terça-feira, 5 de maio de 2009

I´ve got to see you again SKOPJE

Nos últimos tempos

(Nós, no topo do Vodno, junto à cruz)




(o último pequeno-almoço no jardim da minha casa)



(nós descansámos enquanto outros...)




(Caminhavam para plantar árvores)





(e nós continuávamos a descansar)

Kalevala

Na última semana que estive na R.Macedónia fui à Vinoteka de Skopje duas vezes.
É um sítio fantástico. Uma espécie de Biblioteca do Vinho. A decoração é feita com grande troncos de madeira e as mesas são pipas de vinho. As paredes estão decoradas com armários cheios de vinhos, de todo o mundo, e teias de aranha naturais.
Se ordenarmos um café, o empregado, sem receio de estar a ser incoviniente diz prontamente “O quê?Vieste à Vinoteka para beberes café?”.
Todos os dias têm música ao vivo. Numa Quinta-Feira, a última, fui surpreendia pelos Kalevala, uma Banda Ethno. Deveriam estar entre as 7 maravilhas do mundo. São talentosos e percebem do Fado. Tocam-no como ninguém.Numa abordagem nova onde a guitarra portuguesa é subsituída por uma flauta, percussão e guitarra acústica. A voz da Jasna é digna dos Deuses. E é tão simpática. E tão bonita...E tem tanta vontade e tanta alma quando canta o Barco Negro ou a Lágrima.
Sinto tanto tê-los descoberto só no fim. Não poder acompanhá-los mais. Foi um tempo mágico aquele que passei a ouvir os Kalevala.
Eles têm um MySpace que ainda não está muito dinamizado porque é recente.
Se puderem vão passando por lá até eles disponibilizarem um repertório maior:

http://www.myspace.com/kalevalamusic







( Eu, Beatrice (garota brasileira) e Catherine na Vinoteka, a ouvir Kalevala)

O que estive a fazer na Macedónia?


Living la vida Loca é a resposta mais próxima da realidade que vivi na Macedónia. Não porque me tenha tornado numa adepta da vida nocturna e boémia mas porque foi mesmo uma loucura.Sinto que levarei muitos anos até digerir tudo o que vivi, vi, pensei e senti...

Oficialmente estive a participar num projecto de Serviço de Voluntariado Europeu(SVE), da Agência para a Juventude, da Comissão Europeia.

O SVE é um dos projectos incluídos no Programa Youth in Action que foi criado a pensar em todos os jovens da Europa. A máxima é promover a cidadania activa, solidariedade e tolerância.
O programa divide-sem em 5 acções distintas entre as quais as mais populares são o SVE e os intercâmbios juvenis. Todos os passos deste programa funcionam sob a índole da educação não-formal. O mais importante é que todos possam participar sem julgamentos, avaliações ou discriminações. Em suma cada um partilha o conhecimento que tem com a certeza de que, no final, terá mais competências mesmo que estas, só se tornem evidentes, muito tempo depois.

O meu projecto consistia na elaboração de uma revista para jovens de Skopje, a Revista Voices. É editada em Inglês, Macedónio e Albanês, na expectativa utópica de que um dia ambas as sociedades possam viver em comunhão.
O trabalho dos voluntários é escrever, editar e distribuir a revista.

Não me vou alargar muito na explicação daquilo que deverá ser um projecto SVE e...do que é, muitas vezes, a realidade,.
Apenas vos conto que vivi um sonho. Uma coisa linda...que foi abalada pelas minhas crenças num mundo mais claro e justo, sem corrupção.
As minhas memórias, dos tempos magníficos que passei na R.Macedónia não serão, a longo prazo, afectadas pelas coisas que vi e pelas quais me decidi insurgir por achar que não estão correctas.

Se o vosso sonho é viver fora de Portugal e/ou desenvolver projectos e/ou desenvolver competências numa área específica, não exitem. Aproveitem a oportunidade.
Não existe um mundo perfeito. Não aceitem tudo aquilo que vêm. Nem tudo é Cultura, nem tudo é tolerável mas se ficarem sempre no mesmo sítio à espera que algo vos aconteça a vida passar-vos-à ao lado....e passa tão depressa, tão depressa.

Se quiserem saber mais informações sobre SVE ou outros projectos do Programa Youth in Action consultem o site http://europa.eu/youth/
Ou contactem a Rota Jovem,uma associação portuguesa muito competente nesta área:
http://www.rotajovem.com/index.asp

O site da Associação onde estive, na R.Macedónia é:
www.vcs.org.mk
Do lado esquerdo a Revista Voices. Curiosidade:na Edição de Abril há uma reportagem sobre Lisboa.

Quotidiano de Skopje, R.Macedónia

Ponte de Pedra. Divide não oficialmente o lado albanês do lado macedónio(ou ortodoxo)

Vista Geral de Skopje


Bandeira da R.Macedónia



Passeio quotidiano de duas senhoras albanesas, no lado albanês da cidade



Mercado Albanês ou PitBazaar




Autocarro "moderno" nas ruas de Skopje






sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Sol também é uma estrela:o que é a Macedónia?

Para muitos é uma mistura de legumes que usamos para fazer Salada Russa (que por sua vez é conhecida como Olivier na Russia), para outros é uma salada de frutas, para outros, é ainda, um fenómeno linguístico.
Conhecida por ser a terra Natal de Alexandre,o Grande, a Macedónia é uma vasta região, na região dos Balcãs dividida, actualmente, em 3 áreas distintas: a Norte da Grécia, na actual República da Macedónia(ou Fyrom) e parte Oeste da Bulgária.
Entre batalhas, conquistas e reconquistas dos Turcos, sérvos, gregos é importante referir que em 1941 a R.Macedónia foi anexada à República Socialista Federal da Jugoslávia, do grande General Tito. Em 1991 tornou-se independente e, desde, então a R.Macedónia tornou-se famosa pelo diferento com a Grécia em torno do nome oficial do país.Segundo os gregos, a Macedónia é uma vasta região que apenas ocupa 1% da actual República da Macedónia.
Após mais de 7 meses de convívio com ambas as nações confesso-vos que não cheguei a nenhuma conclusão.
Costumava apoiar a Macedónia, que me parecia ser ostracizada pelos gregos, porém após começar a ouvir também a versão destes mudei bastante a minha opinião.
Ambos têm razão e a conclusão a que chego é que, embora os gregos tenham uma certa tendência para menosprezarem as minorias, acho justo que a R.Macedónia, como país, não seja detentora da utilização exclusiva do nome que diz respeito não só ao actual país- Republica da Macedónia ou Fyrom- mas também a uma vasta região no Norte da Grécia.
Imaginem que os espanhóis decidiam chamar Républica da Peninsula Ibérica à actual Espanha. Como nos sentiriamos nós que também fazemos parte da Peninsula Iberica? Certamente começariamos a chamar-lhes Antiga Républica Espanhola da Peninsula Ibérica.
Embora esta seja uma questão bastante quente para os macedónios parece-me que, sendo a Grécia um país da União Europeia, provavelmente a situação manter-se-à apenas no âmbito da diplomacia. Já a relação com os albaneses tem contornos muito mais graves. Fiquei sempre com a sensação de estar a viver numa Guerra-Fria e que a qualquer momento pode começar uma guerra sem razão, como aconteceu em 2001. É óbvio o conflito étnico. Está em todas as conversas, ruas e estética do país.
Como em todos os balcãs, na R. Macedónia,o Nacionalismo é um tema muito forte. Os políticos jogam muito com os sentimentos dos cidadãos. Ficamos com a sensação que estamos num teatro de marionetas. É dificil encontrar pessoas com ideias não formatadas e,isto, foi o que mais me entristeceu e aborreceu nos meses que passei lá. Os macedónios são usados e manipulados. Justificam-se com o facto de não poderem viajar pela Europa sem visto (esta é uma das realidades mais duras e que mais me custou entender) porém eu penso que não há vontade da parte deles de impulsionarem uma mudança.
Contudo fiquei com a sensação que a pobreza traz dignidade e humildade. Nunca esperei encontrar um povo tão acolhedor, tão desligado dos bens materias. Aliás, ainda me questiono como conseguem (sobre)viver. O ordenado médio são 150/200€, 40% está oficialmente desempregada, há excepção da comida, todos os bens de consumo são extremamente caros.
São de verdade autênticos campeões e caminham sempre com um sorriso nos lábios e o coração aberto mesmo quando a vida lhes corre tão mal.
A beleza do país é indescritível.Em todas as linhas do horizonte há montanhas. Agora na Primavera, o verde invade-nos a vida. É impossível ficar indiferente.Sente-se nas veias.No Inverno fica tudo cheio de neve. Algumas regiões mais baixas ficam de tal maneira cobertas que precisamos olhar fixamente para perceber que estão ali casas e ruas e carros.
Quando surgem os primeiros raios de sol após um nevão vêm-se em todas as direcções, montanhas que parecem fantasmas a apontar para o céu. É bonito.
E, porque há excepção de Ohrid, a Macedónia não é um país de turismo, fiquei com a sensação que tudo está tão virgem e intocável como no tempo do Alexandre, o Grande.
Se decidirem visitar não esperem algo fantástico. Não é um país de massas. É um país para ser aproveitado como um bom vinho:não é percéptivel a totalidade do conteúdo mas sabe bem e deixa memórias.
Dá prazer!

Passeio à Grécia










O coração bateu mais depressa quando a minha amiga Sara, com uma excitação infantil e contagiosa, me bateu no ombro energicamente e me disse “Está ali, Está ali. Eu vi!”Fiquei desesperada porque tive de esperar pela próxima abertura entre os prédios para poder contemplar a beleza, a magia e a imponência da Acrópole de Atenas.
Já depois de me ter deitado a pele continuava arrepiada e eu sentia um estado de felicidade incontrolável, que me transcendia. É inexplicável a sensação de estarmos num sítio que só vimos em imagens de Enciclopédia, filmes e Canal História. Normalmente colocamos este tipo de destinos no pacote mental dos “um dia hei-de ir lá..um dia” não porque seja caro, não porque não tenhamos vontade mas porque são locais tão apetecíveis que nos parecem um sonho e apenas isso.
Bom, voltando atrás na história da minha decisão de ir a Atenas, foi assim que aconteceu:
estava no sofá da minha casa, em Skopje, com os queridos nuestros hermanos Guillermo, Laura e Sara. A Sara queria viajar para Montenegro e Albania com a Carmen. Falámos de Tesalónica e por fim disse-lhes que se fossem a Atenas iria com elas. Em Ohrid tomámos a decisão de ir juntas.
Todo o caminho entre Tesalónica e Atenas tem uma paisagem mágica repleta de montanhas, água e verde, infinito verde. Os gregos são bastante simpáticos (tinha outra ideia)e têm uma língua muito bonita. Quando falam inglês têm um sotaque muito acentuado como os espanhóis. Claro que fui vendo bastantes narizes gregos. Não tantos como tinha imaginado mas eles existem de verdade e tornam os rostos muito bonitos e personalizados. Aliás, os homens gregos são bonitos, atraentes e charmosos. Verdadeiros homens do Sul.

Dedicámos o primeiro dia a visitar a Acrópole, Templo de Zeus, Estádio Olimpico, Anfiteatros etc...Para entrar na Acrópole é necessário pagar 16€ porém com Cartão de Estudante é gratuito(uauu). Nos outros dias dedicámo-nos às praias de Atenas, aos estádios do Panatinaikos e Olimpiakos, às compras de última hora.
Encontrei bastantes portugueses e brasileiros. Numa lojinha de souvenirs estàvamos a falar com o vendedor, um senhor velhinho e fofinho. Quando já estavamos a dizer “Bye, Bye” descobrimos que ele era brasileiro. Demos um abraço forte e sentido de Lusófonia, de amizade, de irmandade sem rancores coloniais. Mais tarde vi um grupo de velhotas muito fofas e chiques, brasileiras, disse-lhes que era de Portugal e elas gritaram em coro “Portugal é Lindo”.
De noite saímos com a nossa anfitriã Hanna, de Castella y la Mancha, antiga Erasmus em Coimbra.Fomos a um bar muito interessante, no 10º andar de um edifício normal. O Bar estava cheio de gente e era muito in. Tinha uma vista soberba para a Acrópole. Ás 3 horas da manhã, ao som de um House soft, vi a Acrópole adormecer. Gradualmente as luzes foram-se apagando e ficou só a sombra...Conseguem imaginar?
Bom,mas o mais fora do normal estava para acontecer. Lembram-se dos confrontos entre polícias e manisfestantes,há cerca de 2 ou 3 meses , com as ruas de Atenas a arderem, depois da polícia ter matado um miudo de 15 anos?
Pois estávamos tranquilamente com um grupo de amigos, num jardim público, a comer uma maravilhosa Pitta, quando começamos a ouvir gritos e muitos jovens a correrem pelas ruas. Atrás deles vinha a polícia de choque. Mesmo ao nosso lado-20 metros-a polícia começou a disparar um gás qualquer.Começamos também a correr mas decidimos parár para não sermos confudidos com os revoltosos. Isto é a vida real!
A comida na Grécia é simplesmente deliciosa. Quando provei o primeiro pão regado com verdadeiro azeite medirrânico e oregãos quase chorei. Há meses que não comia nada assim.
As saladas e as pittas são bastante baratas e de extrema qualidade( muito distante do fast-food grego/turco que temos em Portugal) mas tudo o resto é extremamente caro.
No regresso a casa, no comboio, tive o prazer de ficar sentada ao lado de um senhor com cerca de 50 anos, Professor universitário de Engenharia Têxtil. Conversámos muito sobre a cultura grega e sobre o conflito diplomático entre a Macedónia e a Grécia.
Claro que a magia da Grécia foi completada com a maravilhosa companhia das nuestras hermanas Sara,Carmen, Hanna e Rocío e de muitos outros nuestros hermanos que fui conhecendo. Nos últimos meses tenho eliminado todos os preconceitos estúpidos que tinha contra os espanhóis. Mais, estou encantada com a cultura deles e fico cada vez mais surpresa com as similariedades culturais entre Portugal e Espanha. Não sou apologista da União Ibérica mas sem dúvida que eles são óptimos parceiros culturais, económicos e políticos (sugestão: vejam o filme Volver, de Pedro Almodovar e verifiquem as semelhanças entre o papel da mulher em ambas as sociedades).
Não deixem de visitar a Grécia. É harmoniosa, bonita, cheira bem e tem alma.
Se vos interessar visitar mais do que uma cidade ou país da região sugiro que comprem o Balkan FlexiPass.Custa 51€ até aos 25 anos e 81€ a partir dos 26. É uma espécie de InterRail para a zona dos Balcãs(Bulgária, Macedónia-Fyrom,Grécia,Serbia,Montenegro, Roménia e Turquia). Tem a validade de 1 mês e pode ser usado durante 5 dias consecutivos ou alternados. Se iniciarmos a viagem depois das 19horas conta como o dia seguinte( o que é óptimo pois podemos dormir no comboio e poupar no hotel). Há ainda a vantagem de muitas vezes os revisores não assinarem. Podemos fazer batota e alterar a data e viajar mais 1, 2, 3,4 ou 5 dias com o mesmo passe. Eu fiz isto, confesso. Estou a transformar-me numa balcanica!
Convenci-vos a ir?

sábado, 25 de abril de 2009

Espiritualidade

Jovem de 25 anos, cheia de amor para dar, procura Religião para relação séria e duradoura. Pede-se foto na 1ºcarta. Não é necessário que tenha carta de condução. Assunto de extrema importância.


..E foste música que em mim ficou quando a distância nos fez separar. Ando louca para te encontrar...























domingo, 19 de abril de 2009

Fado Tropical (Buarque)
















Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

``Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

``Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intencão e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

segunda-feira, 16 de março de 2009

Momento de Leitura
































Demorei muitos anos a ter coragem para seguir em frente. Começava e ao fim de meia dúzia de linhas já estava cheia de sono.Ora assustada pela letra miudinha, ora assustada com o mito relativo à forma como ele organiza o texto (que eu secretamente atribuía a um certo pseudo-intelectualismo e à falta de conhecimento sobre gramática) certo é que durante muito anos fugi dos livros de Saramago como o diabo foge da cruz (é tão bom falar em Diabo sem ter medo de ser apanhada pela Santa Inquisição).
Este fim-de-semana terminei de ler o Memorial do Convento e é simplesmente delicioso, alegre e um passeio pela História dos nossos costumes. Sempre com críticas súbtis à Pátria-Mãe-quem mais crítica Portugal que não os próprios portugueses?- e com uma abordagem muito franca e realista à religião Católica e à falsa moralidade das grandes Instituições.
Uma apologia ao Amor incondicional, sem limites. Só por isto já valia a minha atenção.Mas é mais. Estou maravilhada.
Não se deixem abalar com os mitos em torno das obras de Saramago e avançem...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Viagem a Istambul, Turquia











Se disser que conheci Istambul estarei a mentir-vos. Precisaria de 3 ou 4 anos intensos para conhecer uma cidade onde vivem 12 milhões de pessoas. Digo-vos apenas que estive em Istambul 5 maravilhosos dias. Vivi de dia a cidade onde a Europa acaba e , de noite, senti o “karma” de ser mulher numa cidade onde só os homens vão ao café. Não é fácil!
A companhia foi perfeira: Diogo, o português.
À parte a realidade cultural que, embora por vezes me tenha incomodado, não me surpreendeu, é deslumbrante a imponência das Mesquitas que surgem a cada esquina ou na silhueta da cidade. Em todas elas é necessário que tiremos os sapatos à entrada. Na Mesquita Azul o chão está coberto com uma carpete enorme(é mesmo enorme), limpa e confortável. Fui lá 2 vezes só para sentir o conforto de andar por lá descalça. Depois,lá dentro há uma zona que está reservada para os homens mulçumanos. É suposto os turistas não transporem as grades porém há sempre os engraçadinhos que se arriscam. No meio há uma zona reservada aos visitantes e curiosos e por trás de tudo existe uma zona, com grades de madeira, reservada ás mulheres mulçumanas. Discretamente olhei para elas e pareciam tranquilas e, aparentemente, felizes por estarem entre outras mulheres na mesma condição.
Não visitámos a Mesquita de Santa Sofia. Embora seja realmente lindíssima do lado de fora é preciso pagar 10€ para entrar. Achei um absurdo. Eu sei que a manutenção dos monumentos é muita cara mas é necessário que a Cultura esteja acessível a todos os turístas, desde os reformados de meia branca com sandália, aos jovens mochileiros.
Confesso que dos dias que passei em Istambul recordo com maior exaltação as visitas ao Grande Mercado. Por mais que tente não consigo encontrar palavras para vos explicar como é. Vou tentar mas ficará muito aquém das cores que vi, dos barulhos que ouvi e das emoções que senti. É enorme, é coberto e tem centenas de ruas pequeninas. A primeira indicação que recebemos foi “Este é o so sitio onde se podem gastar milhares de Doláres num dia”. Achámos exagerado mas quando o começámos a sentir percebemos que é mesmo possível gastar grandes fortunas sem remorsos e com sentimento de insuficiência. Há milhares de pequenas lojas, cheias de materiais de todas as proveniências, cores e utilizações. Há medida que caminhamos os lojistas insinuam-se em todas as linguas e assedeiam-nos até que nos consigam provar que os produtos que vendem são os mais baratos e de melhor qualidade: em suma a melhor compra que jamais fizemos nas nossas vidas. É muito interessante. Ao fim de algumas horas em que a situação se repete constantemente sem que possamos fazer nada para a controlar começa a ser insuportável porém, no outro dia, é quase inevitável voltar lá só para usufruir outra vez do ambiente até se tornar novamente insuportável.
Num dos dias entrámos numa das pequenas ruas e notámos que os lojista eram estranhamente calmos. Tentaram vender os produtos deles, explicámos que eramos portugueses falidos e um deles convidou-nos para um chá. Disse-nos que sabia à partida que não tínhamos dinheiro para comprar os valiosos tapetes feitos à mão porém não resistiu às nossas caras de boas pessoas. Ao inicio brincámos com a possibilidade de o chá ter drogas mas a confiança mútua foi surgindo e estivemos cerca de 1 hora à conversa com um jovem que nos mostrou que a hospitalidade é um bem precioso para os turcos. Explicou-nos que o pai dele, quando tem visitas, costuma dizer “ Só pagas o chá se não beberes tudo” e,quando algum viajante bate à porta de um turco, é suposto este oferecer o melhor quarto que tem.
Para quem gosta de marcas Istambul é o paraíso das imitações perfeitas: Adidas, Nike, Prada, LV, Burberry etc...São mesmo iguais e têm bastante qualidade.Bom, barato e bonito!!
Visitámos também o mercado das especiarias que, embora fique bastante aquém dos mercados de especiarias do Norte de África, valeu a pena pelo “Love Tea” e Locum que comprámos.
Como vos disse no início seria necessário muito mais tempo para descobrir Istambul. Praticamente cingimo-nos à zona das Çemberlistas. Ficaram muitas coisas por ver: o cruzamentos dos 2 mares- Mar Negro, Mar Marmaro;a visita ao Palácio Topkapi ,a zona dentro do Continente Asiático, Museus,enúmeros cafés e milhões de dólares ficaram por gastar no Grande Mercado.
Preços:
Sónia:Skopje, Macedónia-»Sofia, Bulgária:16€
Sofia-» Istambul:45€(ida e volta)
Diogo:Lisboa-»Madrid-»Sofia (ida e volta):168€
Sofia-»Istambul: 45€(Ida e volta)
Alojamento em Istambul: Cordial House:10€x1(por noite)
Alimentação:3,5€ cada refeição de comida típica de Istambul.
Para mais informações consultem:
www.easyjet.com
www.centralnaavtogara.bg (estação de autocarros de Sofia)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Plasticomania



Caros Leitores

Não vos abandonei, nem abandonei a minha cabeça a fervilhar de ideias. Continuo a ser uma Idiota(fazedora de ideias)! Acontece que, ao fim de 5 meses, já estou integrada na comunidade. Já tenho os meus ódios sociais de estimação e as minhas paixões. Já consigo antever aquilo que me vai deixar saudosa e,por outro lado, o que me vai deixar feliz por deixar este país, no dia 15 de Junho de 2009.
Dizem que os Gémeos, o meu signo Zodíaco, tem uma capacidade nata para a comunicação. Pois que seja. Escrevo então este post na esperança que não me abandonem. Nada é mais triste que escrever sem ter leitores. O meu ego não foi feito para viver em solidão, porém quero dizer-vos que adivinho alguma superficiliade nos próximos textos.
Há muitas coisas sobre as quais gostaria de escrever mas estão tão profundamente dentro de mim que nem eu as consigo descodificar. Provavelmente vou demorar bastante tempo até entender toda a “macedónia de sentimentos” que tenho cá dentro.
Assim, vamos à idiotice da semana: Há algum tempo estava no ginásio e vi que uma amiga de uma amiga, durante a aula de Fitness, usa umas calças de plástico. Achei um pouco absurdo mas decidi perguntar-lhe o que era “aquilo”. Explicou-me que era mais uma arma contra a persistente celulite. Parecia convicta.
Não obstante a minha crença de que não existem remédios para a celulite-ela veio para ficar e pronto- decidi experimentar o “milagre” .Fui a uma Apeteka (Farmácia) e comprei um par de “Dolce Plástico & Gabanna”(DP&G). Quando voltei ao ginásio esperei que todas as galinhas saíssem do balneário e, tímidamente, vesti-as debaixo das calças de algodão. Foi tudo muito rápido porque não queria ser apanhada naquelas figuras. Depois,durante o exercício quase nem dei conta que as tinha vestidas. São leves e não fazem barulho apenas parecia mais gorda nas pernas. Bom, mas a surpresa veio no fim. Quando despi aquele aparato todo, estava encharcada numa espécie de água viscosa e nojenta. Tentei ser ainda mais rápida para que, mais uma vez, não aparecesse ninguém.
Acham que sou louca? Pois fiquem mais um bocadinho e vejam o que aconteceu alguns dias depois. Voltei ao ginásio. Pús as DP&G dentro do saco da ginástica mas não estava muito convicta se as deveria usar novamente. Fui o caminho todo a pensar “só volto a vestir esta coisa se não estiver ninguém no balneário”. Quando cheguei estavam um monte de mulheres à volta de uma outra mulher que falava alegremente, em macedónio, sobre qualquer coisa. Discretamente tentei perceber do que se riam e admiravam tanto. Foi então que, em choque, percebi que a “fala-barato” estava completamente envolvida naquele plástico que, em Portugal, costumamos usar para tapar os alimentos e pôr no frigorífico ou para embrulhar sanduíches!Que horror!
Claro que as minhas DP&G ao pé daquilo são uma pérola no entanto não quero ser conhecida por aqui como a estrangeira-que-usa-calças-de-plástico-na-aula-de-ginastica-porque-coitadinha-pausa-deve-ter-incontinência!!!!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Parabéns AvóMágica 10-02-1920


“ As coisas vulgares que há na vida não deixam Saudades”

É dificil dissociar a minha avó da minha história pessoal. Ela está em todas as coisas que sou, penso e faço. Ela tem magia. É a pessoa que maior conhecimento me transmitiu apesar de só ter a 2ª classe. Sem ela eu seria incompleta. As minhas recordações mais deliciosas estão relaccionadas com ela. Felizmente deu-me sempre liberdade para ser igual a mim própria (mesmo que isso me custasse umas vassouradas) portanto aproveitei as centenas de oportunidades que tive para lhe mostrar o meu amor e gratidão. Éramos inseparáveis.
Nos últimos anos o Alzheimer roubou-lhe a memória, a energia e a autonomia. Às vezes reconhece-me. Preferia que não. Parte-me o coração quando a sinto chegar de outra parte da vida, ouvi-la dizer “É a Sóninha” e logo de seguida voltar para o mundo escuro e distante em que vive. Não quero que se lembre de mim. Eu lembro-me o suficiente pela duas.E Lembrar-me-ei sempre tal como ela se lembrou sempre da avó dela e me contou com o carinho de neta preferida, que também foi, as estórias que lhe ouviu.

Carambas marianita que lindo avental o teu
Mas que bem que ele te fica
Diz-me quem foi que te deu

Está fazendo mangação
Do avental que me deu minha tia
Se me pudesse roubar para vocemecê não o queria
Mas sim ia oferecê-lo à minha prima Maria

O namoro de tua prima foi só para tempo passar
Tenho estado sempre à espera que te acabes de criar
Como já estás mulherzinha já te posso perguntar

Meu pai não dá licença e minha mãe pode ralhar
Contudo, se nenhum deles deixar
Namoramos às escondidas
Onde a gente se encontrar


Tradição oral alentejana. Cantilena que uma das minhas trisavós contava à minha avó Maria Luísa Garrido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Anos 60 bem medidos

















































Quanto se vive com 8 jovens de países diferentes que, por sua vez, conhecem outros jovens de países diferentes (que conhecem jovens de países diferente e por aí adiante), é impossível fugir ao ciclo das festas. Há sempre uma festa algures em Skopje. Se os bares estão fechados há sempre uma casa internacional pronta para acolher quem ainda não tem sono.
Depois das Ladies-Night vividas nos tempos da faculdade ,em Lisboa, confesso que não tenho energia para ficar acordada até de manhã, ver o sol nascer com um copo de Skopsko na mão, mas é sempre bom ir. Há sempre amigos para rever e novas pessoas para conhecer. Pelo meio, invariávelmente, há sempre alguém que surge do nada e pergunta “It´s true you come from Portugal?OOOHHH, it´s so great...”.
Bom, narcizismo à parte, estou aqui para vos contar que eu e os meus 8 camaradas decidimos que até ao final do nosso projecto vamos organizar uma grande festa todos os meses. Como a música é um grande mote para a felicidade e, uma vez que faltam apenas 4 meses, decidimos que a cada mês corresponderá uma década, sendo que a “viagem”decorrerá entre os anos 60 até meados da década de 90.
Assim, começàmos no passado fim-de-semana, com uma grande festa de homenagem ao Twist e ao Yeah-Yeah. Era suposto estarmos vestidos a rigor mas muitos falharam o compromisso.Não faz mal. Imaginemos que são visionários e sabem o que se irá usar em 2009,pronto!
“La Bamba”, “Yellow Submarine”, “Mercedes-Benz”, “Let´s twist again” abrilhantaram a nossa noite de glória. A casa estava cheia de pessoas que nunca vi na vida e, disseram-me depois, que estavam representadas mais de 8 nacionalidades.
No final da noite quando os joelhos, pela força do cansaço, já não podiam rodar no twist, a dj foi generosa e avançou, por 10 minutos, até aos 80´s. E, claro, não seria a minha festa se não tivesse Guns N´Roses. Os últimos sobreviventes deixaram a festa com um grande sorriso, abraçados a cantar, pertinentemente, “Where do you go now, Where do you go noooww, aiaiiiiaiaiiiiiii”.
Leitores quero sugerir-vos que se deem ao prazer de viver estas experiências. Todos trazem algo para beber e petiscar. Ouve-se boa música,dança-se um bocado. É uma noite diferente que faz com que todos renasçam e saiam da rotina. Sentimo-nos frescos, mesmo que a casa esteja de pernas para o ar.
Se no final da noite os remorsos pelo incómodo causado ao vizinhos vos começarem a roer nas consciências (se a tiverem) tentem ser ultra-simpáticos no dia seguinte e ofereçam-se para carregar as compras até ao elevador. Se, na festa, vos calhar um penetra que bebeu demais, que está cheio de autoconfiança, que acha que é o maior e que por isso nunca mais vai embora digam-lhe sinceramente que está a ser chato. Se já não restar energia para pegar na vassoura e limpar os “destroços” ponham a vossa música preferida a tocar.

Divirtam-se e contem-me como foi!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Domingo Preguiçoso


O Domingo é, por excelência, o dia da preguiça e da informalidade.
No Verão sabe bem vestir roupas informais, sair e aproveitar o sol mas no Inverno é bom ficar no sofá, aproveitar a vasta oferta de filmes nos canais abertos. Ficamos todo o dia num estado de letárgia a saborear o pijama, as meias grossas,o saquinho de água quente e as bolachas Maria com manteiga às carradas. Procrastinamos a vida para o dia seguinte.
Porém já vos ocorreu que nesses domingos há mais alguns milhões de pessoas a fazerem o mesmo?
Pois bem,há algum tempo uma amiga falou-me de um novo conceito que está a emergir. Consiste na partilha da preguiça de Domingo, ou seja, em vez de estarmos a preguiçar sózinhos,juntamo-nos em casa de algum amigo (que tem amigos, que têm amigos), usamos roupas confortáveis, compramos alguma coisa para comer e partilhamos a nossa preguiça domingueira com outros preguiçosos.Vivêmo-la em Comunidade.
Note-se que "alguma coisa para comer" deverá ser nada muito elaborado. Lembrem-se que é Domingo e estamos todos cheios de moleza, sem vontade de cozinhar.
Claro que esta situação rouba um pouco a magia do "coma domingueiro" mas parece-me um conceito bastante interessante e engraçado.

Hoje comprei o DVD do novo filme do Woddy Allen. Vou convidar os meus amigos mais próximos a virem até ao meu quarto no próximo Domingo.
Hhhmmm, que preguiça que me deu agora!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Algures por aí

Andei em Viagem...
Depois de Lisboa estive em Belgrado num intercâmbio sobre linguagem corporal/slapstick. Estavam lá macedónios, bósnios, islandeses, suecos, portugues, croatas, romenos e sérvios, muitos sérvios. Como representante da Macedónia senti um grande prazer por poder observar o grupo português de um novo ponto de vista. Observei muitas coisas tipicamente portuguesas e confesso que alguma delas me irritaram e entristeceram. Não quero falar disso aqui. Não sou o Velho do Restelo.
Durante os intercâmbios sinto sempre vontade de voltar para casa. Não consigo adaptar-me aquele novo ambiente intensivo, cheio de pessoas, de diferentes países e culturas. Sinto sempre que há uma certa imposição para fazer amigos e chorar de alegria. Esse não é o meu estilo. Normalmente opto por ir mais cedo para o quarto e ficar por lá sossegada a ler ou a escrever. Depois, com o passar dos intensos dias de intercâmbio, surgem algumas pessoas com quem sabe bem conversar e partilhar ideias. Depois quando até já não está a ser assim tão mau é hora de voltar para casa.
No ultimo dia fomos para a praça principal da cidade e fizemos uma Peça de rua. Foi muito interesse e libertador. Senti que voei.
É um prazer regressar a Belgrado. Definitiamente é a minha cidade preferida nos Balcãs. É grande, tem energia e desta vez tinha muita neve e frio. Há sempre vida e gente nas ruas. Há sempre um café interessante onde ir beber um chá e comer uma fatia de bolo vindo directamente do paraíso.
Agora estou novamente em Skopje. Não ficarei por cá muito tempo: Sofia, Istambul,Ohrid, Kosovo. Há sempre mais sítios para conhecer mas mesmo assim é bom voltar aos amigos que já fiz aqui e à minha cama com uma colcha amarela. Ultimamente sinto-me particularmente feliz porque descobri mais um português a viver neste fim do mundo. É o André, tem vinte e poucos,esteve cá há 2 anos na minha ONG num projecto relaccionado com cinema. Apaixonou-se por uma rapariga macedónia e resolveu mudar-se para cá. Quando nos encontrámos pela primeira vez falámos muito e foi muito agradável comentar a Macedónia,com o mesmo ponto de vista e herança cultural.

De Portugal tenho tido poucas notícias mas fiquei triste por saber que o vocalista d´Os Sitiados, João Aguardela, morreu. “A vida de marinheiro” é um clássico na vida de todos nós.

Quando estava em Belgrado terminei de ler “Os cus de Judas”, de Lobo Antunes. Já li muitos livros que abordam a temática da Guerra Colonial mas mesmo assim nunca consigo ficar insensível à destruição de 2 gerações de portugueses. Não apenas dos soldados que partiram para África mas também as famílias que se destruíram mesmo quando os bravos voltaram vivos para Portugal.
Sugiro a leitura do livro. Se, com razão, não estiverem interessados em gastar 16€ num livro sugiro que leiam as crónicas semanais do mesmo autor, na revista Visão www.visao.pt (lado direito, em baixo)

Observações de um ser quase adormecido

Munique, 5 de Janeiro de 2009

Estou no Aeroporto de Munique pela bilionésima vez. Já fui ver alguma lojas, já me fui borrifar com perfumes que, embora não tenham taxas, são inacessíveis aos meus bolsos de “assalariada” ilegal na Macedónia.
Descobri que todo o Aeroporto está desenhado de maneira a nao permitir que os traunseuntes durmam uma sesta entre um voo e outro. Para falar a verdade, nem me atreveria a adormecer num aeroporto de um país tão recto e industrial.
Talvez seja um estereotipo (é com toda a certeza) mas todas os relatos que amigos e conhecidos me fazem da Alemanha descrevem um país onde tudo é irritantemente perfeito. Inclusivé este é o relato dos alemães.
Já percebi que quem viaja em classe económica não tem acesso aos Lounges e à internet. Grande treta. Um país evoluído excluí desta forma o acesso á informação.
Faltam 5 horas para o meu próximo voo. Sei que as viagens para o centro da Cidade custam um absurdo e demoram mais de 1 hora e meia,ida e volta. Resta-me, portanto, ficar aqui sentada . Observar e ser observada.
Menos mal: o café, o chá e o sumo de limão são de borla, para TODOS. Ah, e os jornais diários, da Alemanha, também. Ich Spreche keine Deutsche
Tento fazer exercícios mentais. Tento manter-me acordada. Inevitalmente estes exercícios acabam na estereotipação dos que passam.
À minha frente está um casal de meia-idade. Parecem-me portugueses. Estão a beber galão e um pão esquisito. O homem até me parece que está com cara de quem está a pensar “O que eu queria era um paposeco”...Ah, descubro que são franceses mas pareciam mesmo portugueses. (agora até sinto um certo orgulho. Os franceses, normalmente, tem um estereotipo bastante pejorativo dos portugueses)
Depois tento sonhar com destinos. Nunca me senti muita atraída por destinos tropicais mas inevitavelmente desejo embarcar no voo para o Rio de Janeiro. Olho pela janela do Aeroporto e vejo neve. Imagino como seria depois de uma viagem longa(e puro pânico) chegar à cidade maravilhosa. Nadar nas águas frias de Copacabana e subir ao Corcuvado. Passear nas ruas mais antigas onde são visiveis as influências da arquitectura europeia.
Também começo a sentir curiosidade pelas Megatrópoles do Oriente. Sei que é preciso algum dinheiro. Arrumo o Oriente na minha caixa de sonhos mentais para depois dos 40. Como não planeio ter filhos não me parece de todo impossível.
Antes, concerteza, vem a tão sonhada viagem à Patagónia argentina. Visitar o estreito de Magalhães e conhecer parte da rota do primeiro humano que fez um interrail à volta do mundo. Por vezes sinto-me um pouco como ele. Frequentemente oiço as pessoas dizerem-me “Sónia és a primeira portuguesa que conheço”!!!
Pelo meio desejo passar uma temporada de longos anos em Cabo-Verde. Ter a minha própria casa na Ilha de São Vicente. Sentar-me ao final do dia, nos degraus da frente, descalçar os sapatos e conversar com os vizinhos sobre as rotinas da Ilha. No fim, com um suspiro, dizer a mais linda expressão criada pelo Homem “N´STA SABIA”
Vou deambulando por Paris. Imagino-me com a minha boína azul, a deambular pelas margens do Rio Sena. A língua francesa sempre foi uma das minhas preferidas. Estudei-a durante 8 anos. Nos ultimos 2 anos era boa aluna e conseguia manter uma conversação. Agora já esqueci quase tudo, já esqueci grande parte do vocabulário , pu-la em 4ºlugar na minha lista de idiomas preferidos. Assim se perdeu uma entusiasta.
Também me apetecia dar um “saltinho” a Sevilha. Quem sabe assistir a um concerto do Paco de Lúcia e não fazer nada o resto do tempo. Apenas sonhar com este “torero”. Há que aproveitar a atmosfera andaluza!!
Acabo por perceber que o que me faz sonhar tão entusiasticamente com outros destinos é a cruel realidade que me espera: um voo até Sofia, uma noite na estação de autocarros, 6 ou 7 horas de viagem até Skopje e, pelo meio, a dificil interacção com as fronteiras fora do espaço Schengen!
Mais 6 meses de aventura nos Balcãs. Valerá a pena? Quando estou lá,rodeada de amigos, sinto que já valeu a pena por isso. Sinto que nunca estive realmente sózinha. Sinto que alguma coisa já mudou dentro de mim. No entanto fico mesmo chateada quando tomo consciência que pouca coisa mudou para eles.Para a grande maioria deles depois de mim, depois dos meus oito colegas de nacionalidades diferentes vão chegar outros “colegas” recheados de fundos da União Europeia. Eles, vão continuar a alimentar a guerra fria que mantêm com os países vizinhos.
Há pouco brincava com os estereotipos. Considero-os, até, necessários, porém não há nada mais gratificante que aceitar a multiculturalidade. Vivê-la intensamente como se fosse uma dádiva.
Salazar ousou dizer que estávamos “orgulhosamente sós”. Jamais os seres humanos gostaram de estar sós. Quando o fogo apareceu o aparelho fonético foi desenvolvido e surgiu o serão. Os seres humanos tinham, por fim, uma razão para ficarem acordados até às tantas.

LISBOA, 1 de Janeiro de 2009