confiança que ganhei, a certeza de que nada é eterno e o domínio sobre as situações que me fazem sentir desconfortáveis ou que não quero de todo viver. Agora é mais fácil escolher o caminho porque já sei (quase) exactamente aquilo que não quero, logo chegar ao que quero é uma questão de paciência, disciplina e preserverança.

Mas sem dúvida que se dá um click interior. No meu caso, senti o caminho estreitar, não de forma definitiva mas numa espécie de chamada de atenção para tomar decisões que podem afectar o meu futuro, nomeadamente em termos profissionais. A estas alturas, aqueles que não estabelecemos como prioridade absoluta o êxito profissional, já chegámos à decepcionante conclusão que a esmagadora maioria das pessoas não trabalha naquilo que gosta. Que esse é um privilégio que assiste só a meia dúzia de privilegiados. Não que a esmagadora maioria não seja merecedora duma vida profissional prazerosa. Já conheci pessoas extremamente profissionais e dedicadas às suas funções. Mas porque ao fim e ao cabo é dificil saber o que é que afinal queremos ser quando formos grandes. E essa dúvida persiste mesmo quando já somos grandes. E quando sabemos, temos ainda de nos deparar com o factor C que domina uma boa parte dos postos de trabalhos interessantes.

Bom, mas este aspecto é um tema transversal aos trintas e, de uma forma ou outra, há sempre a possibilidade de mudar o curso da nossa vida profissional. Dependendo do carácter de cada, das possibilidades financeiras, da criatividade e das circunstâncias que vão surgindo ao longo da vida e que nos fazem repensar e actuar, eu acredito que é possível nos oitenta anos de vida expectáveis para a minha geração, que um executivo se torne, mais tarde, num carpinteiro, ou que uma mãe de família se torne numa pequena empresária de sucesso. Acredito que como nos videos jogos, a vida profissional tem vários créditos. É possível ressuscitar um morto no que toca à ambição profissional.

Já na vida amorosa, não estou tão segura que existem tantos créditos para consumir, sobretudo depois dos trinta. Talvez seja uma visão péssimista, mesmo para quem está habituada a ver o copo meio cheio. Para mim, a verdade é esta e é crua e dói. Dói muito.

São vários os factores que fazem com que cheguemos aos trinta solteiras e são raras as mulheres que se sentem plenas nessa posição de solteira inveterada. Podemos até apertar os dentes e encher a barriga de orgulho para dizermos que estamos solteiras por opção, mas a verdade é que bem lá no fundinho, já todas sonhamos com o dia em que finalmente alguém nos vai ajudar a carregar a porcaria dos sacos do supermercado e nos vai servir um copo de vinho antes do jantar, sem termos de andar à porrada com o saca-rolhas.
Não significa que sejamos todas umas solteironas, rejeitadas. Aliás, a prova disso é que cada vez mais as mulheres nos cuidamos e, já começa a ser dificil encontrar uma trintona que não seja gira, ou que pelo menos tente ser. Que não seja independente. Creio mesmo que a maioria das trintonas que ainda vivem em casa dos pais, o fazem para poupar dinheiro ou ter o dinheiro disponível para algo que as enriquece. Ao contrário dos homens trintões que vivem em casa dos pais, porque simplesmente lhes dá mais jeito que seja assim, e porque nunca tiveram o par de tomates para sair de casa.

Como dizia são vários os caminhos que nos levam a chegar aos trintas solteiras. Eu diria, sem qualquer base cientifica, que há dois motivos. O primeiro, a opção livre. Estudamos até aos vinte e quatro, vinte e cinco (recordem que somos pré-Bolonha) e depois demoramos algum tempo a encontrar o nosso cantinho no mercado de trabalho. Pelo meio vamos tendo namorados, mas nenhum que nos faça perder a cabeça. Segundo, porque estudámos, trabalhámos e encontrámos essa tal pessoa com quem um dia desejámos fazer conchinha, mas por algum motivo, perdêmo-la pelo caminho. (Eu encaixo-me em ambos perfis).



Os solteiros

Chegadas aos trinta, aquelas que gostamos de estar com homens da nossa idade e/ou geração encontramos três tipos de homens e, aviso já que a minha opinião muito resumida é “venha o diabo e escolha”.
Primeiro aqueles, que tal como nós, se mantém solteirões intactos, i.e, tiveram relações, algumas até duradouras e sérias, mas nunca assinaram papéis de qualquer ordem com uma mulher, bem seja de matrimónio, bem seja da conta do gás, água, luz.  E o que dizer destes homens? Na minha opinião, são o osso mais duro de roer porque não amadureceram numa série de questões e, sobretudo, não aprenderam a partilhar. E se aos vinte e tantos ainda torcem um bocadinho, a estas alturas já têm muito claro “antes quebrar que torcer”. Surpreendem-se que as muitas solteiras de trinta e tal anos queiram casar e ter filhos e falem abertamente disso, sem andar ali às voltas. Parece que lhes provocamos “muita pressão” (otários, vocês não sabem o que é viver numa borbulha chamada “Idade fértil”. Isso sim é uma verdadeira pressão).
Embora pela presente fique bem expressa a minha opinião, quero deixar claro que acredito que existam excepções. Que há homens de trinta e tal anos solteiros que merecem a pena e que tal como algumas de nós (como eu) tiveram um soluço forte, uma má aposta, um curva inesperada que lhes mudou inesperadamente o rumo da vida. Mas, já agora, onde é que estão esses? Alguém me pode deixar um para amostra de estudo?
  
Os casados

Depois existem os outros que são os casados ou divorciados, que hoje em dia são quase a mesma coisa, porque por um lado já ninguém casa, por outro a vida está dificil para descasar aquilo que há, mesmo que seja nada.
Lamento se vou ferir susceptibilidades, mas é neste nicho que eu gostaria de dizer que estão boa parte dos exemplares masculinos que valeria a pena explorar caso não estivessem na situação em que estão.
Depois de terem vivido uma vida conjugal cheia de dias bons e maus, cheia de sorrisos matinais e de remelas nos olhos, cheia de essa sensação de chegar a casa, abrir a porta e encontrar um ambiente familiar e roupa suja esquecida no chão da casa-de-banho, uma boa parte dos homens que já partilhou a vida com uma mulher, escolhida e amada por eles mesmo que numa época remota, já estão ligeiramente pulidos e, portanto são máis agradáveis no trato diário.  Estes homens já chegaram naturalmente à conclusão que as mulheres somos ora bichos do mato, ora puro mel e que uma coisa não implica a outra, portanto não se coíbem de comprar um ramo de flores ou preparar o jantar quando os ânimos assim o exigem. Que bom seria se não fossem casados!
Cuidado, muito cuidado, porque para estes homens, nós as mulheres de trinta e tal solteiras, somos uma perdição porque ainda somos jovens, mas já somos estáveis e suficientemente independentes. E mais cedo ou mais tarde todas vocês vão ter um atrás, a dar em cima. E todos nos vão dizer coisas que sabem bem ouvir, porque eles já aprenderam a dizer coisas bonitas e pulidas. E não é que não gostem de nós, tal e qual nos querem fazer acreditar, porque até gostam. Mas do que eles estão mesmo fartos é da rotina. Nós somos o raio de sol que eles perderam no dia imediato ao regresso da lua-de-mel em Punta Cana. Na grande maioria, em caso de aperto, não dúvidem que a escolha não vai recair sobre nós. Sobretudo se já há filhos a equação que eles fazem é muito simples: entre a rotina e uma só conta de débito para despesas e uma segunda oportunidade mas duas contas de débito para despesas...tirem as vossas conclusões. Vão dizer que somos o que eles andam à procura, que tudo faz sentido desde que nos conhecem, que a relação conjugal que têm não tem pés, nem cabeça. É mentira, mesmo que eles achem que é verdade. Mais tarde ou mais cedo, a esposa vai aparecer grávida ou linda e sorridente numa foto de familia tirada recentemente. Além disso, não podemos contar com eles para nada. Pensem que em caso de tristeza ou extrema alegria nem sequer lhes podemos telefonar porque nunca se sabe se o momento é “inconveniente”....
  
Os divorciados

Por último, estão os divorciados e neste campo vou falar como me der na gana porque tenho experiência e porque alguns dos meus amigos já estão divorciados, portanto já tenho suficientes casos de estudo.
Não sei muito bem em que posição colocar os divorciados neste ranking de três, porque a oferta é tão variada que até cansa, mas básicamente vou dividi-los em dois: os que sim e os que não.

Os que sim:
Estão divorciados e isso até poderia ser um ponto a favor. Do ponto de vista estritamente prático, são homens livres. Do ponto de vista romântico, são homens que viveram e que, ao menos uma vez na vida tomaram uma decisão (casar-se e/ou divorciar-se, partindo do principio que foi livre arbitrio ou uma decisão a dois). Dependendo da experiência que tiveram, são homens maduros, que adquiriram esse tal espírito de convivência, que amaram mas que por algum motivo as coisas não funcionaram. Até aqui tudo seria perfeito e, pode eventualmente ser, se esse divorciado não vier cheio de pica para “recuperar o tempo perdido” e “descobrir se ainda sabe seduzir”. Ou ainda, se for um desses homens que não deixou de acreditar no amor, mas sim deixou de acreditar na vida a dois.  Para aquelas que queiram ter uma relação com um homem que não deixa a escova de dentes mas que é, acima de tudo, um cavalheiro este pode ser uma opção. Para as que queremos pipocas no sofá, esqueçam.

Os que não:
Infelizmente são a maioria. Ora porque ser divorciados não foi uma opção pessoal e agora acreditam que todas as mulheres somos enviadas especiais do Belzebu -normalmente estes passaram por um processo de infidelidade e põem a culpa na mulher (será que a culpa foi mesmo só da mulher?)- ou, realmente tiveram má sorte e isso nem sempre se pode evitar.  Ora porque embora sejam aparentemente divorciados, na realidade ainda não o são. E não o são porque ainda estão em vias de...ou porque embora sejam, a ex-mulher ainda está tão presente na vida deles como Deus todo poderoso e omnipresente na vida dos crentes. E neste caso as coisas só pioram quando há filhos pelo meio. Normalmente, neste perfil de divorciados, os filhos são mesmo utilizados como bolas de ping-pong. E as novas/os parceiras/os dos papás/mamãs são vistas como madrastas e bruxas malvadas que vêm competir com as mães/pais.
Já vi casos em que o casal já estava divorciado há anos, que a mulher até já tinha um novo parceiro, mas quando o homem decidiu assumir uma nova relação as coisas pioraram. Eu imagino sempre que se o meu namorado tivesse crianças de anteriores relações, eu iria tratar essas crianças como se fossem meus sobrinhos: com todo o amor e carinho mas tendo claro que eu não sou a mãe e que o meu papel limita-se a ser de mimos e muita conversa pedagógica. É dificil encontrar uma familia onde os novos parceiros são aceites como novos membros da famiília e não como alvos a abater o quanto antes, mesmo quando a relação do casal já era inexistente. Quase sempre, estas novas pessoas que surgem, podem ser um ponto de união e não de fracasso e um virar de página para um novo capítulo de amor e familia.

Por fim

Assim, caras solteiras na casa dos trinta não sei muito bem o que vos dizer. Aliás, creio que não é necessário dizer nada porque a esta altura a grande maioria já percebeu que não existem formulas perfeitas e infalíveis. Mesmo assim, achei pertinente abordar este assunto. Como me dizia uma amiga de trinta e um, um destes dias, a grande vantagem que as mulheres temos sobre os homens, é que nós falamos sobre estas questões e aprendemos umas das outras. Isso faz com que amadureçamos. Os homens, ao contrário, saem para tomar cervejas ou falar de futebol, mesmo que no fundo da sua alma, estejam tristes e a precisar dum conselho.

Todas já nos sentimos a triste Bridget Jones naquela cena memorável do “all by myself” (ver aqui). Para as que sonhamos ter algo mais que uma one night stand, as coisas tornam-se ainda mais dificéis porque à nossa volta, aparentemente (e é mesmo só aparentemente) os amigos já têm as suas vidas orientadas. E não é que sejamos invejosas, porque não somos e estamos felizes por eles, mas inconscientemente perguntamos “quando vai chegar a minha vez, BOLAS? “.


Está claro que estou um bocado muito descrente nas relações e nos homens. Dói-me o coração e não estou muito disposta a que mo espatifem outra vez e me voltem a romper as ilusões. Mesmo assim, gostava de vos dizer que continuo o achar o AMOR o sentimento mais magnífico que alguém pode ser sentir por outra pessoa. E quando é mútuo é mesmo verdade que move montanhas e muda tudo, tudo, tudo...aiiiii e é tão bom e viciante que até chateia (suspiros).

sexta-feira, 11 de julho de 2014

As portas irlandesas

Detalhe de portas em Galway
Cartão de visita da Dublin, as portas coloridas não são um exclusivo da capital irlandesa. Também noutras cidades, vilas e aldeias, as portas dos irlandeses são coloridas e, geralmente, de madeira, de estilo georgiano.

Existem várias motivos e lendas urbanas que justificam esse facto. Eu andei a investigar na internet e, embora tenha encontrado algumas justificações bastante plausíveis, decidi quebrar o gelo e perguntar directamente a quem melhor me saberia responder: os irlandeses.

Infelizmente, a resposta não foi tão romântica como eu esperava. Primeiro pareciam estranhar o facto da Irlanda, sobretudo Dublin, ser conhecida pelas portas coloridas. Depois disseram-me que não era por motivo nenhum em especial. A escolha da cor das portas tinha a ver com o gosto pessoal do dono da casa.

Não satisfeita, continuei à procura de mais explicações e, consegui que as memórias ou conhecimento, fossem rebuscar informações mais elaboradas. Soube que as portas são coloridas porque as pessoas as pintavam segundo o Condado (distrito) do qual eram provenientes. Por exemplo, portas verdes para as pessoas de Cork. Assim, a tradição foi-se mantendo até aos nossos dias. Embora, a maioria da gente desconheça esse motivo, há uma espécie de lei municipal que impede os donos das casas de mudarem a cor das portas.

Mas, será  só esse o motivo?

Um amor muito real

Bom, vou então repetir as lendas urbanas que vi repetidas em enúmeras páginas da internet. Parecem-me bastante mais interessante e, segundo as minhas pesquisas, são essas lendas e teorias misturadas com factos históricos mas sem fundamento cientifico, que são apresentadas aos turistas nas visitas guiadas em Dublin.

Diz-se, pois, que a apaixonada Rainha Victória ficou devastada com a morte do seu Principe Albert, em 1861. Até aqui tudo coincide com a História. Aliás, o amor da Rainha Victoria pelo seu primo e marido Alberto é bem conhecida e costuma fazer parte dos livros que relatam as mais belas histórias de amor. O imponente Albert Memorial, em Londres deixa patente a devoção que a essa mulher tinha por esse hmem. E foi essa devoção e amor que a internaram num luto tão profundo que a afastou da vida pública e fez com que na época a monarquia perde-se bastante popularidade e os republicanos ganhassem terreno.

Voltando às portas irlandesas, na época da morte do Rei Alberto, a Irlanda estava anexada ao Reino Unido. Ora, isso era algo que desagradava muito aos irlandeses. Assim, quando a Rainha Victoria mandou que todas as portas fossem pintadas de negro como sinal de luto e respeito pela morte do seu amado, os irlandeses como protesto, fizeram exactamente o contrário e pintaram as portas o mais colorido que lhes foi possível para a época (reparem que então ainda não existia o rosa fuschia, o verde petróleo nem o azul klein).

Na minha cama com ela

Mas a minha teoria preferida tem a ver com esse costume tão irlandês de beber até cair para  lado.

Parece que muitos vizinhos, ao regressarem bêbedos, não conseguiam distinguir qual a sua casa e, por isso, repetidas vezes, se metiam na casa do vizinho. Conta a lenda que essa confusão de portas iguais e mulher-do-vizinho- com-direito-a-bastardos acabou numa recambolesca noite em que um irlandês, ao chegar a casa bêbedo, encontrou a mulher na cama com outro e os matou ali mesmo. O sanguináreo crime foi fruto da confusão das portas monocolor, porque em realidade, a mulher do bêbado –e agora- assassino dormia plácidamente numa casa ao lado, servida por uma porta normal e corrente, igualzinha à dos vizinhos assassinados.

Assim, as mulheres irlandesas, acostumadas ao assédio dos vizinhos que lhes irrompiam em casa a meio da noite e assustadas com esse terrível facto, decidiram pintar as portas de cores diferentes, para que os seus maridos bêbedos não se confundissem na hora de entrar em casa e não se pusessem para ali a esquartejar gente.

Como sempre as mulheres são a pedra e a cal das grandes decisões que se tomam neste mundo. Agora, a minha pergunta imediata ao ler esta última teoria lendária que justifica a palete de cores das portas irlandesas, foi “ Mães de Bragança, porque é que vocês não pensaram numa coisa assim, em vez de irem chorar a dignidade dos vossos pacatos maridos para as páginas da Time?”

Capa da Time, Outubro de 2003



segunda-feira, 7 de julho de 2014

Midleton

Cheguei ao aeroporto de Cork, num voo de 2h30 directo desde Lisboa, com a companhia Aer Lingus. À minha espera estava uma peruana de pura fibra que eu já não via há dois anos. Não faz mal porque quando os laços são de qualidade, o tempo não passa, só amadurece.
Instalei-me numa pequena e simpática cidade chamada Midleton, a 20 Km de Cork, conhecida por ter a destilaria do whisky irlandês Jameson “Jameson Experience”.
Midleton tem uma rua principal decorada com casinhas de 2 andares como muito, cada uma de uma cor diferente e cheia de pequenas lojas de comércio local. Há também uma estação de comboios, um Hotel, uma esquadra, dois rios e, como sempre, campos e mais campos de verde. O ar cheira a flores, estrume e fritos. E pouco mais tem. Mas as pessoas fazem os lugares e Midleton já é especial por isso.

A estação de comboios e a boleia

Logo no primeiro dia, sem entender “un carajo” do que estas pessoas diziam, toda a gente foi extremamente amável comigo. Deram-me todas as indicações que solicitei. No segundo dia, sai de casa para batalhar por um trabalho. No Posto de Turismo, a funcionária foi tão simpática e acolhedora que eu quase achei que ela me ia oferecer o emprego dela, tal era a vontade que demonstrava em que eu encontrasse um trabalho
Depois fui andando pela cidade para tentar perceber, sem perguntar, onde ficava a estação de comboios. Encontrei-a e senti-me uma otária a olhar para a máquina dos bilhetes, não porque sejam máquinas com uma tecnologia demasiado avançada mas porque me “informavam” gentilmente que um bilhete de comboio ida/volta até Cork (4 paragens) custa a módica quantia de mais de 8€ (vão roubar pró ca*%&(»%). Vendo-me estática a olhar para a máquina, veio logo um grupo de senhoras em meu auxílio perguntar-me se eu precisava de ajuda (não my Ladies, preciso dum desfribilador que está-me a dar uma coisinha má...).
Depois, já que estava ali com tanta gente à minha volta, perguntei onde ficava o Midleton Park Hotel, porque tinha pensado ir lá entregar o meu CV. Uma mãe de família que estava a deixar o filho na estação ofereceu-se logo para me dar boleia. Eu ainda perguntei com um sinceramente humilde “De certeza?? É que eu posso ir a pé”, ao que ela respondeu “Absolutely dear”. Vi-me, pois na obrigação de me justificar e dizer-lhe “não se preocupe que eu sou uma pessoa de confiança”,  ao que ela respondeu mais uma vez “ahahaha ABSOLUTELY  my dear”. Poderia ter sido uma viagem bastante mais desconfortável porque assim que entrei na carinha monofamiliar e tive de levantar a perna para me sentar, as minhas calças de ganga cansadas de andar para trás e para a frente nas colinas de Lisboa, fizeram um sonoro “GGGGGGGGGGGGRRRRRRRRR” e fiquei assim com metade da bochecha do rabo de fora e ainda tive de ir deixar o meu CV na recepção do hotel nesses preparos (secalhar é por isso que ainda não me chamaram)...
Bom, voltando à mãe de familia, foi super simpática e deu-me as boas-vindas à cidade. No fim disse-me o nome dela- o qual eu não percebi- e combinámos que se nos voltássemos a cruzar na cidade dir-nos-iamos “Olá”. Neste ponto, eu fui extrememante sincera e expliquei-lhe que o normal seria que eu não a reconhecesse porque à primeira vista todos me parecem absolutely loiros ou ruivos, absolutely de olhos azuis e absolutely de sardas. E referi “Tal qual nós vos pareceremos todos morenos lá no Sul”. Resposta: “ahahaha ABSOLUTELY”.

O morto

Os meus passeios não cessam e às vezes até me aborreço porque como a cidade é plana e pequenina, em menos de meia-hora já dei a volta completa e isso nem dá para desmoer o jantar ou para me cansar.
Como já referi, as casas são todas baixinhas e repetem um costume que eu já tinha visto no Reino Unido e na Suécia: deixar as grandes janelas abertas de par em par e não poem vedação nos jardins privados. Assim, é muito fácil ver tudo o que se passa dentro das casas. Imagino que para eles, ao tratar-se de algo normal, nem sequer reparam no que se está a passar no interior da casa dos vizinhos. Ora, eu sinceramente não consigo ignorar. Preciso sinceramente, sinceramente, sinceramente de OLHAR. E dá-me igual que os meus olhos se deparem com um gordo de meia idade deitado no sofá, agarrado a um peluche e a olhar para a tv, EU PRECISO DE OLHAR (para estar informada).
Ontem depois de ir correr, ia como sempre muito entretida a olhar para dentro das enormes janelas, quando vi uma casa que tinha o interior na penumbra mas umas dez velas acesas. Achei que eram velas demais e abrandei o passo e voltei a olhar. Deparei-me então com um caixão aberto. Era alguém que estava a ser velado na sua própria casa.

Destilaria Jameson, principal atractivo turístico de Midleton

Detalhe de casa em Midleton

Bairro familiar em Midleton

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Irlanda

Não sei se vou encontrar o pote de moedas de ouro no fim do arco-iris, o qual a Irlanda reclama ser a única detentora. Não sei se os deuses Celtas, os magos e os duendes do bosque me vão proteger nesta minha nova empreitada. A única coisa que sei é que preciso mesmo dum bocadinho de sorte para não voltar a ter a tentação de perder o meu sorriso.

Escolhi a Irlanda porque desde a distância já me pareciam ser uma gente muito nobre, com uma herança cultural ímpar e com uma forte Identidade. Senão, vejam como é que um país consegue ser uma república e ter uma lingua própria, depois de séculos e paredes meias com o poderoso Reino Unido. Essa preserverança que eles tiveram para lutar contra o gigante britânico sempre me fez admirá-los. É preciso ter um grande par de tomates...
Além disso, os irlandeses (a par com os polácos) eram conhecidos como os “negros” da Europa, i.e, nas vagas de emigração para os EUA, eram contratados para os piores e mais mal pagos trabalhos. Eram recorrentemente escravizados à maneira moderna.
Depois, como é que é possível resistir a estas pessoas com o cabelos mais cor-de-laranja que as laranjas de Valência e os narizes todos pintalgados de sardas? Mesmo tratando-se de senhoras de 80 anos, não posso deixar de sentir carinho por elas, porque me recordam ou a Pipi das Meias Altas ou o Tom Sawyer.

À parte questões de ordem intelectual e do imaginário romântico, a Irlanda, apesar de ser um dos países que fez parte da ultima tournée do circo europeu chamada Troika, está em crescimento. As grandes empresas já estão sediadas aqui e muitas outras estão a chegar: Inditex, Microsoft, Apple etc...Tudo porque o governo tem uma política fiscal liberal(desleal) e as grandes empresas que vêm para cá têm uma taxa de impostos muito vantajosa. Também, os salários em trabalhos remunerados, são muito atractivos e, por ultimo, a Irlanda não sofreu um boom imobiliário tão forte como os países do Sul, portanto os preços de aluguer dos apartamentos, são preços justos e adaptados à realidade do país.

Estes são os três principais motivos que me fizeram escolher a Irlanda e não outro país qualquer. Foi uma ideia madurada durante muitos meses, uma decisão ponderada, uma aventura medida.
Cheguei à 4 dias e já meio mundo tem o meu CV. Ainda não tive qualquer feed-back mas, como sempre, vejo o copo meio cheio. Tenho a certeza que algo bom vai acontecer e, se tudo correr dentro do previsto, a Irlanda há-de ser a minha casa nos próximos anos porque me parece um sítio que me pode dar os pózinhos de perelimpim que eu preciso para pôr em prática um série de projectos pessoais. E o que é da vida sem sonhos e projectos?

Em troca, a Irlanda pode estar segura que acaba de chegar a pessoa mais curiosa de todas, capaz de convencer o mundo inteiro que este é o sítio mais incrivel do mundo, que dentro de alguns meses já vou espontâneamente dizer com sotaque daqui “é que NÓS os irlandeses...”.

Como dizia o melhor português que Portugal já pariu “a minha casa é onde eu deixo o meu chapéu...”

E se os deuses Celtas que me quiserem dar um empurrãozinho eu também vou gostar muito....

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Glups!...

 Gémeos

1 de Julho de 2014

8 de Espadas 

"Uma vida gasta cometendo erros não é mais honrada, mas é mais útil do que uma vida gasta fazendo nada." (George Bernard Shaw) E não é errando que se evolui e aprende? Chega de se esconder na sua concha! Só quem se consegue expôs e arriscar é que, eventualmente, consegue vencer. Parta à descoberta… viva!
In astral.sapo.pt

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Não te esqueças de quem és"

Vista nocturna desde as Portas do Sol (miradouro de St. Luzia)
Não me esqueço de quem sou mesmo que por vezes me distraía dessa e nessa certeza porque a vida não vem com livro de instruções - e se viesse seria mais fácil?

Embora tenha já muitas dúvidas de donde sou porque tenho muitas bandeiras hasteadas orgulhosamente no meu coração, é impossível esquecer o sítio donde venho. Porque o sítio donde venho ainda me provoca suspiros de paixão...porque o mundo pode estar cheio de lugares ainda mais belos e perfeitos mas nenhum é este sítio cheio de tropeções, tantos altos e baixos e lugares de calma para contemplar ou simplesmente partilhar a beleza do que a vista nos oferece, uma metáfora da própria vida.

Tive o enorme privilégio de crescer numa família que me deu a oportunidade de me deixar ver crescer as minhas próprias asas. Deixaram-me voar. E ainda estou nessa aprendizagem bela e tão dolorosa (não dúvido que hei-de estar até ao ultimo dia da minha vida).
Sei por experiência que práticamente todos os voos só podem ser feitos por nós próprios. Não há substitutos, nem aditivos. E a grande maioria dos voos são, infelizmente, seguidos de aterragens difícéis e dolorosas. 

É, pois, por ser consciente de tudo isso, que não posso evitar sentir que a minha cidade é  a mais bonita de todas, e que o seu encanto me faz doer nesta hora que é, uma vez mais de despedida. Não sei já quantas vezes me despedi de ti Lisboa...e tu sempre estás aqui com essa luz bela e esses traços tão teus que fazem de ti a mais amada por mim.

Assim, como não posso deixar de sentir um enamoramento e uma saudade (saudade, saudade, saudade, saudade) sem fim das pessoas que sempre me recebem de braços abertos de cada vez que volto. E que com o tempo aprenderam a respeitar os meus voos e perceberam que a minha vontade de voar não é sinónimo de arrogância ou sobranceirismo, mas sim de Liberdade. As mesmas pessoas que percebem através dos meus relatos que a Liberdade tem um preço e que exige a maior das responsabilidades ("...Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates..." Álvaro de Campos) 

Quanto mais vezes volto menos dúvidas tenho em relação às pessoas que levo aconchegadas no meu coração de cada vez que parto. São essas gentes que fazem com que este cantinho tenha um sabor especial para mim e é neles que penso quando a saudade aperta. Obrigada por terem estado aí, uma vez mais.

"...nostalgia dos caminhos e aromas, de praças quadradas de cal e campos rasos sem fim, ou simplesmente do relâmpago de um olhar..." Eugénio de Andrade


Manu e Marta estou à espera da nossa foto/ António depois de tantos anos ainda não temos nenhuma juntos.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Lo mejor es lo que viene

Eu estou melhor de tudo. Talvez seja do bom tempo que voltou em força. Há mais de 2 meses que durmo submersa no meu edredon mas com a janela aberta de par em par toda a noite. Deixo entrar o ar puro e fresco da Primavera enquanto durmo. Também o Sol me recompôs as energias. Não vou sentir saudades dos últimos meses. A minha cabeça e o meu coração deram tantas voltas que ainda me sinto tonta. É como se tivesse estado metida durante muito tempo na zona de rebentação das ondas. Tentava escapar à força dos acontecimentos mas não conseguia. Fui acumulando muitas coisas dentro de mim e um dia o meu fusível quase estoirou.Não posso dizer que tudo passou porque ainda me sinto no limbo mas sinto-me finalmente a caminhar nalguma direção e recuperei parte da minha criatividade. Já olho em frente. É mesmo verdade que tudo passa e tudo são créditos acumulados no amadurecimento. Agora que a nuvem negra já quer passar, olho para trás, e parece que é outra Sónia que viveu tantas coisas e que estava sempre a sonhar acordada com África. E Moçambique parece que já foi noutra vida.

Sinto-me outra vez na minha posição de lutadora pelos meus sonhos. Tenho vontade de perseguir com a determinação de sempre as coisas que eu acho que me completam ou para apostar em novos desafios.  Adoro Portugal. Lisboa é o sítio mais bonito do mundo. É uma cidade velha e suja mas é linda. No entanto, desde que voltei, que tenho vontade de ir embora. Tentei adaptar-me. Levei uma vida normal mas definitivamente este ainda não é o meu momento de “voltar a casa”. Por isso vou embora de Portugal.

Preciso de dinheiro para completar parte dos meus sonhos e em Portugal só vou empobrecer. Ou dou o salto agora ou vou passar outro Inverno sem fazer nada e a queixar-me das más condições de vida do país.  Quero voltar a estudar, fazer um Master ou uma especialização. Estou apaixonada por África.Preciso voltar lá, nem que seja de férias. Depois, até aos 30 a vida passa como se fossemos durar sempre mas agora, quando olho para o futuro, é estranho, mas já começo a pensar “como é que queres estar quando chegares ao 40?”. Ainda falta tanto tempo mas eu sei que quero fazer upgrades no meu bem estar.

Estou-me a recompôr e a voltar à luta. Sei que o caminho se faz para a frente e não penso voltar a parar tão depressa.


Azulejo na Rua da Vitória, Chiado

sábado, 14 de junho de 2014

Viva o Fernando Martins de Bulhões e os balões de São João

Quero dizer viva o Santo António, o santo padroeiro de Lisboa e, quase que arrisco a dizer, o português mais globalizado, embora a grande maioria dos que falam dele não saibam que ele é um português genuíno (seja lá o que for que isso significa). Nasceu em 1195  em Lisboa com a graça de Fernando Martins de Bulhões. Imagino que seria o típico beto do seu tempo porque teve acesso a uma educação de excelência e morreu em 1231 em Pádua, Itália, por isso é conhecido como Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua.
É igualmente conhecido por ser o santo casamenteiro por excelência, embora a minha colega da Venezuela me tenha dito recentemente que lá o Santo António é conhecido por trazer namorados que mal tratam as mulheres.

Bom, mas vamos ao cerne da questão que eu não vim para aqui falar de santos, que vocês sabem qual é a minha opinião sobre esses assuntos....O que eu quero é falar da alegria e folia do Santo António, em Lisboa.
Há anos que não tinha a oportunidade de desfrutar das festas da minha cidade e este ano estava claro que não podia faltar. Algumas semanas antes já as ruas estavam enfeitadas e prontas para receber os arraiais mas o que mais me surpreendeu foi a neblina de fumo e o maravilhoso cheiro a sardinhas assadas que cobria toda a cidade. Não me lembrava desse detalhe. 
Depois do trabalho juntei-me com uns colegas e fomos, depois de petiscar numa casa particular no coração de Alfama, para o bailarico no Largo da Graça. Por lá estivémos até quase às 5h da manhã. O clima, que tinha andado mal disposto, nessa noite estava ao rubro e a lua cheia enchia o céu. Impossível ficar em casa a dormir.
  
12/06/2014 no entardecer
No meu ponto de vista, o mais bonito destas festas lisboetas é o cariz tradicional inesperado por se tratar de uma capital. A verdade é que Lisboa nestes dias se transforma, ainda mais, numa aldeia pitoresca, mais pequena e tradicionalista que uma aldeia sem nome perdida no meio da serra. E é bom ver turistas misturados com os castiços dos bairros e as ruas cheias como em nenhum outro dia do ano.

 Há muitos, muitos anos eu também fiz parte das marchas populares. Fui a mascote das marchas de São Marcos e até hoje lembro as músicas e aquela confusão à volta das marchas, a ilusão com que os fatos e os arcos eram preparados.

Há muitos anos nas marchas de Santo António

domingo, 25 de maio de 2014

Dia de Mama Africa 2014

Um dos meus poetas favoritos escreve sobre um dos temas a minha vida: África

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Täk por tudo

"Dadnos un sueño luminoso que acompañe como una buena hermana, que
esté a nuestro lado en las tinieblas...
Dadnos un sueño de un sol que resplandezca en la lejania.....
Dadnos un sueño luminoso. Necesitamos un sueño. Luminoso."
Artur Lundkvist

Los detalles de mi amigo Jan

sábado, 10 de maio de 2014

Partida, lagarta, fugida

Este blog e esta história inspiram-me:

http://dietadasprincesas.blogspot.pt/search/label/catarinabeato

Não só porque a tipa tem exactamente 1,64m como eu, e porque durante demasiado tempo também vestiu um 44, mas porque, por mil e um motivos, sentiu que já era hora de mudar qualquer coisa e lutar pelo seu bem estar.

Assim estou eu. É uma luta diária e constante contra a inércia de anos e anos a encontrar desculpas para não mudar nada e adiar para a semana, mas devagarinho, com muito altos e baixos (mais baixos que altos) estou a conseguir sentir-me activa.

Nunca fui uma miuda magrinha e, sei também, que ser magra não encaixa na minha estrutura de mulher com relógio (expressão utilizada na Ucrânia para definir as mulheres que têm ancas largas) mas a verdade é que não tenho saudades desses dias com quase 80kg e uma tremenda dificuldade para me mexer, para me dobrar, para me motivar fosse para o que fosse. Para me olhar no espelho ou para comprar roupa, mesmo que fosse só um pijama.

Sei que a beleza interior não substituirá nunca a riqueza que levo dentro. Precisamente por ter tanta certeza disso é que cada vez mais quero apostar em estar bem, em sentir-me bem. Neste Inverno tão mau que passei, sair de casa às 20h e correr ao frio, foi uma terapia fantástica contra a minha dor. Ter um estilo de vida activo pode ser tendry mas também é atitude feliz.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Detalhes de Portugal

É um luxo  sair à rua e poder fazer desporto ao ar livre com esta paisagem por companhia. Há dias em que adoro o meu país!





sexta-feira, 25 de abril de 2014

50 de Abril JÁ!


Ontem à noite, quando alguém encontrava um conhecido no meio da multidão, a pergunta de ordem era "Em que rio é que vieste?", "Qual é o teu rio?".

Com o intuito de juntar as pessoas na rua, na noite em que se cumpriam 40 anos do primeiro dia do resto das nossas vidas, vários colectivos organizaram a iniciativa "Rios do Carmo".  A ideia tinha como base juntar vários grupos, com diferentes temáticas, como vários braços de um rio, que mais tarde, desaguariam no Largo do Carmo. O objectivo era comemorar em conjunto, em sociedade e comunidade a alegria da nossa revolução. Como já é apanágio nosso- portugueses- o objectivo foi conseguido de forma pacífica e, para mim, emocionante.

Folgo em saber que o 25 de Abril para muitos não é sinónimo de cheiro a naftalina. Aliás, há bastante gente mais jovem do que eu (que nasci quase uma década depois da revolução) que acudiu ao chamamento. Há outros que se fazem acompanhar de filhos pequenos, o que demonstra não só a vontade de transmitir os valores do 25 de Abril, como também a confiança de ir a uma manifestação sabendo à partida que será pacífica porque ninguém está disposto a levar um filho a uma revolução pensando que poderá haver violência. 

Embora a data seja um marco histórico é impossível romper o vínculo com a política. Ontem mais do que manifestações partidárias, os portugueses quiseram também mostrar que somos mais que meras vítimas dos nossos carrascos. Não somos só devedores. Temos ideias e estamos a ver o que nos estão a fazer. Fico particularmente feliz por ver a lucidez com que as pessoas olham para personagens (perigosos) como Paulo Portas. 

Deixo-vos aqui algumas fotos dos rios de gente que desaguaram no Carmo:







quinta-feira, 24 de abril de 2014

Madrid

Después de casi un año de ausencia me he ido por Madrid. 
Necesitaba estar con mi gente, con esos amigos que me han acogido en sus corazones y me han hecho sentir que yo soy irremediablemente de ahí.  De los libros se aprende mucho....y como...pero lo más bello y grande que he aprendido de mis buenos castellanos me lo han enseñado ellos mismos. Y cuando miro hacia atrás no dudo en decir que algunos de los mejores años de mi vida me los he pasado en España. Porque ahí me sentía parte de un todo, la pieza de un puzle que ya ni mismo soy capaz de sentirme en mi proprio país. Cuando llegó el momento tan deseado me marché añorándole pero mirando hacía el futuro con la más genuina ilusión de que estaba haciendo lo correcto y de que el futuro me traería algo mucho más dulce que el sabor que me había dejado mi querida España. No sabía yo que el trago sería más bien agridulce y que la vida siempre esta dando vueltas a todas cosas. Tantas vueltas que hay veces que nos mareamos.

Mi vida ha dado muchas vueltas desde la última vez que había ido por ahí. Lo aposté todo y lo perdí todo. Puedo decir que rocé las tinieblas, perdí la luz en la mirada. Me agarré a la más débil esperanza y casi la perdí porque hay veces en que uno sólo no puede con todo. Sé que sigo en la cuerda floja pero también estoy aprendiendo que no esta mal asumir que duele y que cuesta. Que el reconocimiento tarda o no llega nunca pero que el tiempo se encarga de poner todo en su sitio, tal y como debe de ser. 

Aproveché para limpiar el pasado y cerrar silenciosamente las puertas que se tenían que cerrar porque ya no tiene sentido que estén abiertas. Porque mantenerlas abiertas sería insistir en el dolor y en un tiempo que no volverá más. Pero joder, esos ojos grises y esas manos arrugadas que tantas tortillas me han preparado...esa voz de la sabiduría que me ha dicho que sabe que ya no me volverá a ver nunca más. Y es cierto...porque el tiempo se encarga de poner todo en su sitio, tal y como debe de ser. 

Madrid lo tenía ahí con toda su "algarviada" y esas tapas que me vuelven loca a cambio de una clara bien fresquita. Sol vomitando a toda esa gente que yo nunca he sabido decir de donde sale. Los manteros que me han vendido unas gafas de sol "Roybon" por tan solamente cinco eurillos. Los hermanos gemélos de Gran Via. La cumplicidad con mis amigos. Ah, y esas comidas que empiezan más bien casi a la hora que es para cenar en mi país. Un español siempre tiene algo más que decir en la cocina aunque insista en que nos vayamos todos al salón. Digo yo que los aperitivos tienen mejor sabor cuando son comidos ahí de pie, entre ollas y  la encimera llena de cucharras de palo grasientas de mover la comida.

Madrid me encanta y por eso no vacilé a la hora de hacer publicidad entre mis paisanos. Aquí lo tenéis publicado en Fugas. Pero que quede claro que para mí es mucho más que esos cinco puntos que describo. Hay algo muy íntimo y de desarrollo interior que me atraerá siempre a Madrid. Y es por eso que mi sexto sentido me dice que mi historia con Madrid no es cosa del pasado.

http://fugas.publico.pt/DicasDosLeitores/332417_as-5-coisas-de-que-eu-mais-gosto-em-madrid








sábado, 22 de março de 2014

Dia da Poesia

Sábanas y tiaras
Los pajaritos me han dicho esta mañana "Mira que guapa la princesa a tu lado" y yo les decía "sí, que lo he visto", y venía otro y me decía "pero te has fijado en la tiara que tiene con sus esmeraldas y sus diamantes?" y yo les dije que "sí ...pero vosotros se han fijado como duerme? pues se parece a una reina, vale mucho más que la tiara que lleva puesta en su cabeza...amiguitos, tenéis que hacerme un favor" les he dicho... "cada mañana le decís que es muy maja, además de guapa, le cantáis bellas canciones hasta que se vaya a trabajar y le decís que tiene más sensualidad en la muñeca que muchas mujeres en todo el cuerpo..."
Uno detrás del otro me han prometido hacerlo. Pues, cuando estén hablando, escúchales por favor...tienen algo para decirte de mi parte...

Feliz Dia da Poesia - NR

Obrigada por fazeres do meu Dia da Poesia um dia mais poético. Granito a granito como tus pajaritos, tu amistad y momentos así de ricos, volveré a ser fuerte y alegre como las mariquitas que han okupado mi habitación con vista al Tajo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Évora

“Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens.” Vergílio Ferreira, “Aparição”, 1959
 
Praça do Giraldo
fonte:google.pt
No início de Janeiro fui visitada por umas amigas castelhanas. Quando me perguntaram quais os sítios de visita obrigatória num percurso de quatro dias, não hesitei em sugerir Évora. Não foi ao acaso, claro está, porque sou filha, neta, bisneta, trisneta (e por ai fora) de alentejanos mas desenganem-se se acham que foi uma sugestão tendenciosa. Fiquem sabendo que quando os meus amigos de fora me pedem sugestões eu menciono sempre Lisboa, Sintra, Porto e Óbidos por esta ordem. No entanto, por mais terras e gentes que conheça por esse mundo fora, continuo a achar que não há cidade mais bonita que Lisboa e gente mais encantadora que os alentejanos. Acrescenta-se a admiração que sinto por eles como unidade. Se hoje posso escrever este texto em português é porque um dia os alentejanos (que ainda não o eram) lutaram contra a ocupação do inimigo, fosse mouro, fosse castelhano. E se hoje em dia se permite às pessoas agirem segundo as sua próprias convicções (e isto é discutível) é porque os alentejanos resistiram à ditadura salazarista através de uma malha de clandestinidade que foi responsável, em parte, pela chegada da Democracia a Portugal, em 1974.

À parte as razões histórico-sociais, existem, para mim, um sem fim de razões emocionais que me ligam ao Alentejo. E posso-vos garantir que o Alentejo tem um cheiro, um sabor, uma cor e um ritmo únicos. É a atmosfera das aldeias caíadas de branco, com uma igreja, uma Casa do Povo, um posto da guarda e um cemitério. Com velhinhas vestidas de negro que passeiam para cá e para lá com muita genica, que dormem a sesta pela “hora da calma” e que não são codrilheiras porque estão sempre sem vagar, sempre de abalada. Das casas com postigos com cortinas de renda feitas à mão que escondem segredos que só às próprias famílias dizem respeito mas que são do conhecimento de toda a aldeia e que, não raras vezes, dão origem às alcunhas e apelidos mais insólitos ( a minha família tem uma alcunha mas eu não vou contar qual é). De vizinhas que nas noites de Verão se sentam à porta a conversar, sentadas nos mouchos de produção caseira e que, quando passa um “forasteiro”, perguntam sem papas na língua “Então e vocemessê de quem é? quem é su mãe?”, enquanto os gaiatos brincam na coutada. O Alentejo do gaspacho e da açorda, pratos hoje em dia considerados de elite, mas que outrora  mataram a fome aos desgraçados que trabalhavam de sol a sol na ceifa, na apanha disto, daquilo e do outro. Do papo-seco, da gotinha de café e do acento doce e acolhedor que termina sempre na prolongação das vogais.

O passeio

Bom, posto isto, vou passar a relatar a minha ultima visita à bonita Évora 
A cidade existe desde a época romana mas foi no período árabe que ganhou maior relevância. Na Idade Média foi um importante centro artístico e cultural mas caíu em desgraça com a invasão dos Filipes.Hoje em dia é a capital do Alentejo e um dos mais importantes campus universitários do país. Em 1986 foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO.

Tendo como ponto de partida a Praça do Giraldo, dirigimo-nos ao Posto de Turismo e o funcionário avisou-nos que o passeio turístico demoraria, como muito, duas horas. Mas nem por isso, são duas horas aborrecidas, ou menos interessantes porque Évora tem muitos recantos com histórias, vistas bonitas e detalhes cheios de graça.
Logo ali no Giraldo, tomámos uma bica no café Arcada e seguimos pela televisão o luto nacional pelo Eusébio. Fomos abordadas por um local que tinha um parafuso a menos e que nos garantiu que logo aparecia para pormos a conversa em dia. Felizmente, não lhe voltámos a por a vista em cima!

Catedral

Seguimos pela Rua 5 de Outubro e fomos dar ao largo da Catedral. A Catedral é uma construção dos séculos XII e XIII em estilo gótico. Torna-se diferente porque se assemelha mais a uma fortaleza e não tem um desenho assimétrico. A entrada tem o valor de 1,5€ a 2€.
Depois virámos à esquerda e encontrámos quase imediatamente de frente o famoso templo, construído nos séculos II ou III e comumente denominado “Templo de Diana” embora não se saiba precisar exactamente a que divindade foi dedicado.
Mesmo ao lado do templo está o antigo Convento dos Loios, convertido em pousada e o Palácio dos Duques de Cadaval. A entrada no Palácio custa 5€ consoante se faça com ou sem visita ao Claustro. Nós não entramos. Embora seja compreensível que a conservação dos monumentos tenha gastos muito elevados e, pelo qual, devemos pagar algo, considero que esse algo deverá ser simbólico, sobretudo se se trata da visita a uma casa onde viveu uma família abastada, nobre e que alcançou esse mérito sabe-se lá como.

"Templo de Diana"

Desfrutámos das vistas do Miradouro e seguimos para a Antiga Universidade. Estava fechada, portanto não pude mostrar às minhas amigas o Claustro e as salas de aula tão antigas como bonitas.

Continuámos em direção ao Largo das Portas da Moura e caminhámos por ruas estreitinhas até chegarmos à Igreja de São Francisco, cujo principal atrativo é a Capela dos Ossos.
Esta capela foi construída no século XVII e tem uma aparência macabra já que está revestida de milhares de ossadas e dois esqueletos inteiros pendurados por umas correntes. No pórtico da entrada está escrita a enigmática frase “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e convida à reflexão sobre a morte e a efemeridade da vida, motivo pelo qual três monges a construíram.
 
Capela dos Ossos
Fonte: historiadeportugal.info
Depois andámos por ali a circular e esquecemo-nos de ir visitar o Aqueduto e o Miradouro do Alto de São Bento. Perguntámos aos eborenses o melhor sítio para comprar pupias ou costas (bolos secos típicos da região) mas ninguém nos soube indicar. Por isso, fomos a uma cadeia de supermercados e comprámo-los lá. Fiquei um pouco desiludida por verificar que já não existem senhoras que fabricam clandestinamente nas suas casas bolos e pão da região.

Certamente, mais sítios na cidade haveria para visitar e, não dúvido que Évora e os arredores, oferecem uma data de ofertas para passar fins-de-semana com encanto e desfrutar da calma que caracteriza o Alentejo.
  
Onde comer?

Contou-me uma amiga de apelido Passarinho (eu não vos disse que os alentejanos têm sempre nomes e alcunhas muito insólitos?), originária de Elvas e antiga estudante universitária em Évora, que no Restaurante “A Pipa” , na Rua Serpa Pinto, se come bem, assim como no “O Lavrador”, na Rua de Machede, e que “O Burladero”, perto das Portas de Avis, é óptimo para o petisco.
Contou-me ainda que as tascas “As Cozinhas de São Francisco”, perto da Capela dos Ossos, e a “Sicnic”, perto da Horta das Figueiras, são as melhores para comer caracóis. E para os mais gulosos há diversas pastelarias que fazem a diferença, inclusivé uma que está aberta à noite, a “Académica”.

Para finalizar, contou-me a minha amiga que a tasca “Manel dos Potes” é o melhor sítio para tomar um abafadinho (há uma no mercado em frente à Capela dos Ossos e outra entre o Giraldo e as Portas de Moura).

Sugestão:

Há muitos anos li a obra “Aparição”, Vergílio Ferreira. A ação desenrola-se em Évora e é, à parte de uma óptima escolha de leitura – embora um pouco intensa- uma óptima guia e convite para uma visita à cidade.


“Lavei-me enfim, mudei de roupa, saí para o Liceu, com uma tranquilidade nova. A cidade resplandescia  um sol familiar, branca, enredada de ruas como  de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados...É como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do Templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois as ruas descem apressadas, oblíquas, velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco.” Vergílio Ferreira, “Aparição”, edições Quetzal

Nós com a Maité detrás da câmara