quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Évora

“Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens.” Vergílio Ferreira, “Aparição”, 1959
 
Praça do Giraldo
fonte:google.pt
No início de Janeiro fui visitada por umas amigas castelhanas. Quando me perguntaram quais os sítios de visita obrigatória num percurso de quatro dias, não hesitei em sugerir Évora. Não foi ao acaso, claro está, porque sou filha, neta, bisneta, trisneta (e por ai fora) de alentejanos mas desenganem-se se acham que foi uma sugestão tendenciosa. Fiquem sabendo que quando os meus amigos de fora me pedem sugestões eu menciono sempre Lisboa, Sintra, Porto e Óbidos por esta ordem. No entanto, por mais terras e gentes que conheça por esse mundo fora, continuo a achar que não há cidade mais bonita que Lisboa e gente mais encantadora que os alentejanos. Acrescenta-se a admiração que sinto por eles como unidade. Se hoje posso escrever este texto em português é porque um dia os alentejanos (que ainda não o eram) lutaram contra a ocupação do inimigo, fosse mouro, fosse castelhano. E se hoje em dia se permite às pessoas agirem segundo as sua próprias convicções (e isto é discutível) é porque os alentejanos resistiram à ditadura salazarista através de uma malha de clandestinidade que foi responsável, em parte, pela chegada da Democracia a Portugal, em 1974.

À parte as razões histórico-sociais, existem, para mim, um sem fim de razões emocionais que me ligam ao Alentejo. E posso-vos garantir que o Alentejo tem um cheiro, um sabor, uma cor e um ritmo únicos. É a atmosfera das aldeias caíadas de branco, com uma igreja, uma Casa do Povo, um posto da guarda e um cemitério. Com velhinhas vestidas de negro que passeiam para cá e para lá com muita genica, que dormem a sesta pela “hora da calma” e que não são codrilheiras porque estão sempre sem vagar, sempre de abalada. Das casas com postigos com cortinas de renda feitas à mão que escondem segredos que só às próprias famílias dizem respeito mas que são do conhecimento de toda a aldeia e que, não raras vezes, dão origem às alcunhas e apelidos mais insólitos ( a minha família tem uma alcunha mas eu não vou contar qual é). De vizinhas que nas noites de Verão se sentam à porta a conversar, sentadas nos mouchos de produção caseira e que, quando passa um “forasteiro”, perguntam sem papas na língua “Então e vocemessê de quem é? quem é su mãe?”, enquanto os gaiatos brincam na coutada. O Alentejo do gaspacho e da açorda, pratos hoje em dia considerados de elite, mas que outrora  mataram a fome aos desgraçados que trabalhavam de sol a sol na ceifa, na apanha disto, daquilo e do outro. Do papo-seco, da gotinha de café e do acento doce e acolhedor que termina sempre na prolongação das vogais.

O passeio

Bom, posto isto, vou passar a relatar a minha ultima visita à bonita Évora 
A cidade existe desde a época romana mas foi no período árabe que ganhou maior relevância. Na Idade Média foi um importante centro artístico e cultural mas caíu em desgraça com a invasão dos Filipes.Hoje em dia é a capital do Alentejo e um dos mais importantes campus universitários do país. Em 1986 foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO.

Tendo como ponto de partida a Praça do Giraldo, dirigimo-nos ao Posto de Turismo e o funcionário avisou-nos que o passeio turístico demoraria, como muito, duas horas. Mas nem por isso, são duas horas aborrecidas, ou menos interessantes porque Évora tem muitos recantos com histórias, vistas bonitas e detalhes cheios de graça.
Logo ali no Giraldo, tomámos uma bica no café Arcada e seguimos pela televisão o luto nacional pelo Eusébio. Fomos abordadas por um local que tinha um parafuso a menos e que nos garantiu que logo aparecia para pormos a conversa em dia. Felizmente, não lhe voltámos a por a vista em cima!

Catedral

Seguimos pela Rua 5 de Outubro e fomos dar ao largo da Catedral. A Catedral é uma construção dos séculos XII e XIII em estilo gótico. Torna-se diferente porque se assemelha mais a uma fortaleza e não tem um desenho assimétrico. A entrada tem o valor de 1,5€ a 2€.
Depois virámos à esquerda e encontrámos quase imediatamente de frente o famoso templo, construído nos séculos II ou III e comumente denominado “Templo de Diana” embora não se saiba precisar exactamente a que divindade foi dedicado.
Mesmo ao lado do templo está o antigo Convento dos Loios, convertido em pousada e o Palácio dos Duques de Cadaval. A entrada no Palácio custa 5€ consoante se faça com ou sem visita ao Claustro. Nós não entramos. Embora seja compreensível que a conservação dos monumentos tenha gastos muito elevados e, pelo qual, devemos pagar algo, considero que esse algo deverá ser simbólico, sobretudo se se trata da visita a uma casa onde viveu uma família abastada, nobre e que alcançou esse mérito sabe-se lá como.

"Templo de Diana"

Desfrutámos das vistas do Miradouro e seguimos para a Antiga Universidade. Estava fechada, portanto não pude mostrar às minhas amigas o Claustro e as salas de aula tão antigas como bonitas.

Continuámos em direção ao Largo das Portas da Moura e caminhámos por ruas estreitinhas até chegarmos à Igreja de São Francisco, cujo principal atrativo é a Capela dos Ossos.
Esta capela foi construída no século XVII e tem uma aparência macabra já que está revestida de milhares de ossadas e dois esqueletos inteiros pendurados por umas correntes. No pórtico da entrada está escrita a enigmática frase “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e convida à reflexão sobre a morte e a efemeridade da vida, motivo pelo qual três monges a construíram.
 
Capela dos Ossos
Fonte: historiadeportugal.info
Depois andámos por ali a circular e esquecemo-nos de ir visitar o Aqueduto e o Miradouro do Alto de São Bento. Perguntámos aos eborenses o melhor sítio para comprar pupias ou costas (bolos secos típicos da região) mas ninguém nos soube indicar. Por isso, fomos a uma cadeia de supermercados e comprámo-los lá. Fiquei um pouco desiludida por verificar que já não existem senhoras que fabricam clandestinamente nas suas casas bolos e pão da região.

Certamente, mais sítios na cidade haveria para visitar e, não dúvido que Évora e os arredores, oferecem uma data de ofertas para passar fins-de-semana com encanto e desfrutar da calma que caracteriza o Alentejo.
  
Onde comer?

Contou-me uma amiga de apelido Passarinho (eu não vos disse que os alentejanos têm sempre nomes e alcunhas muito insólitos?), originária de Elvas e antiga estudante universitária em Évora, que no Restaurante “A Pipa” , na Rua Serpa Pinto, se come bem, assim como no “O Lavrador”, na Rua de Machede, e que “O Burladero”, perto das Portas de Avis, é óptimo para o petisco.
Contou-me ainda que as tascas “As Cozinhas de São Francisco”, perto da Capela dos Ossos, e a “Sicnic”, perto da Horta das Figueiras, são as melhores para comer caracóis. E para os mais gulosos há diversas pastelarias que fazem a diferença, inclusivé uma que está aberta à noite, a “Académica”.

Para finalizar, contou-me a minha amiga que a tasca “Manel dos Potes” é o melhor sítio para tomar um abafadinho (há uma no mercado em frente à Capela dos Ossos e outra entre o Giraldo e as Portas de Moura).

Sugestão:

Há muitos anos li a obra “Aparição”, Vergílio Ferreira. A ação desenrola-se em Évora e é, à parte de uma óptima escolha de leitura – embora um pouco intensa- uma óptima guia e convite para uma visita à cidade.


“Lavei-me enfim, mudei de roupa, saí para o Liceu, com uma tranquilidade nova. A cidade resplandescia  um sol familiar, branca, enredada de ruas como  de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos das orações de outras eras, janelas góticas, como olhares embiocados...É como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do Templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois as ruas descem apressadas, oblíquas, velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco.” Vergílio Ferreira, “Aparição”, edições Quetzal

Nós com a Maité detrás da câmara

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Lisboa, gosto tanto de ti

O meu  novo bairro 
Três meses volvidos sobre o meu regresso eis o momento de fazer uma abordagem à realidade da minha cidade. Depois de cinco anos como turista em Lisboa, estou de volta. Não está a ser uma volta tão intensa como eu esperava, ora por falta de dinheiro para alinhar em programas outdoor, ora por falta de companhia, já que a realidade dos meus amigos portugueses mudou bastante nos últimos anos, ora porque já não desfruto tanto da solidão absoluta.

Mesmo assim, quando há três meses voltei para casa, percebi algumas mudanças positivas e que são visíveis a olho nú.

Em África aprendi uma grande lição que eu espero que se instale no meu carácter para sempre. Lá na terra do Pandza aprendi que o copo está sempre meio cheio. Por isso, embora hajam muitas coisas criticáveis, decidi fazer um "apanhado" de aspectos e costumes sociais dos lisboetas que considero que sofreram uma melhoria significativa e que ajudam a que cada vez mais nos pareçamos um país do século XXI sem que, contudo, percamos a nossa identidade.

Lisboa, cidade da Tolerância

Dizer que Lisboa é a cidade da Tolerância por excelência ainda me parece um pouco exagerado, mas na capital continua-se a respirar multiculturalidade e, cada vez mais, os portugueses de todas as cores têm uma atitude de respeito e civismo para com os outros. 

fonte:olhares.sapo.pt
A reabilitação

Não sei de quem é a culpa. Ouvi dizer que o presidente do município, um tal de António Costa, é o culpado da boa cara que Lisboa começa a ter. 
Em cada rua, em cada beco, já há edifícios recuperados ou em via de recuperação. Afinal, debaixo das fachadas okup@das pelos pombos existem edíficios elegantes, dignos de postal e capazes de fazer corar de vergonha outras cidades bastante mais famosas.

Lisboa: novo destino turístico

Que boom de turistas é este que torna a cidade tão bonita, tão movimentada, tão alive?
Antigamente só os nuestros hermanos nos vinham visitar e algum ou outro americanóide perdido na velha Europa. Agora há gente de todas as partes: brasileiros, eslavos, franceses e italianos (estes últimos dois aos magotes), americanos etc...

É um prazer ter-vos por cá. A vossa presença traz mais cor às nossas vidas ( e mais trabalho também...)

A Rádio em Portugal

Como já vos tinha aqui, a rádio em Espanha é um meio de comunicação abominável no que concerne à música. Em Moçambique idem idem e, inclusivé, escasseam espaços de debate intelectual.
Em Portugal a rádio, mesmo as frequências mais mainstream, são muito ecléticas. Passam todos os estilos de músicas e há horas e horas de conversa. Enfim, a rádio em Portugal continua a exercer o seu papel de janela para o mundo e para a revolução (de ideias, leia-se).

Made in Portugal

Afinal o nosso país tem muito mais que mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. 
Meu Deus, de onde saem tantas ideias, tantos materiais e tudo tão giro? E os preços são cada vez mais competitivos. 
Na verdade, à excepção da Zara (não consigo abdicar da Zara), quando quero procurar algum presente original ou algo fora de comum para vestir ou comer, instintivamente já procuro as lojas de distribuição de produtos nacionais. 



Comércio Tradicional

Não é, pois, de admirar que o comércio tradicional esteja a viver uma espécie de nova "idade dourada". E a verdade é que é um prazer entrar nas lojinhas de antigamente, encontrar um empregado que também é de antigamente e comprar bolachinhas às gramas, perfume a decilitros e sabonetes de enxofre que há uns anos já eram impossíveis de encontrar e que tanto bem fazem às impurezas da pele.
Eu estou encantada com a minha porta do lado, a "Mimosa da Penha" e com o Pedro que me vende carcaças como as de antigamente.

Fashionismo, ou o bom aspecto

As pessoas estão muito mais bonitas, mais cuidadas e com melhor aspecto. 
Embora, muito a meu pesar, se vejam cada vez mais fashionvictims nas ruas da cidade, podem-se encontrar pessoas muito originais na maneira de vestir sem terem nem aquele ar cinzentão de antes, nem um aspecto estereotipado. Há também cada vez mais criadores profissionais e amadores que apresentam sugestões. 
Ora vejam estas duas criadores que me fornecem uma jóias e a outra acessórios de lã.

A comunidade africana no seu melhor

Já quase a terminar este post, não poderia deixar de mencionar a minha querida comunidade africana. Aquela que, no meu ponto de vista, traz mais ruído ao nosso mundo tactiturno; que traz mais cor, mais cheiros e mais movimento à nossa doce melancolia lusitana. 
Pois bem, a mim parecem-me cada vez mais integrados, cada vez melhor recebidos. Os "zébonés" já não metem medo a ninguém. Devagarinho vão-se afirmando através do intelecto e, neste ponto, como sempre, as mulheres vão muuuuuito mais à frente que eles.

Homens portugueses

Gordos, magros, feios, bonitos, altos, baixinhos, os homens portugueses continuam a ser os mais doces na hora de dar um piropo a uma mulher. Logo, com o tempo são todos farinha do mesmo saco, portugueses, espanhóis, chineses etc..., mas na hora de apreciar uma mulher continuam a ser GRANDES, sedutores e sem roçarem a vulgaridade. Agradece-se muito que continuem como sempre, como dantes ( até o piropo à trolha é mais doce em Portugal).

detalhe de muro no Cais do Sodré
Podem ler mais piropos aqui e aqui

Depois de beber de tantas culturas quase me sinto uma estrangeira no meu próprio país. Gosto mais dele quando estou fora, confesso. Os salários e as dificuldades estruturais do dia a dia minam a vontade de ficar cá que costumo ter quando não estou, no entanto, se me dessem a opção de voltar a nascer, não tenho dúvidas que escolheria Portugal para ser a minha Pátria, o meu berço para sempre. E Lisboa continua a ser ante os meus olhos curiosos a cidade mais bonita que já vi. Ainda continuo a querer casar com ela. Só não sei quando...

" Talvez que eu morra de noite 

Onde a morte é natural 

As mãos em cruz sobre o peito 

Das mãos de Deus tudo aceito 

Mas que eu morra em Portugal."




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Fundação José Saramago, Lisboa

Vista para o Tejo e para a cidade desde o interior da Fundação José Saramago
fonte: google.pt
Há qualquer coisa no Saramago que me emociona. Admito que parte dessa emoção seja fruto dos remorsos que sinto. Como já vos contei, durante muito tempo ignorei a sua obra e vida, em parte porque cresci num contexto social e numa geração para quem o Saramago trazia a sensação de sabor amargo da traição ( "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" foi publicado em 1992) e a dificuldade de ter obras de leitura obrigatória que, segundo o mito, estavam desprovidas de pontuação e que posteriormente seriam tema de avaliação nos exames nacionais, logo, à partida, uma porta directa para o chumbo.

"Um pequeno país, uma grande língua." J.S

Também, parte da emoção que o mundo Saramago me provoca prende-se com o facto da obra dele me ter sido generosamente apresentada por um amigo com quem, casualmente, me reencontrei no dia do meu aniversário, em 2010, o dia da morte do escritor. Menos de dois anos depois esse amigo também desapareceu trágicamente num acidente de moto...
Se na vida após a vida existirem encontros oxalá eles se encontrem. Tenho a certeza que o José haveria de apreciar muito a companhia do Álvaro.

"Mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia." ultima frase d´O Memorial do Convento

Desde que voltei para Portugal que a Fundação José Saramago me parecia tentadora.
Logo à entrada troquei umas palavras com a recepcionista sobre Kalevala, compilação de poemas finlandeses, e os Kalevala, um grupo de música da Macedónia.

Despois desfrutei do imponente interior do edificio e do ambiente de homenagem ao escritor.
A exposição é uma mistura de edições dos livros em diferentes línguas, de objectos pessoais que decoraram os espaços onde o escritor viveu e trabalhou, de entrevistas dadas a diferentes meios de comunicação de diferentes países e, claro está, um destaque especial para o momento de atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1998.
A medalha com o perfil de Albert Nobel que ele recebeu, assim como documentos audiovisuais do momento da entrega do prémio e o discurso sobre os Direitos Humanos que ele proferiu, em Estocolmo,  estão em exposição.

Eu chorei o tempo todo. Chorei porque é um escritor extremamente humano e humanista, distinto das etiquetas que, por vezes, ainda insistem em colocar-lhe. Na exposição está patente a preocupação do homem e do escritor pelo mundo que o rodeava e, sobretudo, pelas pessoas, sempre as pessoas.

Penso talvez que essa seja a maior surpresa para aqueles que desconhecem quem foi Saramago e que, ao aproximarem-se do seu universo, vão descobrir que por detrás da aparência algo fria e seca, estava um homem capaz de aquecer corações, fazer rir e despertar consciências. Capaz de nos fazer ver que o caminho do bem é possível e viável, não obstante o pessimismo. Que tu+eu é uma fórmula possível e universal independente das religiões ou crenças. É uma fórmula feita de Amor e que um mundo bonito e perfeito mas sem Amor é um mundo vazio.

"Os livros levam dentro uma pessoa, o autor." J.S.

Esta é a minha interpretação pessoal (e emocionada) de José Saramago e do seu legado.

"Eu creio que estamos necessitados efectivamente de uma insurreição (...) sim uma insurreição ética, mas não no sentido corrente moralizador porque no fundo seria ir pelo mesmo caminho. Eu diria, antes, uma ética de responsabilidade." J.S.


Túmulo de José Saramago, frente à Fundação
fonte: google.pt



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Querido Madiba


“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

domingo, 27 de outubro de 2013

El vaso medio lleno

Lo bueno que tienen los palos que la vida te da es que al menos, con ellos, viene la falta de apetite y uno puede afinar un poquito la cintura que se había descuidado


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

La perdida+ a despedida: o mais triste 2 em 1

No outro dia uma amiga amiga de infância pôs no muro do FB dela a seguinte frase "Pessoas caladas têm mentes barulhentas". Não podia estar mais de acordo. Acho que por vezes nos sentimos parcos em palavras porque cá dentro está tudo de pernas para o ar. As ideias e os sentimentos estão todos misturados e, os problemas de expressão tornam-se mais evidentes se cá dentro se sente o peso de uma rocha em dor e tristeza.

Viver o fim de uma relação à qual se deu muito implica uma grande capacidade de gerir e canalizar sentimentos para o caixote do lixo. Depois da confusão inicial e de ultrapassada a fase de negação, acredito que ninguém gosta de carregar no peito a sensação de frustração, ciúme, injustiça e precipício. O segredo está em saber manter o equilíbrio e reaprender a andar sózinho, sem aquela querida companhia ( e isto não é pêra doce).

Por isso, quero partilhar convosco que a vida me presenteou um final de relação 2 em 1. 

No dia 2 de Outubro disse adeus a Moçambique. Ficaram na calha tantos sonhos por cumprir e tanto por conhecer, dar e receber. A terra das capulanas e dos sorrisos maningue tranquilos ficará para sempre a palpitar no meu coração. Sei que não tarda nada vou  começar a padecer do mal de África- impossível esquecer aquele chão cor de fogo- e, portanto não ponho de parte um regresso.

Quanto ao outro final, embora tenha tido muitos meses para crer no que os meus olhos viam, o meu coração pressentia e o meu corpo doía, ainda estou atónita. 
A minha cabeça cansada já assume o final mas a minha saudade ainda não consegue perceber em que momento é que a minha artéria aorta portuguesa sofreu um corte daquela artéria aorta espanhola. 
Acabou-se, pois, a união ibérica mais linda que o mundo jamais havia visto. Tenho o meu coração inteiro para aqui a sangrar por ter perdido a melhor, mais querida e mais amada metade de coração a quem se tinha dado. Nunca tinha dado tanto a ninguém e aceitado com tanto altruísmo as dificuldades inerentes a uma relação, mas há muito tempo que uma das patas coxeava insistentemente e para mim deixou de ser suportável ter a coluna em diagonal.
O pior já passou. Posso aceitar que chegou o fim. Agora, cada dia é dia de ir ao posto socorro fazer o curativo. E um dia, quando menos esperar, voltarei a encontrar a minha meia tortilha que me há-de fazer feliz ( ou o meio azulejo, ou a meia chamussa, ou a meia pizza, ou a meia fish&chips, ou sei lá...).

E a vida não é mais que isto: sorrir, cair, sofrer até voltar a sorrir novamente.

Obrigada por terem acompanhado a minha vida em Moçambique. Brevemente tratei detalhes da minha volta à Lusolândia, que não cessa de me dar as boas-vindas com um sol maravilhoso.



Ele tem sempre as palavras que eu preciso numa voz que me marea

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Caixote do lixo

"hay momentos en la vida, en los que la tristeza es tan grande que nada ni nadie puede hacer que desaparezca... solo uno es la fuente de poder para que esos momentos se dispersen en el tiempo"...





quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Maningue Kanimambo*: apadrinhar e ajudar as meninas da Mãe Clara

Primeiro passo: a reportagem

Comecei a pensar o que é que estava ao meu alcance para ajudar um pouco mais e melhor as irmãs e as meninas do orfanato. Pensei que a melhor maneira seria pôr-me em contacto com alguém que tivesse certa visibilidade para que pudesse divulgar o projecto de apadrinhamento.

Eis, senão quando me lembrei que a Cocó na Fralda tem uma rúbrica dedicada à realização de sonhos e iniciativas de cariz social.  Contactei com ela e imediatamente interessou-se não só pelas meninas, mas também pela minha história pessoal e motivações que me levaram a Moçambique. Assim, num belo dia de Setembro- que eu ainda não descobri qual foi- saíu no Jornal de Noticias  uma reportagem sobre mim e sobre o programa de apadrinhamento das meninas da Casa Mãe Clara.

E a Codil leu a reportagem

Alguns dias volvidos da publicação da reportagem, ligou para o orfanato um senhor muito simpático chamado Vitor Mota, director da Codil, uma empresa portuguesa que fabrica soluções em plástico., com sucursal em Maputo. Contou-me que o chefe dele tinha lido a reportagem e, desde Portugal, lhe tinha pedido que nos contactasse e auscultasse as necessidades da casa.
Assim, numa bela manhã de uma Sexta-feira o nosso D. Quixote apareceu acompanhado de outros dois colegas, o João e o Mauro, e trouxe-nos 100 pratos de plástico, 100 copos de plástico, 100 jarras de plástico, 60 pratos de plástico para pic-nic e um alguidar gigante onde a pequena Jeni pode fazer de conta que está na piscina.

Não me importa estar descaradamente a fazer-vos gramar com publicidade. A Codil preocupou-se e decidiu compromoter-se socialmente com um projecto. Podiam estar-se marimbando para a pobreza dos moçambicanos e manter-se à margem na borbulha sediada nos bairros de Sommerchield e Polana. Não foi isso que aconteceu, por isso, o meu desejo é que a Codil cresça em força, que todos os que me estão a ler comprem plásticos fabricados por eles e que eles continuem a ajudar as “minhas” crianças.



Apadrinhar crianças da Mãe Clara

Bom, mas como o meu ego não aguentou o facto de ter saído uma reportagem com a minha história e a minha foto num dos jornais de maior tiragem de Portugal, decidi enviar um e-mail a todos os meus contactos da Peninsula Ibérica. Quase me mijava nas calças de tanto orgulho!

Os apoios começaram a chegar, sobretudo de Espanha. A Rosa, minha amiga, enviou uma ajuda para comprar fruta ( Rosa es la dueña del establecimiento de estética donde yo hice la depilación  y me auto-regalé unos mimitos durante los tres años que viví en Madrid, el Beauty-Zen, en Paseo del Molino, Legazpi).

Depois a Mónica, luso-espanhola e minha antiga companheira de trabalho, decidiu apadrinhar uma criança. “Impingi-lhe” a Vanessa, uma menina linda de 11 anos que ficou orfã este ano e, portanto, ainda não tem padrinhos a quem escrever e que a cuidem, mesmo à distância.

Se vocês estiverem interessados em apadrinharem alguma das nossas crianças podem consultar as condições e procedimentos na página do Lar http://casamariaclara.no.sapo.pt/ ou contactem a Madre Superior, Irmã Ana Paula paulinhaartur@gmail.com

À parte a informação institucional, garanto-vos que a Casa Mãe Clara é um dos projectos mais sérios que conheci. Durante todos estes meses em que estou a colaborar com as irmãs, percebi que todo e qualquer tostão que lhes chega através de ajudas é canalizado prioritáriamente para a alimentação e educação das crianças que elas se comprometeram a criar.
Não ponho em causa a gestão e acção das outras instituições, sejam fundações ou ONG´s, mas a minha experiência em Moçambique e o contacto mais que directo com maneiras de trabalhar que deixam tudo a desejar, levam-me a aconselhar aqueles que querem ajudar a pensarem muito bem antes de entregarem os seus recursos financeiros a qualquer entidade. Infelizmente, há uma grande falta de valores no meio. 

Sintam-se, pois, convidados a ajudar. Parafraseando a própria Mãe Clara "Fazer o bem onde há bem a fazer".



*Muito obrigado

domingo, 29 de setembro de 2013

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

É fácil criticar

Dizer  da boca para fora “gosto” ou “não gosto” é muito mais fácil do que sentir cá dentro a evolução de um sentimento positivo ou negativo, sobretudo, em determinados contextos, já por si “especiais”.
Para mim, à primeira vista, gosto de todas as meninas do orfanato. À segunda vista já não é bem assim. Com o convívio fui-me dando conta que algumas meninas não as gostaria de ter para mim, nem oferecidas ou recheadas com molho de chocolate.

Em Moçambique conheci pessoas extraordinárias mas, também, percebi que a cultura da necessidade cria muitos “bandidos”. É dificil confiar a 100% nas pessoas, por muito queridas que sejam. E isto aplica-se a um rango dos 0 aos 100 anos. De trás de tudo isto está, como não poderia deixar de ser, o peso dos 500 anos de escravatura: “O branco não é de confiança mas tem dinheiro, portanto vamos aproveitar”. E esta maneira de ser é transversal a diferentes contextos e situações. Aqui no orfanato, as meninas também fazem “bandidagens” com o carinho e com a atenção.

Do meu ingénuo estereotipo dum orfanato faziam parte alguns conceitos muito cor-de-rosa. Por exemplo, eu pensava que as meninas não eram invejosas umas com as outras. Que o facto de todas necessitarem faria com que fossem compreensivas e, inclusivé, se alegrassem quando uma tivesse algo mais e estivesse disposta a partilhar. Não só são invejosas, como fazem trinta por uma linha para conseguirem manipular a atenção daqueles que chegam vindos de fora.

Também me deixavam louca (e ainda deixam) a indisciplina na sala de aula e a falta de concentração. Mesmo as meninas que no pátio são extremamente bem educadas, na sala de aula tornam-se feras.  Mas o que mais me intrigava ao início era a capacidade nata para esquecerem tudo de um dia para o outro. Uma menina que num dia se porta bem, acerta as contas todas, as letras, as sílabas etc...no dia seguinte é bem provável que não saiba nada. Como se durante a noite a sua mente tivesse sido assolada por um vendaval que varreu tudo. E, assim, fui descobrindo muitas vigarices e bandidagens entre elas e comigo. Involuntáriamente comecei a gostar mais de umas que de outras. Não deixava transparecer os meus sentimentos, porque sou consciente do lugar onde estou. Num orfanato todas necessitam de grandes doses de auto-estima, no entanto não podia evitar, cá dentro do meu peito, sentir o rum-rum do meu coração, quando algumas delas se aproximavam ou, pelo contrário, sentir certo aborrecimento quando se aproximavam outras. Por isso, comecei este texto por dizer que é muito mais fácil sentir certos sentimentos, em deterimento de outros.

Comecei a queixar-me às irmãs de alguns comportamentos de algumas meninas. E foi quando me começaram a ser abertas as portas para conhecer melhor o historial de algumas meninas. Mesmo antes de ter acesso a essa informação, não tinha qualquer dúvida de que, para estarem aqui, é porque a vida já tinha sido muito madrasta com elas. Nos países mais pobres as crianças já nascem à partida condenadas e isso não é nada justo.

A F. de 12 anos é mentirosa compulsiva. Está sempre a inventar histórias e põe uma cara de pena tão penosa que é impossível não ficar com o coração partido ao vê-la e ouvi-la. Ao principio parecia-me que tinha uma extrema necessidade de atenção e carinho. Justifiquei com as suas carências as dificuldades que demonstrava com as letras. Todas as meninas e a formadora me diziam que a F. não sabia ler. Comecei, pois, a trabalhar com ela e a personalizar a minha forma de a ensinar. Convidei-a para vir à casa dos hóspedes, sentava-a ao meu lado e punha-a debaixo do meu sovaco, como gosto tanto de fazer com os meus sobrinhos. Em qualquer momento que a encontrava por aí convidava-a para ler. Com grande desgosto percebi que a F. sabe ler perfeitamente (com as dificuldades típicas das crianças que não têm o hábito e leitura) e que se dedicava a fazer “teatro” para conseguir captar a minha atenção. Seguiram-se depois uma sucessão de mentiras. Foi quando descobri que a mãe da F. é prostituta e que a F., quando ainda vivia com a mãe, num ambiente bastante hóstil, era utilizada como transporte de droga entre outras misérias humanas às quais qualquer ser humano, sobretudo sendo criança, deve ser privado.

A S. e a C., ambas de 10 anos, irmãs, portam-se qual delas pior. São umas terrivéis, autênticas crianças-furacão. Chegaram ao orfanato há menos de um ano e quando chegaram não falavam português. Ambas têm dificuldades para aprender e, sobretudo, não conseguem estar concentradas mais de meio segundo. Confesso que são o tipo de crianças que não gosto de ter na minha sala de aula porque onde estão criam confusão (atenção: não gostar de as ter como alunas, não significa que seja menos professora com elas). Parti do principio que vinham de um ambiente de violência e que por isso eram, elas próprias, tão violentas e agitadas. Descobri que nas cheias de Fevereiro deste ano a polícia as resgatou de um telhado onde, juntamento com outros vizinhos, permaneceram bastante tempo como unica forma de sobreviverem. A desnutrição pela qual passaram não foi o pior. O pior foi ter de ver, desde o alto, lá no telhado, todos os cadáveres que a água arrastava. Na mesma altura perderam a mãe e a C. quando chegou ao orfanato, além de ter muita febre, ficou duas semanas sem falar.

A A., de 9 anos, pelo contrário é um Ás nas aulas. Quando as outras ainda nem sequer acabaram de copiar, a A. já copiou e resolveu os exercícios e já está a pedir mais. É maravilhoso dar-lhe aulas. Também me pareceu sempre uma criança muito bem resolvida com a sua história. Não demonstrava demasiada necessidade de carinho. Ao contrário das outras, que preferem estar penduradas nos nossos pescoços, a A. prefere sempre e acima de tudo jogar e brincar. Esta criança é uma fortaleza. Quando era pequena viu o pai assassinar a mãe degolando-a. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, quando a A. brincava com a sua irmã, pegava numa caneta e encenava a morte da mãe. Atribuo a sua boa educação e temperamento doce ao facto de estar a ser criada por uma avó que, segundo ouvi, é uma mulher maravilhosa.


Aqui cada menina traz com ela uma carga muito pesada. Não posso evitar gostar mais de umas que de outras, mas quem sou eu para as criticar? Defendo que se estas crianças pudessem ser adoptadas (a lei de adopção em Moçambique é muito fechada) e ter um lar, a pedra dura que levam na cabeça e, às vezes, no coração, poderia ser esculpida.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O prazer de ensinar

Uma infelicidade trouxe-me até ao orfanato. Como já contei aqui, vim com uma ONG que funciona mal. O dinheiro existe para pagar bolsas de estudo de mérito duvidoso, vinhos e casas de luxo. Tudo o resto, a verdadeira cooperação, é fictício, segundo os modelos de gestão da pessoa que comanda essa ONG.
Depois de meses de frustração, sem rumo, chegar ao orfanato foi o melhor que me podia ter acontecido. Estar aqui e poder contribuir de alguma maneira para o futuro destas crianças foi sem dúvida o ponto fulcral de toda esta experiência mas não falo apenas de questões humanitárias. Pessoalmente descobri uma vocação que até então desconhecia: ensinar, ser professora.
Transmitir conhecimento dá uma sensação de poder tremenda. Saber que, através de mim e das coisas que lhes ensino, elas no futuro terão acesso a outras oportunidades faz-me sentir útil e capaz.

O nivel de ensino em Moçambique é vergonhoso. Até ao 7º ano todas as crianças são obrigadas a passar de classe. Só chumbam aquelas que não sabem mesmo nada. E o conceito de não saber mesmo nada aqui é literal. Há jovens de 18 anos que não sabem ler nem escrever mas sabem alguma coisinha (ainda não descobri o quê). Essas jovens foram passando de classe até ao 7ºano e, depois, aí ficaram como estátuas, convivendo com colegas de carteira de 11,12,13 anos e por aí fora. Poderia desfilar um sem fim de histórias reais que ouço diáriamente contadas pelos alunos e professores que demonstram que a escola existe para que as crianças moçambicanas possam ir passear os livros e sejam meros números nas estatísticas internacionais que pretendem demonstrar que Moçambique é um pais que está a crescer.

Infelizmente, a maioria das crianças a quem dei aulas aqui no orfanato, estão nessas condições. Sabem nada ou muito pouco. Tentei não desistir de nenhuma, embora algumas situações sejam desesperantes. Numa dessas “lutas” descobri que a T. de 7 anos, afinal sabe muito mais do que todos esperavam (mesmo sabendo muito pouquinho).

A T., foi abandonada à porta do orfanato quando tinha 3 ou 4 meses. Era um bebé e foi o ai Jesus da casa. Infelizmente, foi crescendo e demonstrando uma grande indiferença para com as coisas da escola. Tanto as colegas, como as irmãs me pediam que lhe desse alguma atenção especial. Confesso que ao principio não estava muito interessada em dar uma atenção privilegiada a uma criança irriquieta, barulhenta, suja e desorganizada, que estava mais interessada nas brincadeiras que nas letras. Mesmo assim fiz um esforço e isso foi-me recompensado. Afinal a T. só precisa de alguém que esteja ali ao lado e que a consiga manter mais de 30 segundos concentrada.

Quando todos descobrimos que a T. sabe escrever o nome dela foi uma enorme alegria. A Irmã Maria nem queria acreditar.


Deixo-vos aqui umas quantas fotos que comprovam que a T. é capaz de muitas coisa.



domingo, 22 de setembro de 2013

Lobolo

(Este texto está escrito com base nos testemunhos de moçambicanos e leituras aleatórias que efectuei ao longo dos anos. Não é um texto cientifico. Acima de tudo, expõe a minha visão assumidamente parcial sobre o tema.)

O Lobolo é uma prática ancestral com um peso muito grande na sociedade moçambicana até aos dias de hoje.
Do ponto de vista cultural pode ser comparado ao nosso antigo dote. Do ponto de vista puro e duro trata-se de uma compra: a família do noivo compra uma mulher mediante um pagamento em numero e/ou género à sua família.
Antigamente esse pagamento era feito como forma de agradecimento à familia da noiva por tê-la criado, educado e preparado para que fora uma boa mãe e esposa. Sobretudo, era muito apreciado (e bem pago) o facto de a noiva casar virgem. Porém, o lobolo, era acima de tudo, uma recompensa à família da noiva pela perda de uma filha (veja-se que o significado não era meramente afectivo, senão prático. Perder uma filha significava perder mão-de-obra doméstica).

Para nós, europeus, é uma prática sexista e retrógada. Contudo, para os moçambicanos é uma prática actual. Aqueles que não lobolam a mulher têm sempre uma dívida para com a família dela. A mulher que não é lobolada é uma mulher sem direitos.

Conheci dois casos de lobolos tardios e dois casos de lobolos feitos nos primeiros anos de vida em comum. Nos lobolos tardios, ambos casais mostraram as fotos do casamento e rituais de lobolo com muito orgulho. As senhoras, mães de não sei quantos filhos e avós de outros tantos, iam vestidas de véu e grinalda. Os senhores de fraque. Vi fotos deles a pegarem ao colo delas e a partirem o bolo de noivos com todo o romanticismo e tradiciolismo inerente a este acto (braços entrecruzados e um dá um pouco de bolo ao outro). Os “vovôs-noivos” falavam da cerimónia e demonstravam certo alívio por terem podido pagar a “dívida” que haviam contraído várias décadas antes com a sua família política. As “vovós-noivas” falavam do caso ainda com mais alívio porque as mulheres que não são loboladas, assim como os seus descendentes, não têm qualquer direito sobre o património familiar. Em caso de viuvez, mesmo que tenham filhos pequenos ou dependentes, a família do homem pode exigir que estas abandonem a casa familiar e todos os bens. A mulher lobolada perde o direito aos filhos. Já os filhos da mulher não lobolada “pertencem” ao tio materno. Como normalmente as mulheres moçambicanas são totalmente dependentes dos maridos, quando se deparam com esta situação extrema, são obrigadas a aceitar certas imposições bárbaras. A mais comum é a obrigação de servirem e manterem relações sexuais com um dos irmãos do defundo marido, ou seja, com o cunhado. O lobolo é também a justificação para mal tratar psicológicamente a mulher  “eu paguei por ti portanto vais fazer o que eu quiser”, ou o homem “tu não me lobolaste portanto não tens nada a ver com a minha vida”.

O lobolo é um ritual patriarcal, ou seja, é um negócio entre duas famílias que são representadas pelos homens das mesmas. A família do noivo dirige-se, pois, à casa da noiva. É-lhe entregue uma lista com algumas exigências. Normalmente a noiva, os pais delas e os avós deverão ser obsequiados com alguma coisa. Antigamente, no tempo dos casamentos arranjandos, estas listas eram de extrema importância e discutiam-se em plenário familiar. Nos tempos modernos todos os pedidos são aceites porque já foram acordados previamente pelos próprios noivos.
De acordo com o ritual, se a família do noivo aceitar, cerca de um mês depois da primeira visita, voltam a casa da noiva com os presentes. E depois vem a festa rija. Entre os presentes, é de bom tom oferecer uma bengala, roupa e sapatos ao pai, um conjunto completo à mãe, capulanas a dar com pau e utensílios de cozinha.

Existem mais uma série de detalhes que não domino de todo. Por exemplo, nos dias que antecedem a cerimónia religiosa, a noiva é totalmente coberta com duas capulanas unidas por uma barra de linho e é acomodada no chão, em cima de uma esteira. A família do noivo atira dinheiro e, quando a família da noiva e/ou a noiva, consideram que é suficiente, a noiva destapa-se. Antigamente, em muitos casos, o noivo não via a noiva até este momento. Imagino que alguns devem ter apanhado grandes sustos.

Em Moçambique a violência doméstica ainda é o pão nosso de cada dia. Existem uma série de observatórios, gabinetes, comités etc...de apoio e protecção à mulher mas na prática a mulher ainda é muito vulnerável, o elo mais fraco. A própria cultura incentiva ao mal trato. O homem que não bate na mulher “não é homem”. E quando bate, se a mulher decide apresentar queixa às autoridades é “porque não ama” esse homem de verdade. Existe um ciclo vicioso entre a cultura e a lei. No caso de a mulher ser lobolada a coisa complica-se, porque se ela decidir que não quer mais estar com o marido que a espanca, que lhe é infiel, que a contagiou com uma DST, a própria família dela apresenta-lhe uma série de entraves. Embora a lei já contemple situações como estas, o peso da cultura fala mais alto. Neste caso, dita que se a mulher decidir sair de casa e terminar com o casamento, a sua família terá de devolver o valor do lobolo. Ora, a família não está disposta a isso e pressiona a mulher a “aguentar” e manter tudo como até então.

Existe também o detalhe da multa. Em caso de a mulher lobolada já ter filhos do homem ele terá de pagar um extra por cada filho.

Nos tempos modernos o sentido do lobolo foi bastante deturpado. Da lista de exigências fazem parte muitas frivolidades. De qualquer forma, indaguei por aqui e acoli qual a opinião das mulheres sobre o assunto e se de alguma forma se sentiam tratadas pelas familias como “mercadoria”. A maioria reconhece que o lobolo tem essa faceta mas que o peso da tradição e o orgulho de o seguir à risca é mais forte que qualquer outro factor.

Tudo isto que acabei de contar faz parte da História da cultura moçambicana. Deixo-vos a foto de uma lista de lobolo elaborada há dois meses à qual tive acesso (mas que não fui expressamente autorizada a publicar. Bandidagem!) 

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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

João Baptista: a destruição de um mito

Na tentativa de dignificar o “monstro” João Baptista acabei por destruir o mito.(para quem não sabe quem é o dito cujo sugiro que click aqui)
Numa bela manhã de Quinta-feira, antes das 9h da manhã, o João Baptista veio ao orfanato. Ao contrário das aparições anteriores, chegou calmo, e esteve todo o tempo sentado ao pé do tronco da mangueira, numa atitude bastante introspectiva.
Mais de duas horas depois seguia na mesma posição, com o mesmo semblante pacifico. Decidi aproveitar a oportunidade para conhecê-lo um bocadinho melhor e fui falar com ele. Pensei também que o facto de as meninas me verem falar com ele faria com que fossem um bocadinho mais tolerantes.
Sentei-me muito perto e cumprimentei-o. Perguntei como estava, se já tinha comido etc...Respondeu-me com um doce sorriso tridental. Disse-me que estava tudo bem, que as irmãs já lhe tinham oferecido um chá e que ele estava só a descansar. Comecei a puxar por ele. Jamais havia visto um “monstro” tão fofinho (confesso que os velhinhos/as são o meu ponto fraco).

Falámos muito. Contou-me que lutou na guerra pelo lado dos portugueses. Perguntei-lhe descaradamente porque era tão alto. Pensei que talvez fosse descendente de algum somali. Disse-me que é filho de um americano com uma moçambicana. E depois o tico e o teco começaram a dar mostras de estarem avariados. Contou-me que ele é assim alto quando está doente, porque normalmente costuma ser mais pequeno. Contou-me também que é negro porque apanhou muito sol e mais umas quantas histórias da carochinha.

Logo no inicio da nossa conversa perguntei-lhe como se chama. Senti-me muito desapontada por saber que afinal o nome dele é Helder. Contei-lhe que as meninas lhe chamam João Baptista e ele riu-se muito. Chamei-as para o pé de mim e apresentei-lhes o Sr. Heldér. Algumas apertaram-lhe a mão. Enquanto falávamos elas começaram a sentar-se à volta dele. Quando me despedi de ele, já estavam umas dez a pulular por ali. Disseram-me que queriam que ele lesse para elas mas tinham vergonha de lhe pedir. Achei a situação tão extraordinária que fui a correr buscar a máquina das fotos.
Conseguimos tirar quatro fotos antes de ter ficado sem bateria. Fui-me embora e muito tempo depois elas continuavam à volta dele a ouvir-lhe a histórias.