quinta-feira, 24 de julho de 2014

Primeira entrevista de trabalho na Irlanda

Foi AQUI que vos contei como tinha corrido a primeira entrevista de trabalho em Madrid. Na altura fiquei chocada com o comportamento imbecil do meu entrevistador. Volvidos quatro anos, voltei à pouco alegre e muito ardúa tarefa de enviar CV´s e acudir a entrevistas em moradas que para mim são chinês, montada em saltos altos e calças de tecido que me apertam nos pneus e me fazem o rabo demasiado redondo, e desorientada com as indicações controversas que me dão na rua. Desenrascar é mesmo a herança maior que um português pode receber (depois da língua), porque acreditem que quando estamos fora do nosso círculo de segurança e conforto é muito útil. Desenrascar é uma espécie de canivete suiço que nos transforma no Macgywer em situações de aperto.

Há duas semanas ligaram-me duma ETT para passar a triagem num processo que me interessava bastante, numa das muitas multinacionais recém-instaladas em Cork. Correu tudo bem e a entrevistadora gostou do meu CV e disse que ficou muito impressionada com algumas experiências que tive e que se adaptavam perfeitamente ao posto. Fui, pois, convocada para uma entrevista na tal multinacional. E o sexto sentido começou logo a activar um alarme de cor âmbar que me dizia que aqui as coisas são bastante diferentes. Uma entrevista é algo muito sério e não a conversa relaxada e, muitas vezes, da tanga, que se tem no Sul. No meu e-mail recebi uma espécie de guião preparado pela ETT com uma série de perguntas para as quais eu devia estar preparada para responder e, outras tantas, sobre as quais eu deveria reflectir: quais os meus pontos fortes e fracos, como é que eu me vejo daqui a uns anos etc...

Comecei a sentir-me nervosa na véspera e, para evitar imprevistos, saí de casa com três horas de antecedência. E até me dá vontade de chorar quando me lembro dos imprevistos pelos quais passei. Parecia que o universo estava do contra e tudo estava a correr mal. Sabem aqueles sonhos em que tentamos correr para alcançar as pessoas e não conseguimos? Tentamos gritar mas a voz não sai? E despertamos todos suados e em pânico? Pois, isso foi o que me aconteceu mas eu não estava a dormir...Estava elegante, perfumada e a tentar manter a calma para uma importante entrevista de trabalho.
Primeiro o comboio nao abriu as portas na estação onde eu deveria sair. Não sei o que se passou mas estavam bloqueadas. Para terem uma ideia, nessa linha só há um comboio por hora. Fazendo as contas comecei a sentir-me lixada com F, portanto quando cheguei à estação de Cork, reclamei. Não me serviu de muito, mas reclamei. Uma senhora, que tinha assistido à cena, foi a luz brilhante que não me fez perder a esperança. Pediu-me para ter calma, que tudo se ia resolver e que concerteza eu iria ficar com o posto de trabalho. Ajudou-me a fazer a reclamação e foi um amor (aqui as pessoas são realmente muito simpáticas).

Apanhei outro comboio na direcção contrária e desta vez as portas abriram. Resulta que a estação estava entre o nada e uma auto-estrada e não havia vivalma excepto eu e um casal de turistas que estavam igualmente perdidos. Fiz-me ao caminho e segui por um pedaçinho de passeio que havia ao longo da auto-estrada. Mais ou menos correspondia com o caminho que eu tinha visto no google maps. E então, cheguei a um enorme parque industrial e comecei a perguntar às poucas pessoas que passavam a pé onde ficava a empresa onde eu ia ter a entrevista mas...ninguém sabia. Entrei na zona Este do parque e, entretanto, já tinha passado uma hora e meia. A ampulheta já ia a meio...
Avistei um Costa Café e pedi ajuda. Ninguém sabia onde ficava a tal empresa mas, pelo menos, estava no parque certo. Olhava à volta e só via empresas e mais empresas e edificios para lá de outros tantos edificios, e todos iguais. Como ultimo recurso pedi que me dessem um contacto dum táxi.


Liguei à central e expliquei a situação. Que estava num parque industrial gigante, sabia exactamente onde me encontrava mas não sabia onde estava o sítio aonde tinha de ir, portanto precisava da ajuda dum taxista. Puseram-me à espera duas vezes, para me informarem que não podiam enviar um táxi para me deslocar dentro dum espaço tão “pequeno” (puta que os pariu...pequeno para eles que o estavam a ver no google maps).
Então, furiosa comecei a andar sem nenhuma direcção concreta e duzentos metros depois, numa esquina, detrás dumas árvores grandes, eis que surge o logotipo gigante e brilhante da “minha” empresa. Senti-me uma bailarina dentro duma caixa de musica, a dançar levemente ao som duma música fofinha....
Como ainda tinha quarenta e cinco minutos, voltei para o Costa Café e tomei um cappucino (o mais barato e mesmo assim EUR2,99), depois pintei os lábios tranquilamente, passei água no pescoço, sorri ao espelho e disse-me palavras de conforto como “agora é que vai ser”.

Não, não ia ser...

Na ETT tinham-me avisado que a empresa tinha mudado de instalações há muito pouco tempo. Os escritório que eu tinha visto na esquina eram os escritórios antigos. À medida que me fui aproximando e fui vendo como tudo estava vazio, com dossiers abandonados e janelas mal fechadas, apeteceu-me chorar...já só faltavam quinze minutos para a hora marcada e ia mesmo chegar atrasada...Tinham passado duas horas e quarenta e cinco minutos desde que tinha saído de casa...isto não me podia estar a acontecer. Estava a começar a suar outra vez e já tinha um lago no umbigo e uma catarata na espinha.
Havia por ali um jardineiro e precisei gritar-lhe duas ou três vezes para que me ouvisse por detrás da motosserra. Explicou-me onde estavam as novas instalações e, de salto alto, fui cortando caminho pelos passeios relvados e pelos canteiros de flores. Não sei como mas demorei cerca de cinco minutos a chegar ao local e cheguei cinco minutos antes da hora marcada. Os meus entrevistadores estavam numa reunião e a entrevista ia começar cinco minutos mais tarde...Foi o primeiro suspiro de alívio. Tive tempo de me recompôr e de beber quase toda a água do dispensador.

Não importa dizer como correu a entrevista. Os entrevistadores eram simpáticos. Um deles era espanhol. Uma espécie de irmão Rivera. Só não fiquei estrábica a olhar para ele porque as circunstâncias anteriormente descritas só me faziam ter vontade de adormecer debaixo dum duche fresquinho e acordar somente daqui a trezentos dias, quando tudo não passasse duma má recordação.  Aliás, se estou aqui sentada na biblioteca municipal a contar-vos com tanto detalhe a merda de dia que tive é porque não fiquei com o posto...mas, pelo menos, sobrevivi. Ainda tenho um nó na garganta e garanto-vos que não é normal todas as dificuldades com as quais me deparei naquelas malditas três horas, num dia tão importante. Creio que as superei com mérito mas quando cheguei a casa só me apetecia o colinho da minha mãe e, pela primeira vez, senti-me realmente assustada e percebi que estou outra vez sózinha no mundo. Embora muitas vezes as minhas palavras transmitam só confiança, há dias em que o mundo parece um terrivel buraco negro e não é nada fácil chegar onde queremos. O caminho é penoso e cheio de espinho e é dificil acreditar no que quer que seja...

Para terminar e para que não vão daqui com maus feelings, conto-vos que quando cheguei a casa tomei um banho fresquinho, fui ao jardim e estive deitada e a rebolar na relva, entrei na igreja para sentir um maravilhoso silêncio esmagador, à noite vi o filme “The other sister” e dormi nove horas seguidas. Deixo-vos uma imagem bem bonita que a mim provoca sensações que me fazem sentir essa tal bailarina levezinha...plim plim plim

 
Irmãos Rivera

7 comentários:

DAVID MELAR disse...

Sonia, cómo me suena todo eso. Me estaba pareciendo que era yo hace 3 años. Verás como a la siguiente sale bien :)) Bejnhos

debibu disse...

Bom pensa assim, esta é mais uma história para contares aos teus netos. E melhores dias certamente virão, até porque se a Sónia da Macedónia já se desenrascou por Espanha e por Moçambique a Irlanda vai ser super fácil

Ofélia Queirós disse...

Querida Debibu, só tu para conseguires ver o copo meio cheio depois dum dia tao filho da mãe. Obrigada :)

Cátia Lopes disse...

Que dia!!! Mas como sabes melhores dias virão como diz a Debi. E se não fossem essas aventuras eu não estava a ler-te toda entusiasmada!

Cátia Lopes disse...

Que dia!! Mas se não fossem essas aventuras, não estava aqui entusiasmada a ler-te!

Flora Neves disse...

Que aventura, mas são essas vivências, memórias que vais recordar mais tarde e vais poder dizer "Confesso que vivi". São essas experiências que acumulas pela vida fora que te tornam mais rica e melhor preparada para as dificuldades.
Fico a espera de ler o próximo texto em que vais contar sobre o teu novo emprego que vais conseguir brevemente. lol

Carlota disse...

rapariga!! Só agora li isto! Minha nossa! Que dia....já eu estava nervosa a ler as tuas agruras deste teu dia!
De certeza que melhores virão!Com um dia destes nunca terás um pior!
1000 bjokitas!
CarlaMP