quinta-feira, 4 de abril de 2013

Xtike


Há cerca de 1 mês tive uma dessas experiências que qualquer que viaje a um país estrangeiro almeja, ou seja, viver na 1º pessoa um pouco da cultura local.

A Tatiana, brasileira em Madrid, estava de passo pela cidade e o Edgar, moçambicano, amigo em comúm, convidou-nos aos 3 para irmos a uma festa familiar.

Para os moçambicanos- ou para os africanos, em geral- a família é o mais importante. Existem outros valores que são de igual importância, inclusivé valores materias e/ou superficiais mas, no fundo, a família será sempre o ponto de partida e de chegada. E quando me refiro a família falo de família alargada, que difere bastante do nosso conceito de família alargada. Enquanto nós, na Europa (ou mundo ocidental) falamos de pais, filhos, netos e, por vezes, alguns tios e primos e, nesse caso já estamos a ir muito além da familia nuclear, para eles família são todos os tios, todos os primos, todos os idosos (a mãe do tio político e que, aparentemente, não pinta nada), todas as crianças e por aí fora.
Assim, considerando a importância da família, os moçambicanos encontraram o  alíbi perfeito para se reunirem com os seus uma vez por mês ou várias vezes ao ano e ajudarem-se uns aos outros: chama-se xtike.

Condicionados pela correria do dia-a-dia, são privados da companhia das suas famílias. Segundo me contaram, as famílias que não fazem xtike ficam meses sem se verem. Só se encontram por casualidade ou nalgum momento de doença ou morte de algum membro da família

Como funciona?

Para participar no xtike é necessário entregar uma certa quantia em dinheiro que é colocado todo junto e entregue mensalmente a uma família nuclear dentro da familia alargada.

Por exemplo, a família Lameira entrega o dinheiro do xtique do mês de Fevereiro ao casal X e Y Lameira. Assim, o casal X e Y durante o mês de Fevereiro usufruem de um empréstimo familiar para organizar a sua vida sem ser necessário recorrer a bancos ou outras entidades creditícias que cobram juros altíssimos.

É uma espécie de mealheiro familiar. Ninguém perde ou ganha dinheiro. Em vez de colocarem mensalmente uma quantia numa conta poupança, entregam o dinheiro a um “tesoureiro” voluntário da família. Esse dinheiro nunca fica parado porque todos os meses é disponibilizado a outros membros da família que, por sua vez, disponibilizaram também eles a mesma quantia, num ciclo perfeito.

À parte é entregue também uma quantia mais pequena a uma família nuclear que se converte, assim, em família cicerone. É responsável não só de receber a família alargada para procederem à entrega do xtique do mês, como também de preparar comida em quantidade suficiente para alimentar um batalhão de gente que chega com o apetite inerente à alegria de se encontrar com os seus.

A logística é organizada de acordo com a cultura local e, moçambicano que se preze, dança até cair para o lado mesmo que tenha 200kg e uma barrigada de cerveja e delícias culinárias. As cadeiras são postas em circulo e, no meio, fica um espaço aberto onde mais tarde todos abanam o esqueleto. No fim da festa, para apaziguar os danos provocados pelo alcóol aka ressaca e/ou mau vinho, servem-se iguarias que podem ser cabeça de vaca, dobrada etc...
Pelo meio são entregues presentes aos aniversariantes do meses anteriores ou aos donos da casa. São, também, entregues capulanas com o mesmo padrão a todas as mulheres que assim o desejem (mediante o pagamento prévio à pessoa responsável de comprar as capulanas). Assim, todas as mulheres se passeiam para lá e para cá embrulhadas na mesma capulana.

Hospitabilidade é sinónimo de povo moçambicano

O que mais me surpreendeu foi a hospitalidade com que fomos recebidos. Desde o primeiro momento fizeram-nos sentir em casa sem que tivéssemos a sensação de sermos uns intrusos. Falaram conosco, contaram-nos coisas das suas vidas e cultura, pontos de vista, por vezes tão diferentes, mas que só demonstram que o ser humano tem inquietações comuns, independentemente das fronteiras, raças ou credos.

Cheguei a emocionar-me quando a tia Nina, a anfitriã, nos ofereceu- a mim e à Tatiana- uma capulana.

A capulana é um pedaço de tecido cheio de significado e é um presente com muito valor a quem o oferce e a quem o recebe. Uma boa capulana pode custar de 130 a 160 Mt. o que para os padrões locais representa certa quantidade de dinheiro. Mesmo assim, essas pessoas tão humildes, não hesitaram em vestir-nos tal e qual elas.

As mulheres com quem nos encontrámos no pátio ensinaram-nos a usar as capulanas e contaram-nos pedaços das suas vidas. O mais interessante é a forte identidade cultural com que se referem aos seus costumes. Têm sempre a curiosidade de saber como é que é “lá na Europa...lá no Brasil” sem jamais menosprezarem os seus próprios costumes, mesmo que aos meus olhos pareçam algo bárbaros ( a violência de género ou a vida dupla dos maridos).

O dono da casa, o Tio Dimas, deu-nos conselhos matrimoniais e a Tia Nina, que se bebesse mais 1 copinho cantava o fado, falou-nos do seu desejo de ir a Paris de lua-de-mel porque... adora perfumes. 




Miscigenação no pátio I

Miscigenação no pátio II



Me arrebenta

Nas festas africanas o que mais gosto de ver é o momento em que todos saltam para o meio da pista e se põem a mexer cada ossinho do corpo. No xtike da família do Edgar não foi diferente. Gostava de ser invisível para poder deleitar-me só com a observação. Mulheres grandonas e já entradotas nos 40 ou 50 mexem-se como raparigas novas. Elas não sabem mas são portadoras de uma grande sensualidade. Metidas nas capulanas fazem o rebola sem qualquer dificuldade e riem sem parar. Mesmo que mais ninguém tenha vontade de dançar elas não se envergonham de estarem sózinhas no meio da sala a dançarem ou de olhos fechados ou com um grande sorriso enquanto fitam a todos nos olhos.




Umas 6 horas depois de termos chegado como perfeitos desconhecidos despedimo-nos dos nossos novos amigo. Eu fiquei de alma cheia com a experiência e adorei a família do Edgar. Parecem muito unidos e preocupados uns com os outros.

O facto de eles dançarem e divertirem todos juntos e de se olharem enquanto o fazem ao ritmo de música tão animada, que apela à alegria, faz com que se desvaneçam todos os rancores familiares que possam existir entre eles.
Também é notável o esforço financeiro que fazem para disponibilizar determinada quantia em dinheiro quando os salários aqui são tão baixos.
O xtique é igualmente um reflexo da solidariedade entre famílias e um claro sinal de que, para os moçambicanos, as tradições ainda são o que eram.


Agradeço infinitamente o carinho com que nos trataram e a comida booooaaaa que nos serviram.
Kanimambo.

3 comentários:

Rui Durão disse...

Adorei o teu blog. Já estou a seguir via rss! Continua!!!

Ofélia Queirós disse...

Olá Rui, Muito obrigada por comentares e seguires o blog.
Estás em Moçambique? Se sim, saberás que é dificil encontrar informaçoes na web sobre costumes locais. Estou a tentar aportar o meu graozinho de areia :)

Luís Melembe disse...

Fico feliz por saber que adoram a nossa tradição... adorei. Luís Melembe (Moçambique)